Torne-se perito

Se houve “excesso de mortalidade” em Portugal, foi de quanto?

Investigadores têm vindo a publicar estimativas sobre o “excesso de mortalidade” no país durante a pandemia.

Morte
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MIGUEL A. LOPES/Lusa

Cientistas portugueses têm vindo a estimar se houve “excesso de mortalidade” em Portugal durante o início da pandemia e o período do confinamento social. Além disso, caso se observe esse excesso, também querem saber de quanto foi. Ainda com dados preliminares, foram publicados alguns estudos que pretendem, sobretudo, lançar a discussão sobre este assunto.

Num artigo publicado esta semana na Acta Médica Portuguesa, a revista científica da Ordem dos Médicos, um grupo de investigadores utilizou bases de dados públicas para estimar o excesso de mortalidade por idade e região entre 1 de Março e 22 de Abril deste ano. Para tal, comparou-se os números deste ano com os de outros anos para o período homólogo, bem como para meses antes do Verão e os meses de Verão (quando a mortalidade é mais baixa e porque têm características semelhantes às do actual confinamento), refere Paulo Jorge Nogueira, estatístico do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Dos vários cenários criados, estima-se que terão ocorrido mais 2400 óbitos, se se tivesse em conta os meses antes do Verão (Abril e Maio), e mais 4000 se se considerasse Agosto. Paulo Jorge Nogueira acrescenta ainda que se tivesse em conta o período homólogo, teriam existido mais 1800 óbitos. Verificou-se ainda que houve um excesso de mortalidade no período de confinamento entre três a cinco vezes mais do que a mortalidade conhecida por covid-19. “Tudo se prefigura para que tenha havido um excesso de mortalidade que ocorreu durante este período de confinamento”, resume o estatístico, acrescentando que estes dados são preliminares e que há uma incerteza inerente.

No artigo, os autores destacam ainda que o excesso de mortalidade está associado a grupos etários mais idosos e sugerem que esse excesso pode ter acontecido devido à covid-19, a covid-19 não identificada e à diminuição do acesso a cuidados de saúde. Paulo Jorge Nogueira diz que o contributo do estudo é o de “lançar a discussão” e chamar à atenção através de diferentes cenários e propostas para o efeito do confinamento. “Neste momento, é demasiado cedo para se saber o que aconteceu. O importante é estarmos preparados caso haja mais lockdowns, estarmos atentos e proporcionar aos idosos, por exemplo, os cuidados de que precisam.”

Numa das conferências diárias da Direcção Geral da Saúde (DGS), o subdirector-geral Diogo Cruz referiu que não sabia qual tinha sido a metodologia usada no estudo na Acta Médica Portuguesa, mas que cada “óbito é um evento único” e não existe possibilidade de duplicações”. E adiantou: “Comparativamente ao quinquénio anterior, de 1 de Janeiro e 25 de Abril [de 2020] temos um incremento de 307 óbitos comparando com os últimos cinco anos.” Paulo Jorge Nogueira salienta que no estudo não referem que morreram exactamente 4000 pessoas: “Estamos a propor cenários para se pensar ‘fora da caixa’ porque esta não é uma situação habitual.”

um estudo realizado por cientistas da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa apontou um excesso de mortalidade de 1255 óbitos entre 16 de Março e 14 de Abril quando comparada com a média diária observada nos dez anos anteriores​​. Refere-se ainda que 49% dos óbitos foram registados como covid-19 e os restantes atribuídos a outras patologias.

“Surpreendentemente, existiu um excesso de mortalidade que não se deveu só à covid, aproximadamente numa proporção de um para um, ou seja, para cada falecido covid houve um novo falecido não covid”, indica Pedro Aguiar, professor em epidemiologia e estatística da Escola Nacional de Saúde Pública. “Talvez seja um exagero da modelação”, mas que tanto este estudo como o anterior, apontou, vão no sentido de que existiu uma “mortalidade extra covid”.

Outros picos de mortalidade

“É curioso que, numa altura em que ninguém anda de automóvel e não há acidentes de trabalho, surja esta mortalidade extra. Tudo aponta que a razão principal tem a ver com o facto de as pessoas evitarem os serviços de saúde, acabando por descompensar os seus problemas, sejam agudos ou crónicos.” Mesmo assim, frisa que podem existir outras hipóteses e que noutros países se tem observado um padrão de excesso de mortalidade consistente. “No entanto, em relação a Portugal, observou-se que o excesso de mortalidade ainda não ultrapassou outros picos de mortalidade noutros anos devido à gripe sazonal.”

Confrontada com estes dados, a directora-geral da Saúde Graça Freitas, citada pela agência Lusa, disse que, considerando o período desde o início do ano até 21 de Abril, o excesso de mortalidade se ficava pelos 439 óbitos em relação à média do mesmo período nos cinco anos anteriores. Portanto, segundo os cálculos da DGS, o excesso não tão elevado.

João Gomes, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, também tem investigado o excesso de mortalidade. Para isso, comparou a média de óbitos para pessoas de mais de 65 anos entre a 11.ª e a 17.ª semana do ano, desde 2014 até 2019. A partir dessa média, foi ver o que aconteceu nessas semanas em 2020, concluindo que houve um excesso de mortalidade sistemático de 2200 óbitos de pessoas com mais de 65 anos. “Poderemos inferir que o excesso de mortalidade se deve ao factor covid-19 e que esse excesso tem um valor superior ao que é reportado oficialmente”, esclarece. “Não estou a dizer que é causado por isto ou por aquilo, mas que temos uma pandemia e pode ser importante para o excesso de mortalidade que está a acontecer.”

Também investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis) têm analisado dados disponíveis e verificaram que houve um excesso de mortalidade em Março.

No site do projecto Euromomo (European Monitoring of Excessive Mortality), que monitoriza a mortalidade em vários países europeus, vê-se, por exemplo, que na 14.ª semana deste ano (de 30 de Março a 5 de Abril) países como a Itália, Espanha, França, Bélgica e Reino Unido tiveram um excesso de mortalidade “extremamente elevado”. No caso de Portugal, houve um excesso de mortalidade “moderado”. Mesmo assim, este valor não ultrapassa os da última semana de 2016 e a primeira de 2017, altura de um grande surto de gripe, em que houve um excesso de mortalidade “muito elevado”. Paulo Jorge Nogueira avisa que mesmo o Euromomo “não está preparado para prever este excesso” em situações excepcionais como as que vivemos.

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