Sánchez dá a mão ao Cidadãos para prolongar estado de emergência em Espanha

Acordo entre o executivo espanhol e o partido de Inés Arrimadas poderá pôr em causa a estabilidade governativa, com a Esquerda Republicana da Catalunha a acusar o Governo de dar a mão à direita.

Pedro Sánchez chegou a acordo para prolongar estado de emergência até 7 de Junho
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Pedro Sánchez chegou a acordo para prolongar estado de emergência até 7 de Junho LUSA/BALLESTEROS / POOL

Quando tinha uma derrota quase certa no Parlamento, o executivo liderado por Pedro Sánchez virou-se para o Cidadãos e conseguiu um acordo para prolongar o estado de emergência durante mais duas semanas - até 7 de Junho. É uma meia vitória, pois o que estava inicialmente em cima da mesa era o prolongamento de mais um mês, que chegou a ser aprovado em Conselho de Ministros. Este acordo, contudo, foi recebido com hostilidade pela Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) e, a prazo, poderá colocar em causa a estabilidade da legislatura.

Este acordo excepcional entre Governo e Cidadãos surge depois de as negociações com a ERC, que tem viabilizado a maioria governativa no Parlamento, não terem chegado a bom porto. O alerta já tinha sido dado pelo líder do partido independentista, Oriol Junqueras, que, há duas semanas, numa entrevista a partir da prisão, referiu que o “PSOE deve decidir entre lançar-se para os braços do Cidadãos ou manter a maioria da investidura”.

Esta quarta-feira, perante os deputados, o primeiro-ministro espanhol afirmou que levantar o estado de emergência “seria uma irresponsabilidade extraordinária”. “O estado de emergência beneficiou o conjunto do país, foi eficaz para os territórios. É o único caminho possível para combater o vírus com eficácia”, afirmou. O presidente do Governo espanhol advertiu ainda que “ninguém tem o direito de derrotar o que foi conseguido em conjunto”.

Em resposta, o porta-voz da ERC no Parlamento, Gabriel Rufián, acusou o Governo de dar a mão à direita e colocou em causa o apoio do partido independentista à maioria governativa. “Hoje, não se constata a recusa da ERC ao estado de emergência, mas, uma vez mais, e talvez de forma definitiva, constata-se a recusa do Governo em negociar com a ERC. Elegeram a direita. Nem mais, nem menos”, atirou.

“De que serve votar um estado de emergência sem considerações sociais? Hoje, [Pedro Sánchez] não decepciona um grupo parlamentar, decepciona todo o povo da Catalunha”, reiterou Rufián. O seu partido exige maior autonomia para a Generalitat catalã na gestão da pandemia.

Em resposta, o primeiro-ministro espanhol afirmou que “não está em causa o apoio a um Governo, mas sim dar ferramentas para combater a pandemia”, garantindo que pretende continuar o diálogo com o partido independentista: “Valorizo muito o diálogo com a ERC e pretendo continuá-lo ao longo desta legislatura, que ainda tem quatro anos pela frente.” 

Já o Cidadãos, pelo seu porta-voz parlamentar, Edmundo Bal, manifestou o voto favorável ao estado de emergência apresentado por Pedro Sánchez, revelando que o partido chegou a acordo com o Governo em questões económicas, nomeadamente o agilizar do pagamento das prestações sociais e dos registos temporários de regulamentação do emprego, bem como o aumento de mais um mês na moratória no pagamento de impostos, além da garantia de que o Parlamento estará em funções durante o mês de Julho.

No entanto, Edmundo Bal deixou um aviso a Sánchez, garantindo que o primeiro-ministro espanhol não tem “um novo sócio”: “Já votámos contra, portanto, não se equivoque e não volte a ameaçar os grupos parlamentares, não volte à unilateralidade, não cultive o medo, e cumpra com Espanha.”

Ao dar a mão ao Governo, o Cidadãos visa tornar a ERC irrelevante na votação, diminuindo a influência futura dos independentistas junto do executivo de Pedro Sánchez. “Graças ao papel do Cidadãos não haverá lugar a mais nenhuma mesa de negociações com separatistas para diluir a igualdade entre espanhóis”, referiu o partido de Inés Arrimadas, em comunicado citado pelo El País.

O prolongamento levado a votos esta quarta-feira conta, assim, com os votos dos dois partidos do Governo, PSOE e Unidas Podemos, do Cidadãos e do partido basco PNV e da Coligação Canária. Os partidos independentistas catalães, o Partido Popular e o Vox, de extrema-direita, votam contra e o basco EH Bildu absteve-se.

Segundo os últimos dados da Universidade Johns Hopkins, Espanha regista 232.037 casos confirmados de covid-19, com um total de 27.778 mortos.