O regresso da Crimeia à Rússia foi um dia de glória para Putin

Para os países ocidentais, foi um dia negro, em que o Presidente de um dos grandes países do mundo sancionou uma "confiscação de território". Para a Rússia, foi o princípio da cura do trauma do fim da União Soviética.

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Putin deu um comício na Praça Vermelha, em Moscovo, ao fim do dia KIRILL KUDRYAVTSEV/AFP

Ninguém diria que este é o mesmo Presidente alvo de protestos populares em 2012, quando buscava ser eleito para a presidência outra vez, após quatro anos como primeiro-ministro, trocando com Dmitri Medvedev. Desde então, Vladimir Putin procurava uma ideia galvanizadora para a sua presidência e, sublinha a Reuters, parece tê-la encontrado na recuperação da Crimeia para a Rússia, após a revolução na Ucrânia, que levou ao poder um governo provisório não reconhecido por Moscovo.

“No coração e na consciência de todos, a Crimeia sempre foi e continua a ser uma parte inseparável da Rússia”, afirmou Putin, recebido com uma ovação em pé pelos membros das duas câmaras do Parlamento russo (o Conselho da Federação e a Duma). Utilizou um artifício discursivo comum na Rússia, e do qual ele muito tem feito uso ao longo dos seus 14 anos no poder, diz a Reuters: descreveu o colapso da União Soviética em 1991 como um trauma para toda a nação russa.

“Milhões de russos adormeceram num país e acordaram noutro. Parte deles tornaram-se minorias étnicas nas ex-Repúblicas Soviéticas. Hoje, após muitos anos, ouvi muitos habitantes da Crimeia contar como se sentiram passados de mão em mão como sacas de batatas.” O Parlamento deve aprovar a entrada da Crimeia na Federação durante esta semana.

Para Putin, o referendo de domingo decorreu “em total acordo com os procedimentos democráticos e com as normas legais internacionais”, apesar de os líderes ocidentais considerarem que violou “o direito internacional”, como a chanceler alemã Angela Merkel já disse mais do que uma vez. O vice-presidente norte-americano Joe Biden não poupou palavras: “A Rússia alinhou toda uma paleta de argumentos para justificar o que não é mais do que uma confiscação de território”, afirmou, em Varsóvia, onde foi para assegurar o apoio dos EUA aos países da NATO. Ao seu lado, o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, frisou que “a anexação não pode ser aceite pela comunidade internacional.”

Reconhecimentos
“Os passos dados por Putin para tentar anexar a Crimeia à Rússia são uma quebra flagrante da lei internacional e enviam uma mensagem arrepiante a todo o continente europeu”, disse o primeiro-ministro britânico David Cameron. “É inaceitável que a Rússia use a força para alterar fronteiras, tendo por base um referendo fantoche, realizado sob a ameaça das armas russas”, declarou, citado pela BBC.

Terça-feira, os únicos países que tinham reconhecido o referendo da Crimeia eram o Cazaquistão, a Síria, Coreia do Norte, a Mongólia, e a Venezuela. O líder da República Sérvia da Bósnia Herzegovina, Milorad Dodik, que tem resistido fortemente a todos os esforços de um governo centralizador naquele país, também declarou reconhecer os resultados do referendo.

Para explicar o apoio de Dodik, Paddy Ashdown, um político britânico que foi o Alto Representante Internacional para a Bósnia Herzegovina entre 2002 e 2006, disse à Reuters que a Rússia tem encorajado os sentimentos separatistas neste país que continua a ser fortemente apoiado pelo Ocidente desde o fim da guerra de 1992-95. “Alguns políticos bósnios estão a jogar a carta de Moscovo ou a carta eslava, e esta é a mais perigosa de todas, para incentivar políticas separatistas”, disse Ashdown, num seminário da NATO sobre o Sudeste da Europa na capital bósnia, Sarajevo. “Esperam que o referendo ilegal na Crimeia torne mais provável a realização de um referendo aqui na Bósnia. E a Rússia não está a fazer nada para os desencorajar – muito pelo contrário”, afirmou.

A Rússia invoca o que se passou nas guerras dos Balcãs nos anos 1990 de forma irónica. O caso da independência do Kosovo em relação à Sérvia – que não reconhece – é usado por Moscovo para justificar o seu apoio à declaração de independência da Crimeia para logo a seguir pedir a entrada na Federação Russa. “Não se pode chamar à mesma coisa preto hoje e branco amanhã”, afirmou Putin no seu discurso, criticando o “excepcionalismo” ocidental, debaixo de uma tempestade de aplausos.  

Sanções para todos
Os países ocidentais reagiram com preocupação.  “A União Europeia não reconhece a anexação da Crimeira e Sebastopol pela Federação Russa” disse o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy,, num comunicado assinado em conjunto com Durão Barroso.

A Rússia fez a escolha do isolamento”, advertiu o ministro dos Negócios Estrangeiros britânicos, William Hague, que também falou de um G7 onde Moscovo não estaria representado. Anunciou também a suspensão de toda a cooperação militar bilateral entre o Reino Unido e a Rússia.

“Devemos preparar-nos para um novo tipo de relações entre a Rússia e o Ocidente nos próximos anos, diferente do que foi nos últimos 20 anos. Uma relação onde as instituições como o G8 funcionarão sem a Rússia, e em que se reduzirá a cooperação militar e as exportações de material militar”, avisou Hague. O caso da Crimeia foi uma “imensa provocação” de Moscovo” e existe um “risco grave de novas provocações noutros locais da Ucrânia”, considerou o ministro britânico, aludindo ao Leste do país, onde há uma maioria de população russófona.

Barack Obama convidou os dirigentes do G7 e da União Europeia a reunirem-se na próxima semana em Haia, na Holanda, à margem da cimeira de desarmamento nuclear, para considerarem novas respostas à integração da Crimeia na Federação Russa. De acordo com o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, a Rússia foi suspensa do G8, o grupo dos oito países mais industrializados que inclui os Estados Unidos, a Alemanha, o Reino Unido, Canadá, França, Japão e Itália. A Rússia devia ser a anfitriã, em Junho, da próxima cimeira do G8 em Sochi.

 “As sanções até agora impostas à Rússia tanto pelos EUA como pela União Europeia foram ligeiras e centraram-se em políticos, na sua maioria sem interesses fora da Rússia – portanto não são eficazes. A prová-lo, esta quarta-feira, o Parlamento russo aprovou uma moção a pedir a Obama e à UE que alarguem as sanções aprovadas a todos os deputados russos – e não apenas a algum políticos vistos como “ideólogos e arquitectos fundamentais” da política face à Ucrânia.