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Nuno Ferreira Santos

João ergueu a bandeira LGBT na manifestação do Chega. As flores que recebeu davam um jardim

Foi à manifestação convocada por André Ventura. Não falou, nem ouviu — apenas ergueu uma bandeira arco-íris. A imagem do momento foi repetida e republicada nas redes sociais e levou dezenas de seguidores a darem-lhe flores: um agradecimento em forma de emoji, por ter representado milhares, ainda que estivesse sozinho (ou assim pensava ele). “Vamos ser bons e fazer a coisa certa. Vamos fazer a diferença para as próximas gerações. Acabar de vez com o ódio.”

João Pedro Anjos não acreditava que a manifestação convocada pelo Chega para o último sábado, 27 de Junho, fosse mesmo acontecer. “As críticas que André Ventura tinha feito às pessoas que estiveram na manifestação em Maio e a falta de coerência que iria ser ele seguir com a manifestação em pleno aumento da pandemia” levaram o jovem de 27 anos a crer que o movimento que quis dizer que “Portugal não é racista” iria ficar pelo caminho. Mais ainda, não acreditava que o Chega “tivesse assim tantos apoiantes”. Mas mais de mil pessoas saíram à rua. E a manifestação aconteceu.

“No dia [sábado, 27 de Junho], acordei e vi em todo o lado que ia mesmo acontecer. Não consegui não pensar nisso durante as horas que se seguiram.” Era como uma comichão. Veio-lhe à cabeça o tweet que “andou a circular para meter medo às minorias” (que aconselhava pessoas pertencentes a minorias a ficarem em casa), o facto de o partido querer “revogar o casamento homossexual”, ou de “tratar ciganos como se não fossem humanos”. E a comichão aumentava. “Tive de ir.” Agarrou na bandeira LGBT e foi. Sozinho. Mas sem saber, ainda, que, na verdade, levava milhares consigo.

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João Pedro Anjos, 27 anos DR

“Ainda nem tinha chegado ao lugar onde a manifestação teve início e já estava um dos apoiantes do Chega a gritar para a polícia que eu ia para lá causar confusão”, escreve ao P3. Foi nesse momento que colocou os auriculares e pôs música, alheando-se do que estava a acontecer à sua volta. Mas há gestos que não precisam de ser ouvidos: “Tive pessoas a olhar para mim e a dizer coisas que não ouvi — mas pelas expressões faciais não eram simpáticas. Passavam as bandeiras que tinham na mão em frente da minha cara ou contra a minha bandeira.” Não cedeu. Em véspera do Dia do Orgulho LGBT, era um no meio de milhares e isso dava-lhe força.

Nunca tocou nem foi tocado por ninguém. “Fui com respeito às pessoas que lá estavam, até porque alguns podiam apenas concordar com uma ou outra coisa que o ‘líder’ diz, mas não concordar com o resto. Em nenhum momento pensei em desrespeitar ninguém ali presente”, garante. Preservou o respeito “por quem estava lá a marchar pelas suas ideologias” — sem esquecer o respeito “pelos seus”, que “deveriam também marchar naquele dia e não o puderam fazer”.

Mas o que o levou ao início da Avenida da Liberdade, em Lisboa — o ponto de partida da manifestação —, não foi só a vontade de representar a comunidade LGBTQ+. Foi “por todas as minorias.” Porque, apesar de não ter “um passado como activista”, sempre se sentiu ligado à causa LGBTQ+ e anti-racista. E no dia em que levou as crenças para a rua, acompanhado apenas pela bandeira, garante que “em nenhum momento” sentiu medo. Na verdade, quando viu que era a única pessoa com uma bandeira gay, ficou “com mais vontade ainda de lá ficar”. Acrescenta, aliás, que nada do que lhe pudesse ter acontecido seria “pior do que o que já fizeram e ainda fazem hoje” a membros da comunidade LGBT: “Ainda somos condenados à morte em 13 países, apenas por amarmos pessoas do mesmo sexo que nós”, lembra.

Naquele sábado, “ao ver aquelas pessoas a descer a avenida, a seguir um homem que segurava um cartaz onde se lia ‘Portugal não é racista’ e que fez saudações nazi”, João chorou. “Por ver que ainda há gente que se sente no poder de tirar direitos a outras pessoas, só porque não são ‘iguais’ a elas.”

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O momento em que André Ventura passou por João. Nuno Ferreira Santos

Ficou apenas no início da manifestação e depois foi embora. Por essa altura, já tinha falado com jornalistas e as fotografias do momento em que, contra a maré, permanecia com a bandeira levantada, estavam prestes a reproduzir-se pelas redes sociais. Foi inundado com mensagens, mencionado em publicações, congratulado em pequenos vídeos. Yolanda Tati, locutora de rádio na Cidade FM, desafiou os seguidores a deixarem flores a João. O resultado? Um Instagram que podia ser um jardim — tantos foram os comentários e mensagens com emojis de flores que lhe chegaram. “As pessoas foram incríveis. Mesmo. Não estava à espera de tanto feedback.”

Não foram apenas flores: “Imensas pessoas vieram apenas agradecer com um simples ‘obrigado’. Acho que chorei a maior parte do tempo em que estive a responder às mensagens. Porque não estava à espera que dessem tanto valor ao meu simples acto”, afirma, deixando um agradecimento a todas elas. A manifestação mais pública aconteceu no último domingo, quando Bruno Nogueira, Nuno Markl e Nuno Lopes mencionaram o acontecimento na edição especial do programa Como é que o bicho mexe? “Achei incrível, pessoas com tanta visibilidade sem medo de comentar o que quer que seja, neste caso em relação à manifestação do Chega.”

O crescimento de André Ventura leva-o a questionar-se, em jeito de introspecção: “A vida passa tão rápido, para quê destilar ódio contra quem nada fez? Contra quem só quer viver?” Uma ideia que considera importante reter — e relembrar na hora de ir às urnas. “Espero que as pessoas, antes de votarem apenas porque concordam com uma ou outra coisa, pensem no que vão tirar aos outros”, atira. Afinal, “estamos nesta vida por tempo indefinido” e destinados a viver uns com os outros. “Vamos ser bons e fazer a coisa certa. Vamos fazer a diferença para as próximas gerações. Acabar de vez com o ódio.” Porque não substituí-lo por flores?