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Os manifestantes do 1.º de Maio vão ficar de quarentena?

O silêncio teria representado as milhares de vítimas da pandemia, não apenas em contexto de saúde, mas de precariedade, ausência de emprego ou de condições mais justas. E o ruído bem poderia ter sido disseminado através das redes que têm sido a casa de um mundo fechado, mas conectado.

Depois do dia 8 de Março, Madrid mergulhou nas trevas e nunca mais foi a mesma. Naquele dia realizaram-se protestos por todo o território espanhol (e português) numa altura em que já havia casos positivos de covid-19 — que por lá estava a ser encarada como uma gripe má. 

Em Portugal, aquela data também não devia ter sido celebrada, mas para sorte do país as consequências não foram dramáticas. As nossas autoridades de saúde foram competentes ao pressionarem quem manda a fechar atempadamente as escolas e os estabelecimentos uns dias depois dos primeiros casos positivos da doença e do cenário em Espanha se tornar assustador. As manifestações têm consequências e são um chamariz para um vírus altamente infeccioso e cujo índice R0 nos nossos dias é elevado

Este índice indica o número médio de contágios causados por cada pessoa infectada. E o novo coronavírus e todas as suas estirpes, as que conhecemos e as que desconhecemos, não tira férias nem atribui excepções ao que quer que seja. Nenhuma situação tem direito a uma bandeira branca, uma autêntica pausa neste jogo que vivemos e que não podemos controlar, ao contrário do que alguns de forma surpreendente afirmam.

Se até no ar da cidade de Bérgamo já foi detectado este vírus, por que razão não apareceria na manifestação do 1.º de Maio ou em Fátima, terra de Francisco e Jacinta Marto, ambos vítimas da gripe espanhola? Bem sei que algumas pessoas agora temem pela suposta ausência de imunidade de grupo, os mesmos que provavelmente não seriam voluntários para beberem qualquer tipo desta imunização.

Também sei que o 1.º de Maio é um dia especial para o país. Se pensarmos a fundo, por vezes o silêncio manifesta de forma mais profunda aquilo que desejamos evidenciar. Quem se vai esquecer daquele 25 de Abril em tempo de liberdade e pandemia em que apenas um homem desfilou representando todo um país na Avenida da Liberdade? O silêncio teria representado as milhares de vítimas da pandemia, não apenas em contexto de saúde, mas de precariedade, ausência de emprego ou de condições mais justas, homenageando-as. E o ruído bem poderia ter sido disseminado através das redes que têm sido a casa de um mundo fechado, mas conectado pelos milhares de fibra óptica que hoje nos ligam uns aos outros.

Era tudo isto que deveria ter acontecido no 1.º de Maio, respeitando a realidade que tem sido vivida desde o dia zero desta pandemia dentro dos hospitais, das casas, das varandas, dos supermercados e em todos os locais em que os soldados da resiliência lutam para que o país tenha o menor número de baixas possíveis, dia após dia. Não sei como era o tempo anterior à liberdade, mas sei que perdemos a liberdade quando invadimos a do outro, coisa que acontece se formos irresponsáveis em relação à vida humana. E penso que os manifestantes deveriam passar pelos 14 dias de quarentena.

Não entendo como foi possível num país fechado autocarros provenientes de outros concelhos terem chegado à cidade de Lisboa e, sinceramente, nem quero entender, nem apontar o dedo ao que quer que seja. Apenas rezo e desejo para que isto não se repita enquanto o índice R0 estiver nos pícaros. Rezo também a partir de hoje, diariamente, para que a Igreja proteja Fátima e todos os portugueses.

Precisamos de fé, mas é tempo de a virgem desfilar sozinha e nos entrar pela janela mais importante de todas: o nosso coração. Vinda através de um ecrã, a melhor barreira de segurança deste novo tempo. Este ano, não celebramos a Páscoa da forma usual, mas nem por isso a fé deixou de chegar às casas. Onde existiu vontade existiu ousadia e criatividade, situação patente nas situações em que a cruz percorreu concelhos em carros improvisados, uma realidade também ela inesquecível.

E é por tudo isto que é importante e essencial que continuemos a ser um por todos e todos por um, porque a saúde de um continua a ser a saúde de todos nós no mundo inteiro. A pandemia não se foi embora e nós não podemos escolher os momentos em que lhe dizemos adeus, por mais que gostássemos e até necessitemos. Para que nenhum tsunami nos apanhe desprevenidos, a resiliência não pode tirar férias e neste ano absolutamente excepcional é bem possível que também o país não possa tirar férias.

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