Europeus defendem mais investimento e mais competências comunitárias na área da saúde

Inquérito encomendado pelo Parlamento Europeu revela insatisfação com o nível de solidariedade entre os 27 no combate à pandemia.

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Charles Michel, presidente do Conselho Europeu que reúne sexta-feira e sábado Reuters/POOL New

Dois terços dos cidadãos europeus consideram que a União Europeia deveria ter competências acrescidas para responder a crises como a que resultou da pandemia do novo coronavírus, e uma clara maioria defende que o Orçamento comunitário seja reforçado para ultrapassar as consequências negativas da paralisação da actividade económica. Estas são as principais conclusões de um estudo de opinião encomendado pelo Parlamento Europeu sobre a percepção da resposta à crise do coronavírus nos 27 Estados-membros da União Europeia. 

Os resultados mostram que a maioria dos cidadãos se sente insatisfeita com o nível de solidariedade manifestada entre os Estados-membros no combate à pandemia (53% dos inquiridos) e revela um sentimento de impaciência com os seus líderes, que no fim desta semana se vão reunir presencialmente em Bruxelas pela primeira vez desde Fevereiro.

A divulgação do inquérito — realizado entre 11 e 26 de Junho a 24.789 indivíduos (a mesma amostra representativa da população que é utilizada nos inquéritos do Eurobarómetro) — vem aumentar a pressão política e dar mais força aos argumentos dos chefes de Estado e de Governo que querem fechar um acordo político sobre o novo pacote global para a recuperação e transformação económica da UE, na reunião do Conselho Europeu.

A urgência de uma solução está patente nas respostas ao inquérito. Uma maioria de 57% diz que já experimentou dificuldades financeiras desde o início da pandemia, com 30% dos inquiridos a confirmarem uma perda de rendimentos e mais de 20% a dizerem que já tiveram de recorrer a poupanças. Cerca de 15% reportaram dificuldades para fazer pagamentos (da renda, contas ou créditos bancários). Em termos emocionais, os europeus vivem, por estes dias, divididos entre sentimentos de incerteza e esperança.

A proposta que os líderes vão discutir, e que não é consensual, assenta na criação de um novo fundo de recuperação, Próxima Geração UE, no valor de 750 mil milhões de euros, para acelerar a retoma da economia nos próximos três anos. Essas verbas serão canalizadas através dos programas existentes no quadro financeiro plurianual de 2021-27, cujo montante global deverá ultrapassar um bilião de euros — na “negotiating box” avançada pelo presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, estão inscritos 1,074 biliões de euros para distribuir nos próximos sete anos, que o Parlamento Europeu considera manifestamente insuficientes para enfrentar os desafios de longo prazo.

A opinião dos cidadãos europeus parece ir no mesmo sentido. Quando questionados sobre se a UE deveria dispor de mais recursos financeiros para responder ao impacto da pandemia, uma média de 56% dos inquiridos entendeu que sim, com 30% a considerarem que não porque o actual Orçamento é suficiente e 14% a dizerem que não sabiam responder à pergunta. Em Portugal, uma larga maioria de 71% dos inquiridos defende um orçamento comunitário mais robusto. Na Dinamarca, 49% mostraram-se contrários a um aumento do valor do quadro financeiro plurianual.

Nos 27 países da União parece existir um consenso de que o investimento em saúde pública se tornou prioritário em termos da distribuição das verbas do orçamento de longo prazo. Em resposta à pergunta sobre as áreas onde deveriam ser aplicados os recursos, 55% dos inquiridos responderam que deveria ser na saúde pública, logo seguida da recuperação económica e criação de novas oportunidades para as empresas (45%), no emprego e prestações sociais (37%) e no combate às alterações climáticas e protecção do ambiente (36%). Estas últimas três áreas já eram consideradas prioritárias nos inquéritos realizados antes da pandemia.

Além de defenderem mais despesa pública na área da saúde, os cidadãos europeus também se mostram favoráveis a uma revisão no funcionamento da União, no sentido de reforçar a vertente da acção comunitária face às medidas nacionais. Numa questão sobre se a União Europeia deveria ter mais competências para lidar com crises tais como a da pandemia de covid-19, 68% responderam “sim” e 23% “não” (os restantes 9% não expressaram uma opinião). Uma forte maioria que os directores do inquérito dizem demonstrar a existência de um “forte ímpeto” para reformas institucionais, sobretudo na área da saúde pública.

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