Josh Calabrese/Unsplash
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Megafone

As farpas do pensamento desalinhado

Pensar bem é pensar com vistas largas. Reformar o presente para assegurar o futuro, projectando uma sociedade de progresso e desenvolvimento sustentado, implica ouvir outras opiniões, integrar novas ideias enriquecedoras das nossas, desvalorizar o que é fútil e procurar consensos nos desafios essenciais.

Quando decidi criar um blogue, partilhando as minhas reflexões no Macroscopias, um amigo perguntou-me se o faria de modo alinhado ou desalinhado. Mal respondi que se fosse alinhado só o poderia ser com a minha consciência e que esta era livre e apartidária, disse-me que isso era muito digno, mas muito ingrato, e que iria percorrer um caminho cheio de farpas. Acrescentou que a maior parte das pessoas não está preparada para reconhecer independência nos outros. Percebo bem a razão que lhe assiste. Noutros contextos, já senti como é ingrato assumir posições desenquadradas do estereótipo de quem rema sempre para o mesmo lado. Se partilho uma opinião que suporta uma das convicções de um certo conviva, sou visto como um tipo credível. Mas, face a outra ideia, se me afasto ideologicamente, já sou colado aos piores protagonistas dos seus pesadelos. E se lhe digo que apenas penso pela minha cabeça, responde que com ele se passa o mesmo.

Um dos problemas das cabeças é que algumas são preguiçosas. Pensar dá trabalho. Quando digo pensar, não me refiro a ter razão. Isso é outra coisa diferente, mais do foro do resultado e menos do processo. A sensação de se estar certo é francamente estimulante, mas não tanto como a descoberta de um caminho próprio para a aparente certeza... ou para a dúvida, pouco importa. Percorrer esse caminho é uma façanha plena de desafios. Seguindo uma ordem crescente de dificuldade, o primeiro desafio para pensar bem é ouvir os outros com respeito e atenção. O segundo é ouvir mais os outros do que se ouvir a si próprio. E o terceiro desafio é ouvir quem tenha ideias diferentes, mas que pense de um modo digno de admiração. Tal como num jogo de futebol, a vitória de uma equipa é tanto mais valorizada quanto maior for a valia do seu adversário, num bom raciocínio, ele é tanto mais meritório quanto maior for a excelência intelectual daqueles a quem damos troco.

Gosto de ler Daniel Oliveira e Susana Peralta do mesmo modo que, no extremo oposto, leio com prazer Carlos Guimarães Pinto e Adolfo Mesquita Nunes. Todos me desafiam, tal como me continua a desafiar a lucidez de António Barreto. Relativamente a todos, umas vezes concordo, outras não, mas saio sempre mais completo e esclarecido. Muito raramente me desiludem por aparente desleixo intelectual. A admiração até cresce nos casos em que elaboram um argumento que choca frontalmente com algo que quase dou como certo e que, por ser tão pertinente, me obriga a reflectir de novo sobre as minhas convicções.

O extremismo e o fundamentalismo são marcos desta época. Infelizmente, uma grande parte das pessoas só quer ter razão. Vivem na expectativa do erro dos adversários políticos ou ideológicos para fazerem valer a razão que acham que lhes assiste. Sacrificam oportunidades de coerência intelectual para manterem o melhor posto de caçadores furtivos à espera da distracção da presa, na esperança de mostrar o que chamam coerência política. Mal pressentem a ocasião, soltam os cães com alarido. Pouco importam contextos diferentes, experiências entretanto adquiridas, cenários alterados ou simplesmente telhados de vidro na própria casa. O que conta é sentir o frémito do momento em que exibem na cara do oponente a razão que acham ter. Para tal, não há meios-tons. Extrema-se quase tudo a preto e branco.

Os políticos são o reflexo dos cidadãos. Querem ganhar. Querem poder. A maior parte não assume culpas nem reconhece mérito alheio. A culpa é dos outros e o que os outros dizem, em vez de ser considerado e integrado, é apenas guardado como trunfo para ser lançado num momento adequado. Tenho a maior simpatia por alguns políticos e profundo respeito por quem, de forma séria, abraça a vida política, mas sinto-me equidistante das famílias políticas que nos têm governado ao longo dos últimos anos. Não gosto dos extremos, sou um centrista. A equidistância face aos partidos democráticos do centro político justifica-se porque nenhuma solução partidária, por si só, resolve os desafios que se colocam à sociedade. As melhores respostas vêm do centro, logo da harmonia, do equilíbrio e da moderação integradora, mas só serão realmente viáveis mediante uma convergência virtuosa, por oposição a uma dissonância perversa.

Pensar bem é pensar com vistas largas. Reformar o presente para assegurar o futuro, projectando uma sociedade de progresso e desenvolvimento sustentado, implica ouvir outras opiniões, integrar novas ideias enriquecedoras das nossas, desvalorizar o que é fútil e procurar consensos nos desafios essenciais. Daí a importância de se trilhar um caminho independente e de pensamento desalinhado. Quando voltar a estar com o meu amigo, dir-lhe-ei que vou continuar a percorrer o caminho das farpas, porque só assim me sinto bem, só assim me sinto livre.

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