Opinião

Não destruam a Lei dos Sefarditas

Nunca acreditei que fosse possível obter a nacionalidade portuguesa. Hoje tenho o cartão de cidadão e o passaporte portugueses e já conheço as pequenas cidades de Portugal, a sua música, a sua cultura e o seu povo. Aqueles rostos... parece que estou em Israel.

Como presidente da OLEI – Organização Latino-Americana, Espanha, Portugal em Israel, recordo-me que, em 2014, a imprensa mundial anunciou a “cidadania espanhola para sefarditas” e considerava que 3,5 milhões de sefarditas apresentariam as suas candidaturas. Rádios, televisões, revistas e dezenas de jornalistas pretenderam falar comigo para obter uma opinião. Espreitei o projecto de lei e disse desde o primeiro momento: o processo é burocrático, intervém um consulado, temos que apresentar dezenas de papéis e certificados, bem como viajar para Espanha, marcar consultas com um notário, fazer exames de cultura e de língua espanhola e, depois de vários meses, talvez receber a cidadania. Uma devolução de um direito não poderia ter um prazo fixado. Não fazia sentido. Disse ao Haaretz que o processo era uma nova inquisição espanhola, com uma diferença, pois quando fomos expulsos de Espanha e de Portugal não realizámos marcações e exames em notários. O judaísmo foi proibido de um dia para o outro e perdemos tudo o que tínhamos. Quem fala sobre o povo judeu, por muito boas intenções que manifeste, não tem condições para avaliar a sua memória colectiva.

A lei portuguesa, regulamentada em 2015, tudo mudou. Essa, sim, pareceu-me logo uma lei justa, dirigida também ela aos judeus de origem ibérica que, depois das expulsões, nas comunidades sefarditas tradicionais, haviam casado entre si, durante muitas gerações, não havendo diferenças entre portugueses e espanhóis. Pela primeira vez fui ao baú das recordações, da minha família de origem ibérica, uns espanhóis, outros portugueses, os Apesoa, os Sequeira, os Costa, os Caballero. Tantas tribulações terão passado para chegar à Turquia! Muitos morreram pelo caminho e só volvidas gerações estabeleceram raízes na Argentina, como dizia a minha avó, Esther Caballero de Segura, que sempre cantava canções em Ladino. Os Caballeros deixaram a sua marca na história de Espanha e Portugal no tempo dos reis absolutos e, mais tarde, o grão rabino Salomon Cavallero foi o líder da comunidade portuguesa de Salónica.

Escrevo estas linhas tendo à minha frente uma coisa muito rara, que poucos sefarditas podem ter: uma árvore genealógica da nossa família, que remonta a 25 gerações atrás. Mas os meus pares, os outros judeus sefarditas, sobretudo os que no século XX foram expulsos dos países árabes e muçulmanos, esses vieram sem nada. Resta-lhes provar donde vieram e quem eram os seus pais, avós e, talvez, bisavós. O holocausto de um milhão de judeus sefarditas árabes nunca é falado e esses são, em grande medida, os judeus de Portugal!

Nunca acreditei que fosse possível obter a nacionalidade portuguesa. Desde o primeiro momento em que iniciei o procedimento na cidade do Porto, explicando rigorosamente a minha genealogia e condição judaica ao rabinato local, senti que iria recuperar um direito que me pertencia. Quando recebi o meu certificado de judaísmo e de sefardismo da Comunidade Judaica do Porto, apresentei o processo na Conservatória dos Registos Centrais. Hoje tenho o cartão de cidadão e o passaporte portugueses e já conheço as pequenas cidades de Portugal, a sua música, a sua cultura e o seu povo.

Aqueles rostos... parece que estou em Israel.

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