Segunda Guerra Mundial e propaganda russa

A Rússia tenta usar o tema da vitória sobre o nazismo com o objetivo de legitimar sua agressão atual contra a Ucrânia. Os apologistas contemporâneos de Stalin no Kremlin tentam copiar o seu ídolo na brutalidade, cinismo e mentiras.

Dentro de alguns dias, a Ucrânia, juntamente com outras nações do mundo, comemorará a vitória sobre o nazismo – a ameaça mais perigosa que a humanidade já enfrentou na sua história moderna.

Prestamos a nossa homenagem aos heróis com a forte condenação do regime totalitário nazi. Começando pela retórica agressiva, pelas referências à “proteção de compatriotas” e pseudo-referendos, este regime acabou por desencadear a guerra mais sangrenta da história da humanidade. Louvamos a imensa contribuição de todos os aliados para a vitória sobre o nazismo.

O povo ucraniano pagou um preço extremamente alto durante a Segunda Guerra Mundial: cerca de oito milhões de ucranianos perderam a vida, 714 cidades ucranianas, 28.000 aldeias, centenas de milhares de instalações industriais e agrícolas, escolas e hospitais foram completamente destruídos.

Note-se que sete milhões de ucranianos participaram nos combates como soldados do Exército Vermelho, metade dos quais foram mortos.

Porém, através de uma ampla variedade de técnicas de propaganda, a Rússia tenta monopolizar a contribuição dos povos da ex-URSS, diminuir o papel dos Aliados na vitória sobre o nazismo e, assim, atribuir a si própria o estatuto de “principal Estado vitorioso”.

É preocupante também que, nas suas abordagens à história da Segunda Guerra Mundial, a Rússia tenha voltado aos tempos de Stalin, negando até mesmo as avaliações e reconhecimentos feitos no final dos anos 80 e 90. Por exemplo, os propagandistas estatais russos justificaram novamente o Pacto Molotov-Ribbentrop.

Mas, sem este pacto, poderia não ter havido o massacre de Katyn, as deportações em massa de ucranianos e polacos, as torturas do NKVD na Ucrânia ocidental, os milhões de vítimas do Holocausto, entre outras tragédias que decorreram da conspiração entre os regimes criminosos da URSS e da Alemanha nazi, assim como a subsequente guerra entre eles.

Além disso, é uma verdadeira blasfémia para a memória das vítimas da Segunda Guerra Mundial que a Rússia tente justificar a sua agressão atual contra a Ucrânia com referências à vitória sobre o nazismo.

Por exemplo, a campanha “Regimento imortal”, que surgiu como uma iniciativa cívica para homenagear os familiares que pereceram na guerra, é agora usada para exibir símbolos e retratos de combatentes das formações armadas ilegais, apoiadas pela Rússia, no Donbas. Em 2019, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia relatou 155 países, incluindo Portugal, abrangidos por esta campanha.

Além disso, a Rússia recorre a provocações ofensivas, tais como passeios de mota transeuropeus dos “lobos da noite” russos, que demonstram explicitamente o seu desrespeito perante a dignidade de outras nações, glorificam a agressão russa exercida contra Estados soberanos e promovem os símbolos das formações armadas ilegais lideradas pela Rússia no Donbas.

Como se vê, a Rússia tenta usar o tema da vitória sobre o nazismo com o objetivo de legitimar sua agressão atual.

Os apologistas contemporâneos de Stalin no Kremlin tentam copiar o seu ídolo na brutalidade, cinismo e mentiras.

Prova disso é a ocupação insidiosa da Crimeia ucraniana, a agressão militar russa no Donbas, que é acompanhada de numerosas mortes de civis, de tortura e assassinato de prisioneiros de guerra e de presos políticos, e de uma campanha suja de desinformação.

Tal como outrora, a Rússia impõe agora ao mundo a sua imagem falsa de “salvadora” e “libertadora”. Tal como outrora os antigos vizinhos da URSS foram alvos da agressão de Moscovo (Polónia, Finlândia, Países Bálticos), são-no agora os atuais vizinhos da Rússia: Ucrânia e Geórgia. O regime russo, tal como antes, está a tentar minar a estabilidade e a segurança internacional, a fim de obter dividendos geopolíticos com caos.

Quaisquer que sejam as paradas e campanhas de propaganda que o Kremlin faça para “embelezar” a ex-URSS e os líderes da Rússia, os crimes de guerra de Moscovo não podem ser ocultados.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico