Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

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Andar de bicicleta é bom para o ambiente e para a saúde. E faz-me feliz

Hoje é o Dia Internacional da Bicicleta — e confesso que só reparo nisso, e o assinalo, há apenas um ano. Sou uma recém-chegada a este mundo da mobilidade ciclável, mas agora que cheguei só posso lamentar o facto de não ter aderido antes.

Foi em Maio do ano passado que comecei a fazer da bicicleta o meu meio de transporte privilegiado para as idas para o trabalho. As motivações não foram apenas ambientais — até porque para essas também já tinha feito as mudanças mais relevantes. Arrendei a casa de que sou proprietária numa freguesia de Vila do Conde, e onde precisava do carro para ir para todo o lado, e mudei-me para a cidade de Matosinhos, em frente a uma linha de metro. O objectivo era levar os miúdos a pé para a escola, ir de metro para o jornal e tirar o carro da garagem o menos possível. 

O primeiro passo, relacionado com as motivações ambientais, que tento levar a sério, já tinha, então, sido dado. E a bicicleta andava longe dos horizontes, até porque eu e as duas rodas nunca tivemos uma relação muito próxima. Não me lembro, sequer, quando aprendi a andar de bicicleta. Na infância partilhava a que havia lá em casa com o meu irmão — e ele pegava nela sempre bem mais do que eu. 

A bicicleta que comprei em Maio de 2019 foi, por isso, a minha primeira bicicleta. Quando cá em casa discutíamos quando é que havíamos de comprar a máquina de lavar louça, avariada desde o Natal anterior, eu respondi: “Prefiro continuar a lavar a louça à mão e poder comprar uma bicicleta”. Foi aí que todos percebemos, eu inclusive, que a intenção de começar a ir de bicicleta para a redacção era mesmo séria. E, sim, que a vida é feita de escolhas. E a vida pela qual eu andava a suspirar implicava a aquisição de uma bicicleta eléctrica. Porque o trabalho fica a mais de dez quilómetros de casa, e a viagem termina com a subida de uma rua que mais parece uma parede, de tão acentuada que é: deixem passar o exagero, mas quem conhece a rua D. Pedro V, no Porto, compreende o devaneio.

A parede da rua D. Pedro V era o “monstro” que eu teria de enfrentar. Era esse o preço a pagar para poder circular numa das ciclovias mais bonitas do país. Não estou a exagerar. Pensem lá o que é sair da praia de Matosinhos, ir a acompanhar sempre a marginal, primeiro o mar da Foz, passar os molhes da barra e o farol de Felgueiras, depois entrar pela marginal do rio adentro, até ao farol da Cantareira, Fluvial, Largo do Ouro, e subir finalmente para a rua Júlio Dinis. O entusiasmo começava a ser grande. Fui a uma loja de bicicletas fazer o test-drive. Na primeira vez não consegui subir a D. Pedro V, nem com o motor eléctrico — santa ignorância com as mudanças e as velocidades. Nunca mais voltou a acontecer.

Candidatei-me aos apoios do Fundo Ambiental — o que sempre ajudou a baixar a factura — e a bicicleta chegou no início de Maio. Foram os meses de Primavera, Verão e Outono em que mais feliz entrava na redacção e mais feliz regressava a casa. Troquei uma viagem de metro de 40 minutos — que me dava para pôr alguma leitura em dia — por um passeio de bicicleta de igual duração. Em que não houve livros mas, uma ou outra vez, houve um podcast enfiado nos ouvidos. 

O que houve, sempre, foi a sensação de liberdade ao pedalar. E com sol inclemente ou chuva torrencial (experimentei ambos, prefiro o primeiro, obrigado), a chegada ao destino era sempre triunfante. As endorfinas não deixavam enganar — ou porque o “passeio” tinha sido tranquilo, e o vento na face era refrescante, ou porque a viagem foi feita mais em versão ginásio, como se tivesse um personal trainer a mandar fazer abdominais ao ouvido (Detesto, não pratico! Mil vezes treino cardio ao ar livre do que malhar em máquinas num ginásio).

Às vezes chegava cansada, mas a verdade é que chegava sempre feliz. Nos meses de Verão, a prenda que recebia no regresso a casa era assistir às cores do sol a começar a esconder-se debaixo da Ponte da Arrábida, ou a retirar-se definitivamente atrás do Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões. Há quem pague bilhetes de avião para assistir a isto — e eu não tenho como os censurar. O que eu luto por manter é esta alegria de não deixar de ser turista na minha cidade e de me entusiasmar com as paisagens que vejo todos os dias, como se fosse a primeira vez.

Tenho a noção de que para a minha decisão contribuiu, e muito, o facto de usar sobretudo uma ciclovia que me deixa tranquila nas deslocações, que está bem sinalizada, e onde os eventuais “problemas no trânsito” se devem a peões absortos em auriculares com quem uma parte da ciclovia é partilhada. Já das vezes em que usei a bicicleta noutras zonas da cidade, a tranquilidade não é tanta, mesmo que também haja uma ciclovia pintada no pavimento. Os automobilistas não cedem prioridade, estacionam em cima das vias, abrem as portas sem cuidar que venha uma bicicleta a passar. Há muito caminho a fazer. 

Desde Fevereiro que a bicicleta não tem ido para o trabalho. Primeiro, foi o Inverno. A pandemia, depois. E agora é o teletrabalho, que se vai manter. Essas deslocações diárias estão paradas e a bicicleta tem estado mais tempo na garagem do que devia — mas agora regressa às saídas. Já o carro continua por lá, o mais possível. 

Acredito que quantos mais aderirmos a esta forma de mobilidade, mais convincentes nos tornaremos a esgrimir necessidades de mudança. Eu levo três argumentos de peso e posso testemunhá-los. Andar de bicicleta é bom para o ambiente, para a saúde física e para o índice de felicidade. Hoje vou assinalar o Dia Internacional da Bicicleta de sorriso na cara. 

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