Cardeal Pell sabia dos abusos sexuais dos padres e nada fez para os travar, diz relatório

O antigo número três do Vaticano limitou-se a adoptar medidas para evitar comentários que prejudicassem a Igreja Católica na Austrália, diz relatório que fala em mais de quatro vítimas ao longo de seis décadas.

Foto
O cardeal George Pell sempre se disse inocente Mark Dadswell/Reuters

O cardeal George Pell, ex-tesoureiro do Vaticano e antigo número um da Igreja Católica na Austrália, sabia dos abusos sexuais cometidos por padres no país e nada fez para os impedir, diz um relatório de 20017 da australiana Royal Commission que foi agora integralmente revelado. O cardeal nega as acusações e a polícia australiana não afasta abrir uma investigação. 

"Estamos convencidos que, em 1973, o cardeal Pell não estava apenas consciente do abuso sexual de menores por parte do clero, mas que também considerou medidas para evitar situações que pudessem provocar comentários sobre o assunto”, diz o documento. 

Em causa estão os abusos sexuais cometidos a centenas de crianças pelo padre Gerald Ridsdale na Arquidiocese de Ballarat durante esses anos. “Estamos convencidos de que em 1973 o padre Pell fechou os olhos ao facto de Ridsdale levar rapazes para campos nocturnos”, continua o relatório. 

Além disso, Pell admitiu, quando foi ouvido pelos investigadores, ter recebido das mãos de uma delegação da paróquia de Doveton, em 1989, uma lista de incidentes de má conduta do padre Peter Searson. Nessa lista estavam relatos de Searson ter abusado de animais em frente de crianças, mas o cardeal disse aos investigadores não ter na altura material suficiente para actuar, para afastar o padre das suas funções, e que a delegação não o pediu. 

O relatório refere 4444 possíveis vítimas de abusos sexuais cometidos por padres australianos e que mais de 15% dos padres de algumas das dioceses da Igreja Católica australiana podem ter sido possíveis abusadores entre 1950 e 2015. Acredita-se que na Ordem dos Irmãos de Santo João até 40% dos sacerdotes tenham cometido abusos. 

Ao longo da década de 1990, o cardeal foi duramente criticado pela sua resposta aos abusos sexuais no seio da instituição, diz a BBC. As suspeitas de abusos tornaram-se tão generalizadas que as autoridades criaram, em 2012, a Royal Commission com o objectivo de as investigar. 

O relatório foi concluído e divulgado em 2017, mas as mais de 100 páginas sobre a conduta do cardeal foram editadas. É que Pell, agora bispo emérito de Sydney, estava na altura a ser julgado por abusos a menores e temia-se que os jurados ficassem condicionados pelas novas suspeitas, interferindo no processo judicial. 

Em 2018, o cardeal foi condenado pelos jurados, “para além de qualquer dúvida razoável”, a seis anos de prisão por abusar sexualmente de dois rapazes, mas pediu recurso. A condenação foi reafirmada e voltou a pedi-lo, desta vez ao Supremo Tribunal de Justiça australiano. E, no mês passado, os juízes anularam a condenação por considerarem que a “prova não estabeleceu culpa com o nível de prova exigido”. 

As acusações contra Pell abalaram a Igreja Católica por todo o mundo por ser o Tesoureiro do Vaticano, o número três na hierarquia mundial, e o número um na hierarquia australiana. O escândalo juntou-se a outros na Alemanha, no Chile, na Polónia nos Estados Unidos, nas Honduras e na República Dominicana nos últimos anos, obrigando o Papa Francisco a pedir perdão às vítimas

O cardeal sempre defendeu a sua inocência e, quando as páginas do relatório foram divulgadas, reagiu em comunicado dizendo-se “surpreendido por algumas das perspectivas da Royal Commission sobre as suas acções”. “São perspectivas sem fundamento em provas”, disse o cardeal, citado pelo Guardian e reafirmando não ter tido conhecimento de abusos sexuais. 

Mas as suas palavras não acalmaram os críticos. “A preferência de Pell em proteger pedófilos acima da segurança das crianças é deplorável. Não há desculpas para alguém que encobre estes comportamentos nojentos perante crianças inocentes”, disse ao diário britânico a advogada Lisa Flynn, representante de um pai de uma das vítimas. “Na minha opinião, a sua posição como o mais elevado representante da Igreja Católica na Austrália deve ser reanalisada com base nesta escolha para proteger pedófilos”.

Há quem peça a abertura de um processo judicial devido ao que é relatado no relatório da Royal Commission e a polícia de Victoria já recebeu uma cópia, não afastando abrir uma investigação.

“No mínimo, deve haver uma investigação criminal”, disse Peter O'Brian, representante de uma das vítimas. “As descobertas são extremamente prejudiciais e sugerem má conduta criminal, não apenas imoral”.