Editorial

Derrubar estátuas

Rui Rio declarou não existir racismo em Portugal: “Ainda ficamos é racistas com tanta manifestação anti-racismo.” É difícil descortinar algum senso nisto.

As estátuas são os maiores símbolos públicos da homenagem de uma comunidade ao seu passado. Foram derrubadas muitas estátuas na Europa no século XX — muitas de Estaline, por exemplo, que, ainda que tenha feito uma coisa boa (o Exército Vermelho foi determinante para derrotar Hitler), foi um criminoso. Derrubar as estátuas de Estaline não significou apagar a História — antes, pelo contrário, ganhar consciência dela.

Os movimentos pelo derrube de estátuas que atravessam os Estados Unidos e também o Reino Unido podem misturar a Confederação com Cristóvão Colombo, mas estão a ajudar a América e também a Grã-Bretanha a confrontarem-se com a sua história. Ao decidir retirar as estátuas dos confederados do Capitólio, Nancy Pelosi traz a revolta das ruas provocada pela morte de George Floyd para um patamar institucional. Isso é bom — talvez pela primeira vez, a América está a confrontar-se com o seu racismo estrutural. Vai haver exageros? Sim, é absurdo retirar estátuas de Cristóvão Colombo e apagar do catálogo da HBO o E tudo o Vento Levou, o melhor “filme da vida” de muitas pessoas.

O filme é de 1939 — altura em que toda a Europa e América branca eram racistas e maioritariamente anti-semitas. Com a história anti-semita houve confrontação, embora aqui e ali perdure algum esquecimento. Com o racismo esse dia ainda está por chegar — basta ver a simplicidade com que recentemente Rui Rio, o líder da oposição, declarou não existir racismo em Portugal. Ao que juntou: “Ainda ficamos é racistas com tanta manifestação anti-racismo.” É difícil descortinar algum senso nisto.

É idiota esconder o E tudo o Vento Levou, mas a decisão da HBO, pelo menos, fez-nos revisitar o filme e lembrar que Hattie McDaniel (a Mammy negra) não esteve presente na antestreia e, apesar de ter sido a primeira afro-americana a ganhar um Óscar, foi colocada nas filas de trás. O risco de estes movimentos desenvolverem estratégias pró-censura — Litte Britain também foi retirada — é um caminho perigoso e muito fácil para consolar consciências. Mas suponho que poucos chorarão o fim do Cops — não era uma obra de arte, era um mero asco televisivo de glorificação da polícia americana.

A Grã-Bretanha está melhor sem uma estátua de um comerciante de escravos? Está. Como escrevia Owen Jones no The Guardian, não é branquear a História — já ninguém se lembrava do senhor —, mas tomar consciência dela. Vamos derrubar todas as estátuas de colonialistas? Não sobrava um único herói republicano (em Portugal) nem Churchill em Inglaterra. Mais do que derrubar estátuas, tomar consciência de como a riqueza da Europa se forjou na exploração de outros continentes, de que a “gesta” dos europeus é também uma história de subjugação de povos e massacres, ajuda-nos a perceber melhor o passado para combater abertamente, e sem “mas”, o racismo.

Assumir a História é assumi-la por inteiro — em todos os países imperiais, como foi Portugal muito depois dos outros todos, a discussão ainda é difícil, como se prova pela declaração de Rui Rio, que está longe de ser um caso isolado. Uma das pessoas com quem nos últimos anos discuti esse assunto (também negava que o racismo existisse) acabou a dizer-me que não gostaria que um filho seu se casasse com uma negra. A denegação é uma estratégia de sobrevivência individual e colectiva, mas não faz muito pelas sociedades democráticas que queremos ser.

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