Há desinformação em mais de um quarto de vídeos muito vistos no YouTube sobre a pandemia

Os vídeos das autoridades de saúde eram os que estavam mais bem classificados a nível da informação, mas não eram os mais vistos.

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Dado Ruvic/Reuters

Afinal, qual a qualidade da informação de vídeos sobre a pandemia de covid-19 no YouTube? Uma equipa de cientistas decidiu avaliá-la e verificou que mais de um quarto de 69 dos vídeos em inglês mais vistos sobre a pandemia contém desinformação. Num artigo publicado na revista BMJ Global Health, os autores avisam que esta desinformação pode levar a comportamentos prejudiciais na gestão da situação actual. 

Para desvendar a qualidade e rigor da informação dos vídeos no YouTube sobre a pandemia, a equipa procurou os vídeos mais vistos e relevantes a 21 de Março. Depois excluíram-se os vídeos repetidos, os que duravam mais de uma hora ou que não tinham conteúdo áudio ou visual. Também só se escolheram vídeos em inglês.

Ao todo, elegeram-se 69 vídeos que tinham sido vistos por 257 milhões de vezes. Na avaliação da qualidade da informação dos vídeos ou da utilidade do seu conteúdo usaram-se diferentes sistemas de pontuação.

Resultado: 27,5% (19) desses 69 vídeos continham desinformação, isto é, informação incorrecta ou que induz em erro. Na altura em que foi feita a investigação, os 19 vídeos com desinformação já tinham mais de 62 milhões de visualizações.

Desses 19 vídeos, cerca de um terço vinha de notícias de entretenimento e um quarto de televisões e de sites. Nesses vídeos, referia-se que as indústrias farmacêuticas já tinham uma cura e não a queriam vender, que certos países tinham estirpes mais resistentes do coronavírus ou faziam-se recomendações inapropriadas para as pessoas.

Os vídeos das autoridades de saúde e de especialistas eram os que estavam mais bem classificados a nível da informação correcta e da sua utilidade, mas não eram os mais vistos. Num comunicado sobre o trabalho, a equipa sublinha que frequentemente esses vídeos são mais difíceis de compreender e não são tão atractivos para o público em geral.

Quais as soluções?

“Os nossos resultados são preocupantes porque mostram o vasto alcance da desinformação”, diz ao PÚBLICO Heidi Li, investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade de Otava (no Canadá). “Isto tem o potencial de ser perigoso e resultar em comportamentos destrutivos que comprometem o sucesso da gestão colectiva desta pandemia.”

Como exemplo de efeitos negativos, a cientista aponta o açambarcamento de equipamentos de protecção (como máscaras e luvas) ou de outros produtos (como papel higiénico), o que pode causar a escassez desses produtos. Heidi Li exemplifica ainda que esses vídeos podem dar às pessoas conselhos que resultam numa falsa sensação de segurança, nomeadamente que as levem a fazer tratamentos não médicos comprovados ou que comam alho, por exemplo, como medida preventiva.

O que se deve fazer então para enfrentar esta situação? Heidi Li diz que as autoridades de saúde públicas têm de melhorar a sua participação no YouTube para que a sua mensagem seja alcançada. “É importante que os governos encontrem formas inovadoras de aumentar o seu alcance e impacto”, recomenda. “Isto pode ser feito através de vídeos criativos que se tornem virais ou de parcerias com celebridades e outros influencers das redes sociais, que usem a sua fama para espalhar informação de elevada qualidade, credível e comprovada.”

No comunicado, a equipa acrescenta que o YouTube pode ser mesmo uma ferramenta educacional poderosa, mas os profissionais de saúde devem melhorar a sua participação lá. E realça que, muitas vezes, os formatos usados pelas fontes oficiais são estáticos e têm relatórios estatísticos, orientações ou infografias que podem não ser muito atraentes e acessíveis para o público em geral. “A educação e o envolvimento do público é crucial na gestão desta pandemia para que se garanta a sua compreensão e adesão às medidas de saúde pública”, referem.

Heidi Li espera que agora se façam outros estudos e que esta situação continue a ser avaliada.