TikTok tenta cortar ligações à China para permanecer nos EUA

Desde o começo do ano, a rede social, com origens chinesas, contratou um presidente executivo norte-americano, criou 900 novos postos de trabalho nos EUA e um centro de transparência em Los Angeles. O próximo passo é vender parte das acções a investidores dos EUA.

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TikTok continua a gerar polémica Reuters/Florence Lo

O TikTok continua a pensar em formas de se distanciar das origens chinesas para permanecer nos Estados Unidos. Há semanas que o Presidente dos EUA, Donald Trump, fala em banir a aplicação de vídeos virais com base em preocupações de cibersegurança em torno da empresa chinesa ByteDance, que é a dona da rede social, e desejos de retaliação pela atitude da China face à pandemia da covid-19.

Esta semana, o Congresso dos EUA avançou com legislação para proibir trabalhadores e membros do governo de usar o TikTok e quaisquer sistemas da ByteDance em aparelhos usados para o trabalho. A proposta, que foi aprovada no início da semana (com 336 votos a favor e 71 votos contra), aguarda luz verde do Senado norte-americano.

No começo do mês, a rede social admitiu que está a “repensar a estrutura corporativa” para mitigar as preocupações dos EUA. Desde então, vários investidores norte-americanos têm mostrado interesse em comprar uma quota maioritária da empresa. De acordo com relatos obtidos pelo jornal Financial Times e o site The Information, investidores apoiados pelas firmas de capital de risco General Atlantic e Sequoia Capital estão em discussões com reguladores e o Departamento do Tesouro dos EUA para perceber se uma aquisição resolveria a desconfiança dos EUA face às origens da empresa.

“Se uma venda ocorrer, isso poderá na realidade alterar alguns dos riscos da aplicação, dependendo de como a venda for estruturada. Por exemplo, será possível reduzir o risco hipotético de o governo chinês influenciar o conteúdo da aplicação”, explica ao PÚBLICO Justin Sherman, membro da Cyber Statecraft Initiative, um programa do think thank norte-americano Atlantic Council que se foca em decisões geopolíticas baseadas em tecnologia.

“Só que a questão aqui é perceber se uma venda iria parar a retórica utilizada pela administração Trump”, continua Sherman. “É pouco provável [que o debate em torno do TikTok] seja de facto sobre os possíveis riscos, o que quer dizer que não é certo se as acções do TikTok teriam algum impacto no diálogo que está a sair da Casa Branca.”

Foi em 2017 que a gigante chinesa ByteDance, dona de várias redes sociais, lançou o TikTok para chegar aos utilizadores internacionais ao oferecer uma versão internacional da popular rede social chinesa de partilha de microvídeos Douyin. Funcionou: a aplicação entrou em 2020 como a sétima mais descarregada da última década, segundo o balanço global publicado pela consultora especializada App Annie no final de 2019, e ultrapassou os dois milhões de downloads em Abril deste ano, segundo a consultora Sensor Tower. Os EUA, China e Índia são os países onde mais se descarrega a aplicação.

Parte das preocupações dos EUA com o sucesso da aplicação derivam da Lei Nacional de Inteligência da República Popular da China, aprovada em 2017. O artigo sétimo dessa lei estipula que “todas as organizações e cidadãos devem apoiar, ajudar e cooperar com o Estado em matéria de inteligência nacional”. O artigo 20.º reforça: “organizações e indivíduos relevantes” devem “fornecer informação” sobre acções de contra-espionagem a pedido do governo e “não devem recusar” fazê-lo.

O TikTok nega as ligações ao governo de Pequim. “O TikTok é liderado por um presidente executivo norte-americano”, recorda a empresa num email de resposta sucinto a questões do PÚBLICO em que reforça que nunca foram enviados quaisquer dados de utilizadores ao governo chinês.

O PÚBLICO também tentou obter esclarecimentos junto do TikTok sobre o interesse de investidores, mas não obteve resposta até à hora de publicação desta notícia. Num comunicado a circular na imprensa internacional, um porta-voz da empresa nota que a empresa está “confiante no sucesso a longo prazo do TikTok”, que está a “avaliar mudanças na estrutura corporativa”. Os planos serão divulgados quando existir algo de concreto para anunciar. 

Em Maio, para mitigar as preocupações do governo dos EUA, a empresa contratou o antigo estratega da Disney, Kevin Mayer, para gerir a rede social nos EUA e assumir o cargo de director de operações da empresa-mãe ByteDance. A empresa também tem feito esforços para aumentar a oferta de emprego nos EUA. Se no começo do ano o TikTok só tinha 500 pessoas empregadas nos escritórios dos EUA, o número actual ronda os 1400 – e a empresa planeia em contratar mais 10 mil funcionários nos EUA nos próximos três anos.

O TikTok quer abrir um centro de transparência em Los Angeles, nos EUA, para lidar com a moderação da rede social. O objectivo é convidar especialistas externos para evitar erros de moderação como o que ocorreu em Novembro, quando a aplicação foi criticada por remover temporariamente um vídeo de uma adolescente americana que criticava o tratamento dado pelo regime de Pequim aos uigures, uma minoria muçulmana na China.

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