Paulo Whitaker/Reuters
Foto
Paulo Whitaker/Reuters

Megafone

O colonialismo deixou saudades e sede de violência

Tudo isto me bloqueia a hipótese de considerar a ideia de que podemos apontar para os jovens, os ignorantes ou os mal formados e acusá-los, "a eles", de xenofobia. Convém lembrar que respiramos uma nuvem de saudosismo colonialista

Não conheço, comparando com o resto do meu círculo de amizades, muitas pessoas vindas do Brasil. A maior parte das que conheço, porém, partilham duas características: são mulheres e estão em Portugal no contexto da continuação de estudos superiores. Colegas minhas, portanto, a completar mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos — com um nível de instrução e educação formal que ultrapassa avassaladoramente a média de educação em Portugal, tanto de homens como de mulheres.

Querem saber que histórias eu ouço da parte delas? Mais ou menos as mesmas vêm relatadas na peça da Amanda Ribeiro, mais ou menos as mesmas que temos presentes na nossa consciência, vindas de um imaginário (xenófobo) partilhado: histórias de clichés em torno da ignorância, da predação sexual, enfim, do parasitismo social, económico e cultural (estou a ouvir ecos do "Mein Kampf"). São coisas que nunca vi sucederem à minha frente — porque nos encontramos em salas de aula de uma Faculdade — mas são histórias constantes, presentes, sempre a renovarem-se.

Outras coisas, porém, já se processam à minha frente… Olhando para o recente escândalo de xenofobia na Universidade de Coimbra, é fácil descontar responsabilidades nos “jovens” (presumidamente ignorantes e imaturos). Eu, por outro lado, não consigo fazer o mesmo, e explico porquê. É frequente que eu e as minhas colegas nos encontremos para trocar textos que escrevemos (como capítulos de teses) para nos comentarmos mutuamente, para nos ajudarmos.

O que sucede infalivelmente é uma versão muitíssimo mais refinada e subtil do que foi parar às notícias: os textos, escritos em "Português do Brasil", são minuciosamente comentados, criticados, — ortopedicamente — de forma a ficarem “bem escritos”, escritos “da forma certa”. A lógica parece simples: se as teses vão ser entregues e lidas em Portugal, então é preciso conformar o discurso, o estilo e as expressões. Esta adequação — vezes demais articulada com um “isto não é assim”, ou “isto está mal”, ou “isto precisa de ser desta ou daquela maneira”, e até “se estamos em Portugal, tem que ser assim” — é vista positivamente como uma estratégia, ao invés de negativamente como um problema.

De alguma forma, este tipo de comentários e situações (já vos falei das "piadas inocentes"? …não, pois não? …vou continuar a não falar, então…) deixam-me sempre com um amargor na boca: se a escrita académica — em Portugal, pelo menos — já prima fortemente por estratégias de apagamento da presença de quem efectivamente fez o trabalho ou escreveu o documento (o quanto me irrita este hábito de escrever teses e artigos individuais na terceira pessoa do singular ou na primeira do plural!), esse apagamento é multiplicado quando nos apercebemos que há um longo trabalho de conformismo intelectual ao nível da forma (!) e não "apenas" ao nível do conteúdo. Que até a Ciência que se produz precisa de ser aportuguesada, mesmo quando já está escrita em português. (Oh, claro que eu não conheço toda e cada palavra ou expressão que está em uso corrente no Brasil mas não cá: essa é a altura em que aproveito para sugerir que uma nota de rodapé com a explicação da palavra e/ou do seu contexto e peso cultural pode ajudar a fazer passar a ideia original para quem não está informado o suficiente.)

Tudo isto me bloqueia a hipótese de considerar sequer a ideia (o cliché auto-congratulatório, classista e arrogante, na verdade!) de que podemos apontar para os jovens, os ignorantes ou os mal formados e acusá-los, "a eles", de xenofobia. Ao invés disso, convém lembrar que respiramos, colectivamente, uma nuvem de saudosismo colonialista. Em Lisboa, pelo menos, dois dos grandes centros comerciais da cidade são dedicados ao colonialismo (o Colombo e o Vasco da Gama); toda a zona do Parque das Nações (parque! brinquemos!) está predicada no colonialismo; o famoso Padrão dos Descobrimentos em Belém, idem; o mesmo para o Mosteiro dos Jerónimos… poderia continuar.

Estes não são lembretes de um glorioso passado. Estes são lembretes de um sangrento, violento, criminoso, esclavagista e exploratório passado imperialista. O mesmo passado que o Estado Novo glorificava, falando da “missão civilizadora” de Portugal (vamos escrever teses de forma civilizada, sim?...).

Prefiro pensar noutra missão: a de questionarmos, constantemente, o peso e responsabilidade cultural e histórica desse legado, e a forma como o continuamos a alimentar nas pequenas e nas grandes agressões racistas e xenófobas, movidas por uma qualquer superioridade / fascinação pelo abuso de poder ("Vocês já foram nossos"), bem como o dever que isso nos impõe, ética e politicamente, de combater (tanto a nível individual como institucional) a discriminação e os estereótipos étnicos, raciais e nacionalistas, que adoram casar-se com a discriminação de género, de classe social e de ocupação profissional.