Opinião

A ironia intrínseca à estátua do Padre António Vieira

A estátua do padre António Vieira apresenta, também, uma outra ideologia. Essa ideologia é bem diferente daquela que apoiantes e opositores lhe atribuem.

Em 1939, o historiador da arte, Erwin Panofski, escreveu o célebre livro Estudos de Iconologia. Nesse livro, Panofski propôs o método iconológico para interpretar obras de arte e os significados que estas encerram. A proposta de Panofski, válida ainda hoje, pode ajudar-nos a reflectir, uma vez mais, sobre a estátua do Padre António Vieira e as polémicas que lhe estão associadas.

Panofski propôs três níveis de interpretação: o natural ou primário; o secundário, ou convencional; e o significado intrínseco. Observando a estátua do Padre António Vieira, o primeiro nível revela um homem acompanhado por três crianças. O segundo nível conduz-nos à identificação desse homem — o Padre António Vieira. A estátua materializa em bronze uma das representações mais conhecidas de Vieira, a gravura inserida no livro Vida do apostolico Padre Antonio Vieira, do Pe. André Barros, SJ, publicada em 1746. Também nos permite identificar as três crianças: tratam-se, indubitavelmente, de ameríndios, certamente do Brasil onde Vieira foi missionário boa parte da sua vida. Evocando a referida gravura, o escultor optou por trocar os dois homens que nela ladeavam o jesuíta — um ameríndio e um africano, o primeiro de joelhos e o segundo agachado —, por três crianças. Se nada disto merece contestação, já o significado intrínseco da composição proposta pelo escultor Marco Telmo Areias Fidalgo — o terceiro nível de Panofski — tem sido objecto de intenso debate.

O modo como este significado intrínseco foi lido por diferentes grupos sociais resultou quer em actos de vandalização, quer numa defesa acérrima da estátua. Para uns e para outros, a estátua não apenas representa o Padre António Vieira, mas apresenta um programa ideológico.

Aqueles que se opõem à estátua, desde o momento da sua inauguração, em 2017, vêem nela o olhar benigno sobre a colonização portuguesa, questionando, por conseguinte, a sua verdade histórica. Entre estes, muitos sentem-se insultados, quer por os seus antepassados terem sido objecto da violência colonial portuguesa, quer pelo estatuto subalterno que a estátua transmite — talvez sem assim o desejar — dos povos ameríndios (ou, metaforicamente, dos “colonizados” em geral).

Os que defendem a estátua estão essencialmente a defender o Padre António Vieira, protegendo, ao mesmo tempo, uma determinada ideia de Portugal. Para estes, a vandalização da estátua — que critico abertamente — é entendida como um ataque maior. Um ataque não apenas a Vieira, mas também a uma ideia ainda muito partilhada: de que os portugueses foram melhores colonizadores do que outros europeus; os melhores colonizadores, até.

Para ambos, o que parece estar em causa não é a estátua em si, mas tudo aquilo que esta parece representar que está para além dela. E aqui, defensores e opositores coincidem: para ambos, a estátua apresenta uma visão bondosa da colonização portuguesa. Denegri-la é pôr em causa esta visão. Apoiá-la é reiterá-la, reforçando, dessa forma, o senso comum dominante.

Prosseguindo e até alargando a análise panofskiana, a estátua de Vieira apresenta, também, uma outra ideologia. Essa ideologia é bem diferente daquela que apoiantes e opositores lhe atribuem. Na verdade, a estátua também ostenta a ideologia dominante entre os séculos XVI a XVIII no que respeita a relação entre portugueses e ameríndios. Esta ideologia subsistiu até ao século XX, e está presente nas mesmas formas — o Padre António Vieira ladeado por crianças — às quais o século XXI atribuíu, contudo, novos significados.

Para os quadros culturais da actualidade, de defensores a opositores, a estátua reenvia para um entendimento benigno da colonização portuguesa. Mas se regressarmos ao contexto cultural no qual a imagem modelo foi produzida, deparamo-nos com algo bastante diferente. Para além de representar o Padre António Vieira com um ameríndio e um africano, a gravura do século XVIII atesta, de um modo geral, o modo como os portugueses viam os “outros”, os “colonizados”. No que diz respeito aos ameríndios, os portugueses viam-se e assumiam-se como “pais” (que amavam, disciplinavam e puniam). O seu dever era guiá-los, independentemente da sua idade e sexo, já que eles eram considerados intelectualmente inferiores, como se estivessem permanentemente num estado infantil. Legalmente, estes ameríndios foram classificados como miserabile personae, carentes de tutela, como Pedro Cardim bem demonstrou no recente artigo publicado no Expresso.

Ao optar por representar crianças, em vez do ameríndio e africano da gravura original, os promotores da escultura e o seu escultor procuraram, possivelmente, sublinhar o relacionamento simpático que o Padre António Vieira terá tido com as crianças ameríndias. Mas ao fazerem-no – e sem o saberem, diria – materializaram a ideologia original. E essa ideologia, ao contrário do que a maior parte dos portugueses parece continuar a acreditar, não era benigna. Ameríndios, africanos, asiáticos deviam permanecer na sombra dos portugueses, e raramente seriam considerados como seus iguais, até bem entrado o século XX, como o estatuto do indigenato bem o demonstra. A hierarquia e a desigualdade entre “colonizador” e “colonizado”, retratada na verticalidade da imagem, com o Padre António Vieira ao centro, e as crianças, pequenas, à sua volta, caracterizaram, de facto, o império português (como caracterizam, aliás, muitos outros impérios). A manutenção dessa hierarquia e desigualdade no “governo dos outros” levou, frequentemente, a actos de grande violência. Para que, à semelhança do que a estátua do Padre António Vieira nos mostra, os “colonizados” permanecessem para sempre sob a tutela dos portugueses.

Ironicamente, esse é também o significado intrínseco à estátua de Vieira, invisível aos que, por razões variadas, desconhecem em profundidade a história do império português da época moderna.

Onde fica o Padre António Vieira no meio disto tudo? São poucos, creio, a refutarem a relevância incontornável do Padre António Vieira enquanto figura maior das letras portuguesas; e, por conseguinte, justo merecedor de uma estátua. Rui Tavares dizia que Vieira merecia melhor, e partilho plenamente esta opinião. Oxalá a estátua dedicada a Vieira exaltasse a sua incrível qualidade literária, em vez de procurar apresentá-lo como um precoce defensor dos direitos humanos, suscitando, por causa disso, tantos conflitos de interpretação.

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