Alimentação e actividade física mudaram durante o confinamento – para pior nas classes mais desfavorecidas

Estudo da Direcção-Geral da Saúde indica uma em cada três pessoas sentiu insegurança alimentar durante o confinamento. Quase metade dos portugueses mudou hábitos alimentares e três em cada cinco tiveram níveis baixos de actividade física.

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A ida às compras foi o comportamento que mais mudou Rui Gaudêncio

As semanas de confinamento fizeram com que quase metade dos portugueses tenha alterado hábitos alimentares e levaram a mudanças nos índices de actividade física. As pessoas em piores contextos socioeconómicos foram as mais afectadas negativamente: uma em cada três sentiu insegurança alimentar.

Estes são alguns dos dados do inquérito levado a cabo pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) sobre alimentação e actividade física em contexto de contenção social, que vem reforçar a diferença de realidades vividas durante a pandemia.

Dos quase 5900 inquiridos, 32,3% sentiram dificuldade em ter disponíveis alimentos devido a problemas financeiros, sendo que 33,7% reportaram preocupação quanto ao acesso aos alimentos no futuro e 8,3% afirmaram que já estavam com dificuldades económicas. A região do Alentejo foi a que teve maior percentagem de pessoas com insegurança alimentar (45%), seguida dos Açores (44,5%), do Algarve (41,2%) e da Madeira (39,4%). Nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Norte, 31,8% disse ter sentido dificuldades, 29,8% na região do Centro.

Ao PÚBLICO, Maria João Gregório, directora do Programa Nacional de Promoção da Alimentação Saudável realçou que a situação económica é um dos factores que explica a existência de dois padrões distintos nas alterações de consumo.

Além das alterações na alimentação e na actividade física, também foi estudado o acesso a informação relacionada com a pandemia, a informação sobre outros campos da saúde e a orientações da DGS.

O cruzamento das três variáveis permitiu desenvolver um “padrão de risco para a saúde”, que verificou uma maior frequência de pouca actividade física, tendência de alimentação não saudável e desconhecimento das indicações da DGS a pessoas em situações financeiras “difíceis ou muito difíceis” com um menor nível de escolaridade.

Por outro lado, a adopção de comportamentos benéficos para a saúde – melhoria na alimentação e mais actividade física – e o conhecimento das normas da DGS, características do “padrão protector da saúde”, estão associados a uma boa situação financeira e a maior nível de escolaridade.

Para a directora do Programa Nacional de Promoção da Actividade Física, Marlene Nunes Silva, esta “polarização” evidenciada nos dados mostra bem as “iniquidades sociais vincadas” que existem. “O confinamento foi vivido de forma muito diferente em condições socioeconómicas distintas”, afirma.

Ida às compras foi o comportamento que mais mudou

O estudo da DGS, que contou com o Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, teve como objectivo “conhecer os comportamentos alimentares e de actividade física dos portugueses” durante o período de isolamento no combate à pandemia.

Na alimentação, 45,1% dos inquiridos assumiram que alteraram hábitos alimentares – 58,2% para melhor e 41,8% para pior. A principal razão para esta mudança (34,3%) foi a alteração do número de idas às compras, seguida da alteração de apetite (19,3%) e de mudanças provocadas pelo stress (19,3%). Diferentes horários de trabalho, também associados ao teletrabalho, contribuíram em 17,6%.

A ida às compras foi, aliás, o comportamento que mais inquiridos disseram ter alterado, com 71% a ter alterado o número de idas ao supermercado. Quase 57% das pessoas disseram ter passado a cozinhar mais. Maria João Gregório explicou que o teletrabalho, aliado “menos estímulos de oferta alimentar” exterior, contribuíram para este aumento.

A nutricionista explicou que foi possível identificar um padrão alimentar saudável (18,2% dos inquiridos), em que se verificou um aumento no consumo de fruta, hortícolas e pescado; um padrão não saudável (10,8%), caracterizado por um aumento no consumo de refeições pré-preparadas e de take-away, snacks salgados e refrigerantes e numa diminuição da ingestão de frutas e hortícolas. No caso de pessoas em risco de segurança não alimentar, esta percentagem subiu para 13,8%.

Maria João Gregório realçou também o sucesso do combate à “desinformação que acabou por acontecer” quanto à relação entre a alimentação e o risco de contágio de covid-19. Questionados sobre se tinham começado a tomar vitaminas ou suplementos para diminuir o risco de contrair o vírus, 79,8% dos inquiridos responderam negativamente, e 76% também não começou a ingerir alimentos com esse propósito.

Actividade física mudou nos extremos

O Barómetro Nacional de Actividade Física de 2017 indicava que 29,4% da população era pouco activa. Em tempos de confinamento, foi possível verificar um aumento para mais do dobro: 60,9% das pessoas tem níveis baixos de actividade física.

Em sentido contrário, verificou-se uma diminuição do número de pessoas com níveis elevados de actividade, de 39,9% no estudo de 2017 para 16,5% durante a pandemia.

O tempo que as pessoas ficaram confinadas também teve influência nos índices de actividade, com um “padrão diferente expressivo” por género sublinhado por Marlene Nunes Silva.

Nas mulheres, o inquérito concluiu que houve uma “diminuição no nível elevado de prática à medida que o tempo de confinamento aumentou” – 13,9% com até três semanas de confinamento para 9,2% com cinco ou mais semanas.

Nos homens, foi observada “uma diminuição da prevalência da categoria ‘pouco activo’ naqueles que estão há mais tempo no confinamento, de 64,6% quando o confinamento durou até três semanas para 56,4% quando durou cinco ou mais.

Entre as principais actividades praticadas, a caminhada (32,3%), as actividades de fitness (25,4%) e os treinos de força (18%) foram as mais referidas.

Marlene Nunes Silva chamou também a atenção para dinâmicas que vale a pena “perceber melhor”, como o caso de a limpeza doméstica ser a actividade física integrada no quotidiano com maior disparidade de género: 86,7% nas mulheres, 51,1% nos homens. Nesta categoria de actividades físicas não estruturadas, 50% dos portugueses mencionaram ainda de subir e descer escadas, uma acção que, em barómetros anteriores, não tinha relevância estatística.

Um dado que também “espantou” a directora Programa Nacional de Promoção da Actividade Física foi a grande percentagem de população que indicou, “como actividade em comportamento sedentário”, ver televisão – 70%, a principal actividade, à frente da utilização de computadores, tablets e telemóveis (60,6%).

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