Empresas de media entre o layoff e os apoios que nunca mais chegam

Representantes dos media continuam a ser recebidos em Belém. À saída, as declarações andam entre o recurso (ou não) à dispensa temporária de trabalhadores e as medidas de anunciadas pelo Governo, de compra antecipada de publicidade institucional.

Crise atinge empresas de media
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Crise atinge empresas de media Joana Goncalves

As empresas de comunicação social continuaram esta terça-feira a ser recebidas por Marcelo Rebelo de Sousa, preocupado em conhecer os impactos da pandemia de covid-19 no sector. À saída, as declarações dividiram-se entre os que assumem as dificuldades, mas rejeitam recorrer ao layoff simplificado numa altura em que o trabalho não abrandou e os que exasperam com a demora dos apoios do Estado.

João Amaral, administrador do PÚBLICO, explicou que o jornal tinha “todas as condições” para recorrer ao layoff, mas devido ao serviço que presta ao país, tal “não faria sentido”. “É um pouco estranho haver órgãos de comunicação social a fazerem layoff numa altura destas, repare, há tanta informação para tratar, tantas notícias para dar”, disse, por seu turno, António Carrapatoso, presidente do Conselho de Administração do Observador. Em nome do Grupo Global Media, que tem 538 trabalhadores em layoff, Afonso Camões queixou-se de que os apoios prometidos ainda não chegaram.

João Amaral, que é “chief development officer” da Sonae, falava aos jornalistas no final de uma audiência com o Presidente da República, no segundo dia de encontros de Marcelo Rebelo de Sousa com os líderes dos principais grupos de comunicação social. “Estão reunidas todas as condições para que nós, assim o entendêssemos, pudéssemos recorrer ao layoff simplificado, pela queda de receitas”, afirmou. “No entanto, pelo serviço público que prestamos e o serviço ao país que temos que fazer, decidimos não recorrer" à medida.

“Não faria sentido numa fase em que estamos realmente com mais trabalho”, acrescentou o administrador do PÚBLICO.

João Amaral referiu que neste momento as receitas de publicidade e de vendas de jornais em papel estão “numa queda abrupta, precisamente no mês em que” estavam a festejar o facto de a circulação digital do jornal “ter atingido níveis recorde”. Por isso, “estamos aqui no “amargo-doce” do festejo da circulação”, salientou.

O presidente do conselho de administração do Observador, António Carrapatoso, considerou ser “um pouco estranho” haver órgãos de media em regime de layoff, numa altura em que “há tanta informação para tratar”. Sobre o apoio do Estado aos media, António Carrapatoso foi claro: “A opinião do Observador desde o início foi clara, nós não acreditamos, nem apoiamos muito a figura de subsídios”.

O presidente do Observador On Time salientou que foi proposto ao Governo um programa de empréstimos. “Propusemos ao Governo, na devida altura, existir um programa de empréstimos para os órgãos de comunicação social relacionado com número que esses órgãos têm ou tinham em Fevereiro deste ano e que se comprometiam a manter no futuro”, acrescentou.

Quando chegam os apoios?

O administrador da Global Media Group (GMG) Afonso Camões quis saber quando é que chegam as medidas de anunciadas pelo Governo, de compra antecipada de publicidade institucional, afirmando desconhecer os critérios da sua repartição. “É importante perguntarmos ao Governo quando é que chegam as medidas de apoio que foram anunciadas há semanas”, questionou o administrador da GMG, grupo que detém os títulos Diário de Notícias (DN), Jornal de Notícias (JN), a rádio TSF, Dinheiro Vivo, entre outros, e que entrou em Abril em processo de layoff, medida que abrange 538 trabalhadores.

“Não chegaram ainda, não só não chegaram como não sabemos sequer como é que essas medidas se vão repartir, não sabemos [os critérios], não conhecemos sequer o critério de repartição”, insistiu o administrador.

Afonso Camões disse ter receio que “os critérios de repartição ignorem o facto de uma parte dos portugueses dependerem ainda da informação em papel”. “Somos porventura o único grupo de comunicação social sem dívida e não evitamos essa responsabilidade: sim, temos graves dificuldades de tesouraria”, disse o responsável, referindo as quebras de vendas de jornais e revistas porque deixou de haver publicidade. “Temos dificuldades, mas estamos a preparar-nos e estamos preparados para renascer com mais força depois disto”, asseverou.

Na quinta-feira, 30 de Abril, o Governo aprovou o decreto-lei que estabelece um regime excepcional e temporário para a compra antecipada pelo Estado de publicidade institucional, no montante de 15 milhões de euros, para ajudar os media, no âmbito da pandemia.

A Lusa e a RTP não estão incluídas nesta compra antecipada de publicidade institucional.

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