E Tudo o Vento Levou regressa à HBO (mas com contexto)

Duas semanas depois de ter sido retirado da plataforma de streaming, o filme regressa à HBO Max acompanhado de dois vídeos que contextualizam o seu legado histórico e onde é discutida a sua romantização do sul esclavagista dos Estados Unidos.

<i>E Tudo o Vento Levou</i> foi alvo de polémica ainda antes da estreia, em 1939, criticado por artistas e activistas negros pela romantização de uma sociedade esclavagista
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E Tudo o Vento Levou foi alvo de polémica ainda antes da estreia, em 1939, criticado por artistas e activistas negros pela romantização de uma sociedade esclavagista Reuters/Lee Celano

Duas semanas depois de ter sido retirado da HBO Max, na sequência de críticas ao seu branqueamento do drama da escravatura, E Tudo o Vento Levou está de regresso à plataforma de streaming. Surge, porém, acompanhado de dois vídeos em que é abordado e discutido o seu contexto histórico e a sua romantização do sul esclavagista dos Estados Unidos.

O filme realizado por Victor Fleming e protagonizado por Clark Gable e Vivien Leigh fora excluído da HBO Max na sequência do apelo de John Ridley, argumentista de 12 Anos Escravo, para que tal acontecesse temporariamente. Num artigo publicado no Los Angeles Times no início de Junho, o argumentista defendeu estarmos perante um filme que “quando não está a ignorar os horrores da escravatura, faz um intervalo apenas para perpetuar alguns dos mais dolorosos estereótipos das pessoas de cor”.

Da parte da HBO chegou então um comunicado em que a empresa reconhecia que as “representações racistas” presentes no filme “eram erradas então e são erradas agora” e anunciava a sua suspensão. “Sentimos que seria irresponsável manter este filme disponível sem uma explicação e uma denúncia daquelas representações”.

Duas semanas depois, o filme está de regresso à plataforma, acompanhado de dois vídeos. No primeiro, Jacqueline Stewart, professora de cinema e estudos dos media na Universidade de Chicago, dá conta de como as críticas que lhe são agora apontadas acompanham o filme desde ainda antes da sua estreia. Enquanto o filme estava em produção, o produtor David O. Selznick assegurou aos artistas e activistas afro-americanos que seria sensível às suas queixas quanto à forma como o tema da escravatura seria abordado, bem como quanto ao papel reservado às personagens negras. O resultado final, porém, mostra que Selznick não teve em conta tais manifestações, retratando o sul esclavagista em plena Guerra Civil americana como, afirma Jacqueline Stewart no vídeo, “um mundo de graciosidade e beleza, sem dar conta das brutalidades do sistema de escravatura em que aquele mundo se sustentava”. Quanto aos negros e negras escravizados, surgem como “notáveis apenas pela devoção aos seus senhores brancos ou pela sua inaptidão”.

Para além da introdução de Jacqueline Stewart, E Tudo o Vento Levou é ainda acompanhado de um vídeo de uma hora em que um painel debate o legado controverso daquele que é um dos mais premiados e icónicos filmes do período clássico de Hollywood. Ficou também na história por ter permitido a Hattie McDaniel tornar-se a primeira afro-americana a vencer um Óscar, no caso o de Melhor Actriz Secundária.

Nem McDaniel nem o restante elenco negro puderam assistir à estreia do filme, em 1939, em Atlanta, na Georgia, devido às leis segregacionistas então vigentes, que lhes vedavam entrada no Loew’s Grand Theater, cinema exclusivo para brancos. Meses depois, na cerimónia dos Óscares, em Fevereiro de 1940, a actriz foi obrigada a sentar-se numa mesa escondida no fundo da sala — o Ambassador Hotel em Los Angeles, que não permitia a entrada de negros, considerou um favor especial à Academia autorizar a presença de McDaniel nas suas instalações. No final de cerimónia, as estrelas do elenco deslocaram-se a um clube nocturno para celebrar os oito Óscares atribuídos ao filme. Hattie McDaniel foi barrada à entrada.

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