Orgulho LGBTI+ em tempo de pandemia

Apesar de a pandemia nos ter confinado às nossas casas, continua a ser urgente marchar pelos direitos LGBTI+, seja em Santarém, em Viseu, em Coimbra, no Porto ou em Lisboa.

Foto
Reuters/JOSE LUIS GONZALEZ

Há dias participei na primeira Marcha do Orgulho LGBTI+ de Santarém, no dia 9 de Maio. Além de ter sido a primeira Marcha alguma vez realizada na cidade, foi também a primeira Marcha do Orgulho a acontecer este ano em Portugal, marcando o arranque de inúmeras iniciativas do Orgulho LGBTI+ agendadas em todo o país. Dada a conjuntura em que vivemos, a Marcha, que deveria ter acontecido na rua, acabou por acontecer nas redes sociais, com conferências em directo, actuações de artistas e a partilha de vídeos de pessoas a falar sobre a importância de “sair do armário” e de se ser visível. Também dei o meu contributo. Como gay, pessoa e artista que nasceu e cresceu em Santarém.

Santarém é um distrito em que a LGBTIfobia está profundamente enraizada. São recorrentes os episódios de bullying nas escolas – dos quais também fui alvo –, que comprometem o crescimento em segurança de crianças e jovens, levando-os tantas vezes à depressão e ao suicídio. São recorrentes as piadas e os olhares preconceituosos, bem como a falsa abertura às questões LGBTI+, em que se assume uma postura de aparente aceitação desde que se seja discreto, sem “exibicionismos”. E são recorrentes as histórias de pessoas que continuam a viver imersas no medo, sem poder expressar livremente a sua identidade com as famílias, nos empregos, na rua. Escusado será dizer que esta é uma realidade presente não só em Santarém, mas em inúmeras cidades, vilas e aldeias de Norte a Sul de Portugal. Por essa razão, as marchas do Orgulho são iniciativas absolutamente necessárias, criando espaços de visibilidade e de direito ao espaço público das pessoas LGBTI+, que por séculos têm sido silenciadas e marginalizadas.

Apesar de a pandemia nos ter confinado às nossas casas, continua a ser urgente marchar pelos direitos LGBTI+, seja em Santarém, em Viseu, em Coimbra, no Porto ou em Lisboa. Em parte, porque há que fazer face aos impactos do coronavírus, fundamentalmente sanitários, sociais e económicos, que acentuam as desigualdades e fragilizam ainda mais a sociedade, nomeadamente pessoas LGBTI+. São exigidas novas respostas por parte dos órgãos de poder, no sentido de se salvaguardar o apoio a uma comunidade que, em condições ditas “normais”, sem pandemia, já enfrenta sérios desafios. São exigidas novas respostas, também, por parte da nossa comunidade LGBTI+, sendo necessário reforçar sinergias entre associações e colectivos, implementar redes de apoio e proteger as pessoas afectadas pela pandemia. A organização da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa já deu um bom exemplo nesse sentido, anunciando que este ano se iria transformar numa rede de apoio para grupos de risco. A solidariedade ainda é semente da esperança.

Por outro lado, tendo em conta a realidade política actual, com movimentos de extrema-direita a conquistar eco nos media e redes sociais, servindo-se de estratégias populistas para manipular a opinião pública e ganhar votos com ideias que põem em risco a democracia, é crucial que nos mobilizemos e que continuemos a marchar. Agora online e à distância, presencialmente e nas ruas assim que for possível. Pois o fascismo voltou e fará de tudo para nos limitar nos direitos conquistados. E há que dizer com firmeza que nos recusamos a viver com medo, que nos recusamos a viver sob a alçada do patriarcado, da violência, das mortes, do machismo, do racismo, da xenofobia, da perseguição, da discriminação, do preconceito, da injustiça.

Num mês marcado pelo Dia Internacional da Luta Contra a Homofobia, Transfobia, Bifobia e Interfobia, assinalado a 17 de Maio, importa reafirmar, como bem o fez a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género em Portugal, que a questão dos direitos LGBTI+ é uma questão de direitos humanos. Ainda mais em tempo de pandemia. É por isso que marchamos, para defender o direito à humanidade que nos é inerente, tornando os nossos corpos visíveis no espaço público para que mais pessoas LGBTI+ em Portugal percebam que não estão sós e assim se sintam empoderadas para pedir ajuda, para “sair do armário”, para denunciar a LGBTIfobia de que são alvo, para vencer o medo. Pois com ou sem pandemia, enquanto houver medo, enquanto houver desigualdade, enquanto houver violência, as nossas sociedades não serão livres e a fraternidade sonhada ficará sempre por cumprir.