Torne-se perito

Zero diz que prolongar vida da central de Almaraz “é risco acrescido”

Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista Zero, diz que renovação da licença da central nuclear espanhola de Almaraz até 2027/28 lhe dá uma longevidade “abusiva”. Central fica a 100 quilómetros da fronteira com Portugal.

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Central vai ter mais 50% do tempo de vida face ao estimado inicialmente LUSA/NUNO VEIGA

Para Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista Zero, a notícia da renovação da licença de exploração da central nuclear de Almaraz, em Espanha, a 100 quilómetros da fronteira com Portugal, não surge como uma surpresa, mas deixa o alerta; a sua longevidade “é abusiva” e há um “crescimento significativo do risco”.

Até há pouco tempo, ainda havia a expectativa de que Madrid “revisse fortemente o calendário em baixa”, afirma Francisco Ferreira, acrescentando que acabou por ser tudo cumprido “em linha com que o que pretendiam” os proprietários das centrais antigas, neste caso a Iberdrola, a Endesa e a Naturgy.

Para os accionistas, o prolongamento de actividade para 2027 (grupo I) e 2028 (grupo II), conforme foi este sábado noticiado pela Lusa, dá mais tempo para rentabilizar o investimento e adia problemas como o seu desmantelamento e o armazenamento definitivo dos resíduos. Além disso, em termos de política energética permite compensar centrais de carvão que estão a fechar.

Só que a sua “exagerada longevidade” faz com que “o risco de um acidente mais sério seja maior”. Uma infra-estrutura que foi pensada para trinta anos, diz Francisco Ferreira, vai acabar por ter mais 15 anos de vida, ou seja, mais 50%, graças aos prolongamentos das autorizações. “O risco existe, e vai ser mais significativo”, reitera este responsável, recordando que esta central nuclear está a cerca de 100 quilómetros da fronteira com Portugal, e que uma eventual propagação pode ocorrer tanto pela atmosfera como pelo rio Tejo. As normas de segurança das novas centrais, sublinha, “são completamente incompatíveis” com a geração de centrais como a de Almaraz.

Quanto a Portugal, o país, “pura e simplesmente, não conseguiu ter qualquer intervenção em relação à decisão”. Embora legalmente nada pudesse fazer para impedir a prorrogação, “poderia ter ido mais longe em termos de acção diplomática”, defende o dirigente da Zero. 

De acordo com a Lusa, o Ministério da Transição Ecológica espanhol formalizou as ordens de renovação das autorizações para as instalações da central de Almaraz, em Cáceres, mas ainda não houve um anúncio oficial. O mesmo aconteceu com a licença de exploração para a central de Vandellós, II, em Tarragona.

Contactado pelo PÚBLICO, o ministro do Ambiente recusou ontem comentar a decisão de Madrid, por o Governo português não ter sido ainda notificado da mesma. João Pedro Matos Fernandes recordou, contudo, que a decisão, a confirmar-se, corresponde ao previsto no Plano Nacional Integrado de Energia e Clima 2021-2030 elaborado por Espanha e que Almaraz será a primeira central nuclear a ser encerrada por este país.

Já o presidente da Comunidade Intermunicipal (CIM) da Beira Baixa, Luís Pereira, manifestou no sábado surpresa pela “falta de reacção enérgica” das autoridades portuguesas no processo de renovação das licenças de exploração da central nuclear espanhola de Almaraz.

“Não me surpreende que as licenças tenham sido renovadas, tendo em conta o histórico. O que me surpreende é a falta de reacção enérgica das autoridades portuguesas com competências nestas áreas”, disse à Lusa Luís Pereira, que é também presidente da Câmara de Vila Velha de Ródão.

O tema de Almaraz, por causa de duas paragens que ocorreram em Junho na central, levaram Matos Fernandes ao Parlamento na semana passada, na sequência de requerimentos apresentados pelo PEV e pelo PAN. Na sua intervenção inicial, o ministro desvalorizou o caso, afirmando que se trataram de situações normais e que “não houve nem incidentes nem acidentes em Almaraz”.

Matos Fernandes afirmou que “Portugal está a diligenciar junto do Estado Espanhol para que o processo de prolongamento da vida da central seja participado” e que há hoje “como nunca, uma rede que nos permite acompanhar a situação radiológica no país”. com Margarida Gomes

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