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Envelhecer LGBT+: um arco-íris e um cão

É inexplicável a inexistência de políticas e de iniciativas inclusivas e direccionadas aos nossos últimos dias. Nós, seres coloridos do pretérito. O Barack está aqui ao meu lado agora. Temos os dois andado a ladrar para o vazio. E assim vamos continuar. Este domingo é o Dia Internacional da Luta contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia.

Entre muitos risos e alguns choros, vivo só há muitos anos. Vivo bem. Família não tenho porque, entretanto, morreram todos. O que tenho são amigos, amigas e amig(x)s de todas as idades. E ainda bem!

Depois de uma certa idade é difícil encontrar amores afectivos e efectivos para a toda a vida. Até porque há o compacto receio de que nasça alguém das cinzas da solidão, atraído pelo cheiro do dinheiro ou de uma potencial herança. Ainda assim, pela minha casa têm passado, alegremente, muitas gentes! Por norma, encaminhadas por outros amigos, amigas e amig(x)s, essas gentes aparecem em busca de apoios, ajudas e conselhos. E a verdade é que, de algum modo, isso tem-me preenchido o tempo saudavelmente – gosto de exercer aquele hábito muito pouco praticado nos dias de hoje: solidariedade. Quando posso, decerto que não vou deixar de lhes dar agasalho, sejam quem for e venham de onde vierem. Faço-o por gosto e porque sou um ser humano. E porque me distraio.

Há uns anos, bateram-me à porta: era um homem muitíssimo mal vestido e despenteado. Com a porta entreaberta, perguntei-lhe ao que vinha e a resposta foi “disseram que ajudas pessoas e eu preciso de ajuda”. Era russo e falava muitíssimo mal português. Disse que estava com fome e que há muito que só comia laranjas. Deixei-o entrar e dei-lhe um prato de comida enquanto me contava a sua história de vida. De forma muito resumida: morava na Bulgária, deitaram-lhe fogo à casa, começou a ser perseguido pela máfia russa, enquanto fugia foi roubado, passou fome e veio parar à minha porta. Disse-lhe que tinha de ficar escondido durante pelo menos 15 dias no quarto que lhe cedi e que não podia sair, nem falar com ninguém.  Passado esse tempo, consegui arranjar-lhe emprego e, depois de muitas burocracias, conseguimos a sua legalização. Hoje é cidadão português, está reformado e alcançou o sonho de ter uma casa própria. É feliz!

Também há uns anos bateram-me à porta: era uma mulher transexual belíssima. Ninguém lhe queria arrendar um quarto ou uma casa porque exercia a chamada “profissão mais velha do mundo” e estava ainda em fase de transição. Com medicamentos e procedimentos muito dispendiosos, precisava de um lugar que pudesse chamar “lar” e deixei-a lá ficar... por três anos. A regra era apenas uma: clientela em casa não! Quando saía para trabalhar, confesso, ficava da janela à espreita e perdi a conta dos Mercedes que estacionavam do outro lado da rua. Hoje? Está casada e trabalha numa empresa de programação. É feliz!

Gosto! Gosto de tudo o que fiz e do que tenho feito porque consegui iludir, sem sombra de dúvidas, a solidão. Não obstante, contudo, porém e todavia, não quero imaginar no que aconteceu, no que acontece e no que acontecerá a outros, outras e outr(x)s que não tiveram, não têm e não terão as mesmas possibilidades que eu tive. Todos nós – mas em especial os LGBT+ – vivemos num mundo “cão” onde envelhecer é um defeito. Ou um desastre! Ou uma desgraça! Deve ser terrível e doloroso.

Tenho a sorte de ter uma vida ocupada, com desafios diários: faço ginástica, faço rádio, trabalho, milito por causas e até tenho um cão que me faz companhia, com quem converso muitas vezes! Chama-se Barack. Não é Obama, mas é Serzedelo. Por isso, por ora, vou bem. Não obstante, contudo, porém e todavia, há um sentimento de luto – que, por natureza, é um sentimento solitário. É inexplicável a inexistência de políticas e de iniciativas inclusivas e direccionadas aos nossos últimos dias. Nós, seres coloridos do pretérito. O Barack está aqui ao meu lado agora. Apesar de ser um cão e “cão” rimar com “solidão”, temos os dois andado a ladrar para o vazio. E assim vamos continuar. 

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