A FPF diz que o futebol é para homens

Pagar menos às mulheres para fazerem o mesmo que os homens devido “às circunstâncias excepcionais decorrentes da pandemia de covid-19” é desculpar o machismo.

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LUSA/PAULO NOVAIS

A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) apresentou em comunicado, a 29 de Maio, um regulamento específico que enunciava que seria imposto um tecto salarial de 550 mil euros a todas as atletas inscritas na liga BPI de futebol feminino. No mundo do futebol, onde todos os dias circulam milhões e milhões de euros, assistimos, todos os anos, a transferências milionárias que ultrapassam os 100 milhões de euros. E vemos jogadores homens ganharem ordenados milionários para fazerem o mesmo que estas mulheres: jogar futebol.

A discriminação de género no mundo do desporto está enraizada na sociedade e cria diversas dificuldades a estas mulheres que, tal como os homens, têm gosto pelo futebol e querem praticá-lo, sem serem julgadas ou perderem a sua feminilidade. Os estereótipos instituídos são violentos e opressores e as mulheres têm muito mais entraves para se impor na sociedade: é-lhes exigido muito mais que a um homem e o machismo institucional estende-se por todas as áreas económico-sociais. O futebol não é excepção, aliás, o futebol é um exemplo claro das desigualdades de género. Esta medida da FPF só veio aprofundá-lo, dizendo que “o futebol é para homens”.

Portugal é o campeão da Europa de futebol masculino e, nos últimos anos, a federação trouxe para Portugal títulos não só masculinos, nem só no futebol, mas também no futsal feminino e futebol de praia e futsal masculino. Contudo, a mentalidade continua a ser pequenina e retrógrada, discriminatória e cegamente capitalizada. E quando comparamos com outros países vemos que, em vez de uma evolução social, temos um retrocesso.

Na Alemanha já existe uma árbitra a apitar jogos da Bundesliga: Bibiana Steinhaus foi a primeira mulher a arbitrar um jogo de futebol oficial masculino em 2017. Ainda é pouco, mas já é muito mais do que em Portugal. Em França, a jogadora norueguesa do Lyon, Ada Hegerberg, é a jogadora mais bem paga do mundo e aufere um salário de 400 mil euros anuais — ainda é muito pouco em comparação ao salário dos homens, no entanto já é muito mais do que em Portugal.

 Em 2019, o jogador brasileiro do PSG, Neymar, facturava anualmente 27 vezes mais que o top 5 das jogadoras mais bem pagas do mundo. Infelizmente estas desigualdades salariais entre géneros não são exclusividade do futebol. Na NBA, liga de basquetebol norte-americana, o jogador dos Golden State Warriors, Stephen Curry, aufere um salário superior aos 40 milhões de dólares anuais, ou seja, mais 40 milhões de dólares que Elena Dele Donne, jogadora mais bem paga da WNB (liga de basquetebol norte-americana feminina) que recebe 215 mil euros anuais.

Colocar um tecto salarial às futebolistas da Liga BPI é colocar um tecto à igualdade e justiça social. As muitas atletas que jogam na liga portuguesa abdicam de muito para poder jogar, uma vez que ainda há muitas jogadoras que não são profissionais. Pagar menos às mulheres para fazerem o mesmo que os homens devido “às circunstâncias excepcionais decorrentes da pandemia de covid-19”, como escrevia a FPF no comunicado oficial, é desculpar o machismo.

Os jogadores de futebol influenciam milhares de jovens que crescem a ver homens a correr atrás de uma bola, mas raramente vêem mulheres. A educação e a sensibilização dos mais jovens é escassa e quando as meninas querem jogar futebol nas escolas são discriminadas, não só pelos rapazes, mas também pelas raparigas que foram educadas pela sociedade a vestir rosa e ensinadas de que a bola é um brinquedo para rapaz.

O futebol moderno é cada vez menos um desporto. O capital apoderou-se de todo o instrumento futebolístico, desde as transmissões televisivas, às sociedades anónimas e transferências milionárias. O jogo jogado passou para segundo plano, de forma a entreter o público, enquanto por detrás do espectáculo estão os jogos de bastidores e por baixo do relvado as carcaças e os podres do negócio do futebol.

Depois deste comunicado da FPF, 132 jogadoras juntaram-se ao movimento Futebol sem Género, que visa combater as desigualdades que ainda hoje se faz sentir entre géneros no futebol. Mais uma vez, a FPF numa demonstração machista e gananciosa preferiu tirar a quem tem menos e deixar o futebol masculino intocável dentro da sua bolha de lavagens de dinheiro e destruição do desporto. Por fim, mais importante que alterar leis ou regulamentos é urgente mudar as mentalidades.