Polícia de Hong Kong usa nova lei para deter quatro activistas pró-democracia nas suas casas

Detidos têm entre 16 e 21 anos e são acusados de fomentar a independência do território em mensagens publicadas nas redes sociais.

Os quatro jovens foram levados para uma esquadra e aguardam a formalização da acusação
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Os quatro jovens foram levados para uma esquadra e aguardam a formalização da acusação Reuters/TYRONE SIU

A polícia de Hong Kong deteve quatro activistas pró-democracia nas suas casas, na noite de quarta-feira, na primeira operação do género desde a entrada em vigor de uma nova lei de segurança nacional imposta pela China. Os detidos têm entre 16 e 21 anos e são acusados de promover a independência do território em mensagens publicadas nas redes sociais.

Um dos quatro é Tony Chung, de 19 anos, antigo organizador de um dos vários grupos de estudantes pró-democracia em Hong Kong.

Tal como outros grupos, o Studentlocalism foi declarado extinto pelos seus membros poucas horas antes da entrada em vigor da nova lei, no início de Julho. Nessa altura, o grupo anunciou que alguns dos seus membros iriam continuar a defender e a promover a independência de Hong Kong a partir do estrangeiro, em Taiwan, nos Estados Unidos e na Austrália. 

Um vídeo publicado nas redes sociais mostra Tony Chung a ser levado de casa por polícias à paisana, por voltas 20h30 locais de quarta-feira (3h30 de quinta-feira em Portugal continental), e a ser transportado num veículo sem identificação da polícia.

Os agentes da nova unidade de segurança nacional da polícia de Hong Kong que detiveram Tony Chung levaram também computadores, telemóveis e documentos.

“As nossas fontes e a nossa investigação mostram que o grupo anunciou recentemente, nas redes sociais, que estava a criar uma organização que defende a independência de Hong Kong”, disse Li Kwai-wah, da nova unidade da polícia.

É a primeira vez, desde a entrada em vigor da lei de segurança nacional aprovada pelo Parlamento chinês, que a polícia do território detém activistas nas suas casas. Até agora, as acusações de secessão, subversão e cumplicidade com forças estrangeiras tinham sido usadas contra pessoas que se manifestavam nas ruas durante o dia.

“Parece que eles estão a testar as águas, à espera da reacção da comunidade internacional”, disse Ho-fung Hung, professor de Política Económica no Departamento de Sociologia da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, ao jornal Washington Post

Para o investigador, o facto de os quatro activistas detidos na quarta-feira serem relativamente desconhecidos indica que este pode ser apenas o primeiro passo de uma operação mais vasta e abrangente.

“Se a reacção internacional não for muito forte, eles podem ir mais além.”

A nova lei de segurança nacional de Hong Kong foi aprovada pelo Parlamento chinês em Junho e entrou em vigor no início de Julho. A imposição da lei foi a resposta da China aos protestos do último ano no território, que tiveram várias fases de confrontos violentos entre manifestantes e a polícia.

Pequim acusa os manifestantes de agirem com o apoio de países como os Estados Unidos e o Reino Unido, que estariam interessados em semear a desordem e a desunião na China. Mas os activistas e as organizações de defesa dos Direitos Humanos acusam a China de aprovar uma lei draconiana para o território de Hong Kong com outros objectivos em mente: legitimar a repressão das manifestações e dar carta-branca à polícia para agir de uma forma que não seria possível à luz da autonomia concedida ao território aquando da transferência da soberania do Reino Unido para a China.

Os protestos do último ano em Hong Kong foram motivados pela oposição dos activistas a uma proposta de lei que permitiria a extradição de suspeitos para a China, onde não existe uma separação entre o poder político e o poder judicial.

Mas o pano de fundo é mais antigo e centra-se na queixa de que Pequim nunca quis cumprir os acordos de transferência de autonomia do território, que prevêem a manutenção de um certo grau de independência em Hong Kong e uma progressão para a escolha de representantes políticos num sufrágio universal e sem interferência da China.

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