Opinião

Intervir no excesso de peso na infância

O excesso de peso na infância tem uma influência muito marcada no desenvolvimento psicoemocional e na auto-estima, que vão acompanhar a adolescência e a idade adulta.

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i yunmai/Unsplash

A Joana de 10 anos tinha excesso de peso desde os 7 anos, com chamadas de atenção do pediatra e dos professores, os pais na sua boa-fé e muito absorvidos pelas suas profissões, deixaram passar o tempo na esperança de que o crescimento resolvesse o problema. Aos 10 anos a Joana não faz nenhuma actividade física porque diz que não consegue. Tem poucos amigos porque diz que a chamam de ‘gorda’. Não tem vontade de estudar porque está sempre aborrecida e acalma-se comendo. A Joana está em risco, precisa de ser ajudada a sentir-se bem no seu corpo para poder acreditar em si.

O Miguel tem 13 anos e tem excesso de peso, que desde os 8 anos se tem acentuado. Já manifesta cansaço ao esforço e poucos interesses para além da PlayStation. O Miguel vive alternando entre a casa da mãe e a casa do pai, que têm diferentes avaliações da necessidade de mudar o comportamento alimentar e ocupacional do filho. Sem um trabalho conjunto de compromisso e de confiança mútuos, que implique orientações do pediatra, motivação dos pais e muito estímulo para o Miguel, o crescimento e a alegria da adolescência podem ficar comprometidos.

Como é sabido o excesso de peso na infância é um factor de risco para um desenvolvimento saudável, para que se progrida num crescimento equilibrado, para o aparecimento de doenças metabólicas e cardiovasculares precoces e mesmo para a prevenção de certos tipos de cancro, bem como, de doenças crónicas como a diabetes a hipertensão arterial, entre outras.

Mas o excesso de peso na infância tem, também, uma influência muito marcada no desenvolvimento psicoemocional e na auto-estima, que vão acompanhar a adolescência e a idade adulta.

É o corpo no seu todo — físico e emocional, que veicula a formação da personalidade, do auto conceito de valor próprio e individual. É o corpo que facilita as vivências fundamentais de pertença ao grupo de pares, que permite as escolhas interpessoais por afinidades, que permite que a criança ou o adolescente se sintam bem no grupo de amigos, na escola, no desporto, nas vivências de aproximação e identificação com os outros, comparando-se com os da mesma idade e mesmo com os adultos em que se projectam para o futuro.

É sabido que o sentimento de pertença e aceitação nos grupos é fundamental para que a criança se sinta motivada, apreciada e empenhada em atingir os objectivos que se propõe, tanto nas suas competências emocionais e sociais, como na aprendizagem e resultados académicos. Uma criança que não se sente valorizada na sua imagem física, dificilmente se sente motivada para experimentar novos desafios ou para competir para alcançar sucesso.

Mais do que as competências intelectuais, são as competências emocionais e sociais que fazem uma criança feliz e a acreditar no seu sucesso pessoal. O corpo, saudável e emocionalmente equilibrado, é o instrumento por excelência para a procura de uma identidade pessoal e social, que se constrói em primeiro lugar na família e, depois e ao mesmo tempo, nos grupos de amigos, na escola, nas actividades lúdicas e desportivas, no desenvolvimento da criatividade.

Como também sabemos as crianças não têm autonomia para decidir as suas escolhas, cabe aos pais e à família orientar a procura de um caminho próprio para se realizarem e, nesse sentido, as condições para o seu desenvolvimento saudável são também fornecidas na família.

Quando uma criança apresenta excesso de peso, avaliado pelo seu médico que acompanha o desenvolvimento, o trabalho de correcção de hábitos alimentares e a promoção de uma actividade física salutar, deve ser feito numa intervenção em equipa — constituída por médico, pais e criança, retirando a responsabilidade total a esta e transferindo-a para a família que deve ser, sem imposição punitiva, o exemplo de bons hábitos alimentares e cuidados a ter com o corpo.

Independentemente de vivermos em situação de pandemia, não se deve adiar a intervenção perante o excesso de peso de uma criança. As unidades de saúde já retomaram a actividade clínica programa de forma segura e como tal pode procurar orientação junto do médico. Vamos ajudar o Miguel e os pais…Vamos apoiar a Joana... Vamos conseguir que o Miguel e a Joana consigam!

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