Emprego diminuiu 2,8% e horas trabalhadas caíram 22,7%

Durante o segundo trimestre, diz o INE, mais de um milhão de pessoas empregadas estiveram ausentes do trabalho, um fenómeno explicado pela utilização em larga escala pelas empresas da medida do layoff simplificado

Economia
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Andreia Carvalho

Nos meses em que o efeito da pandemia mais se fez sentir na actividade económica, perderam-se em Portugal 135 mil empregos, mas o principal impacto no mercado de trabalho foi mesmo a queda muito acentuada, de mais de um quinto, das horas trabalhadas, um indicador que leva em conta o efeito da colocação de milhões de trabalhadores em situação de layoff.

As circunstâncias inéditas trazidas pela pandemia do novo coronavírus e pelas medidas de confinamento adoptadas pelas autoridades levam a que, no segundo trimestre deste ano, os dados publicados esta quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística apresentem resultados nunca antes vistos e, em alguns casos, bastante diferentes daquilo que se poderia esperar.

O valor mais surpreendente, tendo em conta a queda recorde que se registou na economia durante este período, é sem dúvida o da taxa de desemprego. De acordo com o INE este indicador, em vez de subir, diminuiu de 6,7% no primeiro trimestre para 5,6% no segundo trimestre.

Esta descida da taxa do desemprego, como é óbvio, não significa que a situação no mercado de trabalho seja agora mais favorável. O que acontece é que, pelo facto de, estatisticamente, uma pessoa só poder ser considerada desempregada se tiver procurado activamente emprego no último mês, vários milhares de pessoas sem emprego passaram a ser classificadas, não como desempregadas, mas sim como inactivas. Isto é, muitas pessoas, por causa do confinamento, deixou de procurar emprego, por exemplo, participando em entrevistas, e por isso passaram a ter o estatuto de inactivas. Além disso, todas aquelas pessoas que foram colocadas em situação de layoff não deixam de ser classificadas como empregadas, apesar de não estarem a trabalhar ou estarem a trabalhar menos horas.

Sendo assim, há outros indicadores mais adequados para perceber o que efectivamente aconteceu no mercado de trabalho em Portugal. Em primeiro lugar, o número de pessoas na população inactiva aumentou 5,7% relativamente ao trimestre anterior, com o INE a explicar que “estes acréscimos são explicados, essencialmente, pelo aumento da população inactiva que, embora disponível, não procurou trabalho, estimada em 312,1 mil pessoas”. São prinicpalmente pessoas, explica o INE, que “embora estejam disponíveis para trabalhar, não efectuaram procura activa de emprego no período de referência”. 

Depois, o número de pessoas empregadas diminuiu 2,8% (ou 134,7 mil pessoas) em relação ao trimestre anterior. E a taxa de subutilização do trabalho, um conceito mais alargado do que a taxa de desemprego, aumentou de 12,9% para 14%.

Mas, ainda assim, todos estes indicadores não contabilizam as pessoas que, não perdendo o seu vínculo laboral, deixaram de trabalhar neste período, por exemplo, por terem sido colocadas em situação de layoff. Assim, ainda mais relevante, é o indicador do número de horas trabalhadas agora publicado pelo INE e que diminuiu 22,7% no segundo trimestre do ano face ao trimestre imediatamente anterior e 26,1% face ao período homólogo do ano anterior.

Esta queda tão acentuada leva em conta o efeito da colocação em layoff de muitos milhares de trabalhadores durante este período. O INE assinala que “a redução do volume de horas trabalhadas está sobretudo associada ao aumento da população empregada ausente do trabalho”, um acréscimo que correspondeu a 1,08 milhões de pessoas ou 22,8% da população empregada, um valor que é “mais do dobro da observada no trimestre anterior e quase o quádruplo da existente no trimestre homólogo”.

E especifica ainda que, deste aumento de 1,08 milhões de pessoas, a maior parte ficou a dever-se “à redução ou falta de trabalho por motivos técnicos ou económicos da empresa (que inclui a suspensão temporária do contrato e o layoff), razão apontada por 680,1 mil daquelas pessoas (cerca de dez vezes o número do trimestre anterior)”. 

Para o futuro, aquilo que é esperado é que se assista progressivamente a uma subida da taxa de desemprego em Portugal. Isto acontecerá à medida que as pessoas que agora foram classificadas como inactivas voltarem a procurar activamente emprego, passando a ser classificadas como desempregadas, e acentuar-se-á se uma parte das empresas que agora recorreram ao layoff acabem por decidir fechar ou reduzir as suas actividades, colocando os respectivos trabalhadores no desemprego.

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