Administração Trump em choque com o procurador-geral que investiga aliados do Presidente

Departamento de Justiça norte-americano anunciou saída de Berman, mas o procurador de Manhattan garantiu que só sai quando o Senado confirmar o seu substituto. “Até lá, as nossas investigações irão avançar, sem atrasos ou interrupções”, garantiu.

Geoffrey Berman rejeitou decisão do Departamento de Justiça
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Geoffrey Berman rejeitou decisão do Departamento de Justiça Reuters/Andrew Kelly

A Administração Trump anunciou na sexta-feira à noite que o procurador-geral de Manhattan (Nova Iorque), Geoffrey Berman – que conduziu uma série de investigações que envolvem o Presidente dos Estados Unidos e a sua campanha –, iria abandonar o cargo. Mas Berman ripostou, dizendo que não se demitiu e que se vai manter em funções, de modo a garantir que os casos do seu gabinete avançam sem restrições.

Este impasse surreal é a mais recente batalha da gestão do Departamento de Justiça pela Administração Trump. Os democratas voltaram a criticar o que consideram ser uma politização do departamento por parte do Presidente e do seu attorney general, William Barr.

Barr anunciou a mudança do procurador-geral através de um comunicado, dizendo que o Presidente planeia nomear para o cargo o actual director da Comissão de Títulos e Câmbio [SEC, na sigla em inglês], Jay Clayton.

O gabinete de Berman tem conduzido uma investigação criminal ao advogado de Donald Trump, Rudy Giuliani, num caso sobre o financiamento da campanha eleitoral do Presidente, que já levou a duas acusações contra dois sócios do advogado.

Um responsável do Departamento de Justiça explicou que a mudança se deveu ao facto de Clayton se estar a preparar para abandonar a SEC no final do ano e de ter mostrado interesse no cargo de procurador-geral em Nova Iorque. 

Barr gostou de Clayton e gostou da ideia. O attorney general ofereceu a Berman a possibilidade de liderar a repartição Cível do Departamento de Justiça, mas o procurador-geral de Manhattan rejeitou a oferta, acrescentou o funcionário.

Berman reagiu duramente: “Esta noite descobri através de um comunicado de imprensa do attorney general que eu próprio iria renunciar ao cargo de procurador-geral dos EUA. Não me demiti e não tenho intenções de me demitir da posição para a qual fui nomeado pelos juízes do Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova Iorque”.

“Só deixarei o cargo quando um candidato indicado pelo Presidente for confirmado pelo Senado. Até lá, as nossas investigações irão avançar, sem atrasos ou interrupções. Prezo cada dia de trabalho com os homens e mulheres deste gabinete, onde procuramos fazer justiça, sem medos ou privilégios – e tencionamos garantir que os importantes casos do gabinete permanecem desimpedidos”, garantiu Berman.

No seu comunicado, Barr tinha informado que enquanto o Senado avalia a nomeação de Clayton, o cargo de Geoffrey Berman seria ocupado por Craig Carpenito, procurador-geral da Nova Jérsia. Segundo Barr, Carpenito iria assumir o posto a 3 de Julho.

“Geoff [Berman] fez um excelente trabalho, liderando uma das nossas procuradorias mais importantes e alcançando imensos êxitos em matérias significativas, cíveis e criminais”, elogiou Barr.

Os procuradores federais de Manhattan têm lidado com alguns dos casos financeiros, políticos e de segurança nacional mais sensíveis do Departamento de Justiça, e o gabinete de Berman tem uma longa tradição de definição do seu próprio rumo nos casos mais mediáticos.

Nos casos que envolvem os dois sócios de Giuliani, Lev Parnas e Igor Fruman, o gabinete acusou-os de conspiração e falsos testemunhos à Comissão Eleitoral Federal.

Pessoas familiarizadas com o caso dizem que os investigadores estão a escrutinar o negócio de consultoria de Giuliani e a vigiar as doações que foram feitas tanto à America First Action, o principal comité de acção política pró-Trump, criado pelos conselheiros e aliados do Presidente após a sua eleição [em 2016], como a uma organização sem fins lucrativos afiliada ao comité.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post.

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