D. António Marto e D. José Ornelas são os candidatos mais fortes à liderança dos bispos portugueses

D. Manuel Clemente abandona a presidência da Conferência Episcopal Portuguesa ao fim de dois mandatos consecutivos. Se o bispo de Leiria-Fátima se escusar por causa da idade, o bispo de Setúbal é tido como um dos mais prováveis sucessores.

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A idade poderá jogar a desfavor de António Marto na eleição que começa hoje do novo líder dos bispos portugueses Daniel Rocha/arquivo

Quando, em meados de Maio de 2013, D. Manuel Clemente foi anunciado como novo patriarca de Lisboa, sucedendo a D. José Policarpo, havia outros nomes na calha para o lugar. Entre estes, estavam o de D. António Marto, o actual cardeal da Diocese de Leiria-Fátima, mas também o do bispo de Coimbra, D. Virgílio Antunes, e de D. José Ornelas Carvalho, actual bispo de Setúbal. E são estes os nomes que mais uma vez vão a jogo com hipóteses de ganhar numa altura em que 28 bispos diocesanos e auxiliares são chamados a eleger o novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

O sucessor “natural” no cargo seria o do actual vice-presidente da CEP, o cardeal D. António Marto. Mas este conta já 73 anos, faltando-lhe apenas dois para poder pedir a resignação do cargo, e o próprio D. Manuel Clemente, apelou, em declarações à Renascença, à necessidade de chamar para o órgão que congrega os bispos portugueses alguém capaz de garantir o rejuvenescimento dos diferentes órgãos da CEP, mais precisamente “gente mais nova para que o trabalho continue com vigor e criatividade”.

Neste sentido, e depois de sete anos em que D. Manuel Clemente liderou uma CEP relativamente amorfa, descontado o vigor na campanha contra a eutanásia, o nome mais consensual parece ser o do actual bispo de Setúbal, D. José Ornelas Carvalho. Além de ter sido superior-geral da Congregação dos Dehonianos, um instituto religioso com presença em mais de 40 países, D. José Ornelas Carvalho passou por Roma, antes de ter sido nomeado bispo de Setúbal, em 2015. “Tem preparação intelectual e experiência internacional”, resumiu um membro da Igreja ao PÚBLICO.

O actual bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, foi outro dos nomes apontados nos corredores da Igreja, mas a hipótese perde força se considerarmos que este é, simultaneamente, referido como o mais provável sucessor de D. Jorge Ortiga no Arciprestado de Braga. Já passou um ano desde que, seguindo as determinações do direito canónico, D. Jorge Ortiga apresentou a sua renúncia ao Papa após completar 75 anos de idade, pelo que o anúncio da sua substituição se poderá fazer a qualquer momento.

Aborto e eutanásia: a luta deve continuar

No discurso de arranque dos trabalhos da assembleia plenária, que começaram esta segunda e deverão prolongar-se até quarta-feira, em Fátima, D. Manuel Clemente, que, segundo os estatutos, não poderá ser reeleito, já que cumpriu dois mandatos consecutivos, começou por se deter nos efeitos da pandemia para louvar o “heroísmo” dos que, nomeadamente na frente hospitalar e nos lares de idosos”, procuraram minorar os seus efeitos.

E, sublinhando que “ainda há muito a fazer no campo da comunicação interna e externa” da CEP, o ainda líder dos bispos portugueses recuou numa retrospectiva aos sete anos do seu mandato. “Em 2013 estávamos a sair duma grave crise económica e social, como agora estamos noutra, trazida pela pandemia”, começou por lembrar, apontando os que elegeu como os dois debates mais marcantes dos seus mandatos: o do aborto e o da eutanásia. “Continuam presentes e a requerer a nossa atenção prioritária e constante. Continuaremos a expressar-nos com serenidade e clareza, pois, aqui como em tudo, importa mais convencer do que vencer”, invectivou.

Apesar de o tema ter sido retirado da agenda, D. Manuel Clemente referiu-se ainda à criação das comissões diocesanas destinadas a receber e a dar seguimento a eventuais queixas sobre abusos sexuais de menores e adultos vulneráveis cometidos por membros do clero. A criação destas comissões foi tornada obrigatória pelo Papa Francisco, que deu a cada uma das dioceses do mundo inteiro um prazo de um ano para o fazerem. Este prazo terminou no passado dia 1 e, segundo adiantou ao PÚBLICO o porta-voz da CEP, estas comissões estão constituídas nas 21 dioceses que constituem a Igreja em Portugal, sendo que, nalgumas, as dioceses foram criadas já no fim do prazo “devido à pandemia que dificultou os contactos pessoais para a respectiva constituição”. Quanto à actualização das normas jurídicas que a CEP se propôs fazer em convergência com as orientações do Vaticano quanto ao tratamento destas matérias, “estão a ser preparadas para devida aprovação” na próxima reunião dos bispos, marcada para Novembro.