Será tempo de um terceiro partido nos Estados Unidos?

A eleição de Donald Trump foi um sinal de que uma parte do eleitorado americano está descontente com os políticos do costume, e Joe Biden pode não conseguir mobilizar a base do Partido Democrata. O Público falou com o especialista Germano Almeida sobre a possibilidade do crescimento de novos partidos nos Estados Unidos.

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A taxa de aprovação do Presidente Trump mantém-se em terreno negativo Reuters/LEAH MILLIS

Os Estados Unidos têm estado nas notícias por serem o país com mais casos de covid-19, mas as eleições presidenciais de Novembro também marcam a agenda. O antigo vice-presidente de Barack Obama, Joe Biden, tem o caminho livre para ganhar a nomeação do Partido Democrata e ser o adversário de Donald Trump. Contudo, a falta de entusiasmo pela campanha de Biden e a baixa taxa de aprovação de Trump são sinais de que os pequenos partidos podem crescer nas próximas eleições.

Foi no início de Abril que o senador Bernie Sanders terminou a sua campanha para a nomeação do Partido Democrata, mas o seu eleitorado não se está a consolidar em torno de Joe Biden. Uma sondagem do Emerson College, publicada em Abril, indica que 51% dos eleitores de Sanders admitem votar num partido pequeno e que 35% dos eleitores em geral admitem votar num terceiro partido. Estes números podem ser explicados devido a grande parte dos jovens, a principal base de Sanders, não se rever nas políticas menos progressistas de Biden, que é contra medidas como a criação de um sistema universal de saúde.

Germano Almeida é jornalista especializado em política norte-americana e explica que “o foco da atenção e das preocupações dos americanos está na pandemia”. “Joe Biden, estrategicamente, tem estado pouco visível e está a deixar todo o palco para que fiquem claras, nesta fase, as contradições de Donald Trump na forma como gere esta crise. Ora, isso parece estar a gerar um paradoxo: com menos visibilidade, Biden gera também menos mobilização”, diz ao PÚBLICO.

A verdade é que há candidatos que estão a tentar apelar aos eleitores de Sanders desmotivados pela campanha de Joe Biden. O candidato à nomeação dos Verdes, Howie Hawkins, tem uma plataforma progressista, em que defende um sistema de saúde universal e o Green New Deal, um plano para reestruturar a economia em torno de políticas mais amigas do meio ambiente. O ex-governador do Minnesota Jesse Ventura está também a ponderar concorrer à nomeação dos Verdes, depois de já ter ocupado cargos fora dos dois partidos tradicionais.

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Jesse Ventura foi governador independente do Minnesota e sem apoio de nenhum dos partidos dominantes Flickr

O plano dos Verdes de cortejar os eleitores de Sanders pode dar ao partido os 5% necessários para obter financiamento federal. Para Germano Almeida, esta estratégia pode resultar, “mas é preciso recuar a 2016: Donald Trump só ganhou inesperadamente a Hillary Clinton porque uma parte dos apoiantes de Sanders recusou votar em Hillary”, tal como os apoiantes de Ralph Nader que rejeitaram Al Gore em 2000. “Duas décadas depois, a esquerda Verde ainda vacila, mas talvez a rejeição a Donald Trump fale mais alto”, considera.

“Sem alternativa à bipolaridade”

Se os Verdes estão a tentar apelar aos progressistas, o Partido Libertário tem tentado apelar aos eleitores à direita descontentes com Trump. Segundo o site agregador de sondagens FiveThirthyEight, de momento Trump tem uma taxa de reprovação de 53,8%.

Um dos críticos de Trump é o congressista Justin Amash, que abandonou os republicanos no ano passado e tornou-se independente. Amash estava a ponderar concorrer à nomeação pelo Partido Libertário, mas tomou a “decisão difícil” de não seguir em frente com a campanha. “Depois de muita reflexão, concluí que as circunstâncias não favorecem o meu sucesso como candidato para Presidente este ano”, escreveu no Twitter.

Germano Almeida acredita que os efeitos das possíveis candidaturas de Jesse Ventura ou Justin Amash são “pontuais”. “Jesse Ventura foi uma espécie de Donald Trump com duas décadas de avanço. Justin Amash foi o único ‘herói moral’ da direita que se recusou, no impeachment, a alinhar com Trump na Câmara dos Representantes. Não creio que qualquer deles venha a ter um papel relevante para a decisão em Novembro”, comenta.

Em 2016, Jill Stein alcançou quase um milhão e meio de votos, mais do que os três anteriores candidatos dos Verdes combinados. Será este um sinal de uma tendência? “Sim e não. Sim, porque o sentimento dominante no eleitorado na última década e meia é o da rejeição dos políticos em Washington. Mas não, porque o que o triunfo de Trump provou é que até alguém como ele, que nunca tinha ocupado um cargo político, optou por tentar a presidência pela via da nomeação de um dos partidos dominantes”, afirma Germano Almeida.

“O sistema está permanentemente em crise, mas não há uma alternativa real a essa bipolaridade. Os pequenos partidos terão sempre um espaço de nicho, sem qualquer hipótese de eleger um Presidente ou ter alguma representação nacional significativa”, acrescenta o especialista, que não quer fazer previsões sobre o vencedor das eleições.

“Fazer previsões eleitorais em duelos presidenciais na América é muito pouco prudente. Diria que até à pandemia quando Trump se tinha livrado do impeachment e tinha feito um início de acordo com a China era favorito para a reeleição. Em poucas semanas, tudo mudou. Os democratas uniram-se em torno de Biden e o coronavírus gerou a maior crise económica em 80 anos. O trunfo da economia que Trump achava que ia ter foi pelo cano abaixo. Tudo passou a estar em aberto”, conclui.