Bibiana Steinhaus será a primeira árbitra da história da Liga alemã

Filha de um antigo árbitro e já com experiência no futebol masculino, a agente de polícia atinge o topo da hierarquia aos 38 anos. E há mais seguidoras na calha.

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Por esta altura, aos 38 anos, Bibiana Steinhaus já sabe bem o que é fazer história no futebol. Mas há uma diferença significativa entre ir escalando a pulso a pirâmide do futebol feminino, colhendo o reconhecendo nacional como a melhor árbitra da Alemanha, e quebrar a barreira invisível que tem separado as mulheres dos relvados exclusivamente masculinos. Nesta sexta-feira, esse muro caiu, com a Federação Alemã de Futebol (DFB) a anunciar a juíza da Baixa Saxónia como uma certeza na Bundesliga da próxima época.

Poucas árbitras saberão manter a ordem em campo como Bibiana Steinhaus. Descrita como uma mulher de carácter forte, muito rigorosa nas decisões que toma, tem no background de agente da polícia (há uns anos fez parte da força especial que garantiu a segurança da cimeira do G8) uma base forte de disciplina que transpõe para dentro do campo. Nascida na pequena cidade de Bad Lauterbeg, no Noroeste do país, foi construindo um percurso sólido no futebol, já com incursões esporádicas nas provas de elite.

Vamos por partes. O profissionalismo na arbitragem bateu-lhe à porta em 1999, altura em que passou a dirigir os principais jogos da Bundesliga Feminina. Dois anos mais tarde, entrou em campo para apitar um jogo de homens, na Regionalliga (terceiro escalão do futebol germânico), passando a integrar as fileiras da FIFA em 2005. O passo seguinte, num trajecto a todos os títulos pioneiro, foi desempenhar a função de árbitra assistente na Bundesliga II, aprofundando o contacto com um mundo em que o machismo não parece fazer-lhe mossa. "Quanto mais espectadores há no estádio, menos se ouve o que dizem", avalia.

Daí até ao escalão de elite, no papel de quarta árbitra, foi um passo. E essa experiência acumulada permite-lhe encarar agora o novo desafio com naturalidade, até porque Bibiana Steinhaus é daquelas mulheres que dificilmente abanam. "Todos começam do zero: treinadores, jogadores, árbitros. O que quero é garantir a aplicação das regras e manter a transparência. Em ambas as actividades tenho uma espécie de poder executivo e isso também é uma ajuda", explicou numa entrevista à FIFA, há quase uma década.

De então para cá foi-se aproximando do "sonho", como lhe chamou nesta sexta-feira. Carismática, trabalhadora, perfeccionista, foi convencendo os quadros directivos da DFB de que era uma aposta segura, até porque a experiência acumulada em eventos como o Mundial feminino e os Jogos Olímpicos lhe dá um estofo de respeito. E quando recebeu o telefonema do presidente do Conselho de Arbitragem germânico, na passada quarta-feira, encarou a notícia como um "prémio", ainda que a reacção tenha sido de espanto.

"O que senti? Não queria acreditar. Senti alegria, felicidade, alívio, curiosidade. Foi uma montanha-russa de emoções", confessou ao site oficial da DFB. "Sempre foi o meu sonho arbitrar na Bundesliga. É uma confirmação do trabalho duro que realizei no caminho até este ponto e, por outro lado, um incentivo para continuar a trabalhar", prosseguiu.

O primeiro incentivo de todos, esse, recebeu-o em casa, ainda na infância. A arbitragem era um tema habitual nas conversas de família, ou não tivesse o pai de Bibiana sido, ele próprio, um árbitro de futebol. Mas há um outro nome a acrescentar à lista de influências que lançaram as bases para a carreira nos relvados. "Wolfgang Illhardt, o presidente do clube SV Bad Lauterberg, foi também um dos meus críticos mais duros", recordou ainda na entrevista à FIFA, remetendo para os tempos em que tentou a sorte como jogadora, falhando na missão de se afirmar como lateral esquerda.

Hoje, lançada para a ribalta de um dos campeonatos mais entusiasmantes do mundo, confessa-se entusiasmada e disposta a aperfeiçoar um registo que tem colhido elogios. "O meu estilo caracteriza-se por intensa comunicação. Antes do jogo, eu e a minha equipa trocamos impressões, avaliamos expectativas e essa é uma boa orientação. Gosto de manter empatia com os interlocutores e comunicar com os olhos, isso também faz parte do trabalho dos árbitros", descreveu. Ela, que, de uma forma ou de outra, terá os olhos de milhões de espectadores sobre si.

A pressão, essa, nunca a incomodou. E agora só espera corresponder à confiança que lhe depositaram nas mãos e aproveitar a ocasião para abrir ainda mais as portas às mulheres no futebol masculino. "Espero que esta decisão tenha efeitos positivos sobre os jovens árbitros ou aspirantes a árbitros", apontou, citando o empenho e a dedicação como condições essenciais para vingar no sector. De resto, para além da sua própria capacidade, há uma outra razão que a leva a alimentar expectativas positivas nesse particular: "A Riem Hussein já tem apitado jogos na III divisão, a Katrin Rafalski também tem sido assistente na Bundesliga II...". Contas feitas, há fortes razões para crer que Bibiana Steinhaus personificará "apenas" o início de uma nova era no futebol.