“Brasileiras não se calam” e estão cansadas de assédio e preconceito

Desde meados de Julho, dezenas de histórias de preconceito, assédio e discriminação têm sido partilhadas na conta “Brasileiras não se calam” no Instagram. Com mais de 15 mil seguidores, o grupo já deu origem a uma rede de entreajuda para brasileiras que vivem em Portugal.

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“Moro há 17 anos em Portugal e até hoje ouço piadas diariamente. Nada mudou. Quando eu tinha 11 anos fui chamada puta pela primeira vez por um colega da escola. Onze anos. Hoje estou com 27 e ainda ouço os comentários do tipo.” O desabafo não tem assinatura, mas não é preciso ir longe para encontrar experiências semelhantes: pergunta a qualquer amiga brasileira.

Desde meados de Julho, mais de 130 histórias deste género têm sido partilhadas na página “Brasileiras não se calam”, organizada por um grupo de cinco mulheres. O rastilho acendeu-se quando uma das participantes do Big Brother em Portugal disse que “as brasileiras já tinham a perna aberta”, conta ao P3 Maria, de 23 anos, que prefere usar um nome fictício por receio de represálias. “Nós ficamos muito indignadas por isso ter sido dito num programa de televisão.” Não queriam deixar a situação passar em branco. “A indignação com os assédios no exterior por sermos mulheres brasileiras sempre existiu”, sublinha. Mas, talvez como uma forma de conseguirem lidar com essas situações, acabam por as “relevar”.

O que podiam fazer para o mudar? A resposta foi criar um perfil no Instagram, a que se seguiram contas no Facebook e no Twitter, “para dar voz às mulheres brasileiras” que sentem o preconceito. “Para que elas percebam que não estão sozinhas e também para dar visibilidade a esses casos porque muita gente não tem noção de que isso acontece”, explica. Em menos de um mês, já tem mais de 15 mil seguidores.

Que estereótipo é esse que sentem na pele? “Somos muito mais objectificadas do que mulheres de outras nacionalidades”, nota Maria. “Por isso muitos homens acham que podem tocar nos nossos corpos sem permissão e tentam justificar dizendo ‘ah, mas você não é brasileira?’” De acordo com os relatos recebidos através da página, “a visão que muitas pessoas têm, infelizmente, é que as mulheres brasileiras são todas prostitutas, que vão para Portugal buscando casar com um homem português para conseguir permanecer no país”, lamenta a jovem. Há ainda muitas pessoas que acham que elas são “intelectualmente inferiores a mulheres de outras nacionalidades”.

“De prostituta para baixo”

Na caixa de mensagens, recebem relatos de todo o mundo, mas a grande maioria é de Portugal. “Infelizmente também têm sido os relatos mais violentos, chegando até à agressão física”, conta Maria, que vive há cinco anos em Portugal. Por cá, já teve seguranças desconfiados a segui-la no supermercado, também foi seguida na rua por um grupo de homens quando ouviram o seu sotaque. “O caso mais extremo que já aconteceu comigo foi terem levantado a minha roupa em lugares públicos e também já terem passado a mão em partes mais íntimas do meu corpo, sem autorização.” Em relação ao estereótipo, contudo, a percepção a partir dos desabafos que chegam à página é que “nos outros países a visão equivocada das mulheres brasileiras parece ser a mesma que existe também em Portugal”.

Basta perguntar a qualquer amiga brasileira, dizíamos antes — e foi o que fizemos. No Facebook, lançámos a pergunta a mulheres brasileiras: já se sentiram desconfortáveis com situações que ocorreram em Portugal? “Já perdi as contas das situações indesejadas que já passei cá em Portugal por ser brasileira”, conta uma delas. Outra recorda uma conversa que ouviu no comboio a referir-se às brasileiras com termos “de prostituta para baixo”, em que “a única reacção foi ir à casa de banho chorar”. Há também o outro lado: “Até quando você recebe um elogio, é envolto de preconceitos”. Algo como: “Nem pareces brasileira...”

E situações de discriminação mais clara: verem recusada a compra de um contraceptivo na farmácia ou rejeitada a autorização de residência vencida em contexto de pandemia, mesmo havendo um decreto de lei que estende a validade até Outubro. M., que vive em Portugal há cerca de um ano, conta ao P3 que não houve uma situação que a fizesse sentir-se ofendida especificamente por ser brasileira, mas nota que ainda acontece em Portugal algo que no Brasil se lembrava de lhe acontecer só na adolescência: “O assédio machista por parte de homens hipócritas que ainda pensam que uma posição lhes dá o direito de achar normal um professor deixar constrangida uma aluna no meio da aula com supostos elogios desnecessários e fora de contexto”, exemplifica.

Outras resistências

Esta não é a primeira vez que mulheres brasileiras se juntam para mostrar a sua indignação com a forma como são vistas e tratadas em Portugal. Em 2014, uma lista à Associação Académica de Coimbra divulgou um conjunto de cartazes escritos por estudantes em que revelavam comentários que ouviram no contexto da universidade. Num dos cartazes lia-se um “conselho” de uma professora: “As alunas brasileiras precisam cuidar o comportamento, caso contrário, reforçarão o estereótipo de prostitutas, putas ou fáceis.” A lista não venceu as eleições, mas a campanha ficou na memória.

Já antes, em 2011, também a propósito de um programa de televisão, um grupo de académicas brasileiras tinha lançado um manifesto contra a discriminação contra as brasileiras em Portugal, que deu origem a uma petição que reuniu mais de mil assinaturas, contando com o apoio de 20 colectivos e associações, e inspirou um programa do provedor do telespectador da RTP dedicado ao tema. Uma das autoras foi Mariana Selister Gomes, que na altura estava a completar um doutoramento sobre este tema. Foi a primeira vez que se lembra de ver resistência no debate público sobre o tema, diz ao P3 a investigadora, que em 2013 defendeu a sua tese sobre o imaginário da mulher brasileira em Portugal e é actualmente docente na Universidade Federal de Santa Maria (no Sul do Brasil)​.

No seu estudo, descobriu que este estereótipo tão presente nas vivências das mulheres brasileiras em Portugal tem raízes nos “imaginários coloniais”. O racismo e o sexismo estiveram sempre presentes na relação dos portugueses com as ex-colónias, algo que acontece também com outros países colonizadores, e marca em geral as relações entre o Norte e o Sul global. Mas em Portugal a sexualização da mulher brasileira, vista como um “corpo disponível”, parece ser exacerbada, algo que Mariana Selister explica prontamente: “Isso não foi discutido o suficiente.” Com séculos de colonização na bagagem, ao invés da autocrítica, Portugal enveredou por uma leitura do seu passado através do mito da democracia racial, considera. Em meados do século passado, enquanto o Estado Novo reforçava a ideia do luso-tropicalismo, também a elite que liderava o Brasil “acabou reproduzindo esse imaginário”, até mesmo nas campanhas de promoção do turismo.

Décadas depois, quando o aperto financeiro do Brasil no final dos anos 1990 empurrou uma segunda onda de migrações em que mais pessoas com poucos recursos chegaram a Portugal, não tardou para que a brasileira, já antes vista como mulher exótica e erótica, passasse a ser associada à prostituição. Um dos pontos críticos foi a carta das “Mães de Bragança”, que em 2003 criou uma nuvem que faz sombra até hoje. 

Entreajuda

É relativamente fácil combater formas concretas de discriminação, nota Mariana Selister, já que são punidas por lei, mas o que fazer em relação às atitudes já naturalizadas? Esperar que passem apenas reforçaria o status quo: quando o assunto são mudanças culturais, “não fazer nada é ser racista, é ser machista e é ser xenófobo”, alerta.

Este cruzamento de estereótipos continua a existir mesmo com o passar do tempo. Camila Craveiro Queiroz, professora do Centro Universitário de Goiás (no centro do Brasil), concluiu em 2018 um doutoramento na Universidade do Minho, no qual estudou a experiência de envelhecimento de brasileiras migrantes. As vivências são diversas, determinadas não apenas pelo género e a nacionalidade mas também factores como o tom da pele ou a classe social. Quanto mais a migrante se aproxima do estereótipo, mais resistências encontrará para se integrar a longo prazo.​ “É muito marcante que a integração nunca acontece de maneira total”, em particular quando a precariedade financeira é maior, diz a investigadora ao P3. 

Além de alertar para o preconceito existente, a página “Brasileiras não se calam”, a crescer a olhos vistos, já motivou a criação de uma rede de entreajuda. No último sábado, organizaram uma videoconferência para partilha de experiências e apoio. No site agora criado é possível encontrar contactos de profissionais que se voluntariaram para prestar apoio jurídico e psicológico de forma gratuita a brasileiras que tenham sido vítimas de assédio ou discriminação em Portugal. 

À semelhança das redes solidárias organizadas durante o confinamento, há também aqui voluntárias que oferecem serviços como aconselhamento financeiro, aulas de inglês, orientação académica ou mesmo aulas de ioga de forma gratuita para brasileiras que vivem fora do Brasil. E ainda uma lista com mulheres brasileiras que vivem em Portugal e não conseguem arranjar emprego — “outro tipo de discriminação muito comum que nós temos recebido nos relatos das mulheres”.

Foi com receio de comentários agressivos que escolhem não revelar os seus nomes ou outras informações biográficas. E essas reacções surgem. “Infelizmente, temos recebido algumas mensagens do tipo ‘se não estão satisfeitas em Portugal, voltem para a vossa terra’. Mas como é que ficaria a economia de Portugal sem os estrangeiros que moram aqui ou que vêm fazer turismo?”, questiona Maria.

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