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Reportagem

“Tenho mais medo de andar nos transportes do que no hospital”

A pandemia pôs um país em casa, mas há quem continue a enfrentar os transportes públicos, porque o seu trabalho é essencial ou não pode arriscar ficar sem rendimentos. Uma viagem pelos barcos, comboios e autocarros da Grande Lisboa com quem não pode ficar em casa.

Elsa Pessoa chega muito despachada a barafustar que isto assim não pode continuar. A mulher de 59 anos acende o cigarro e começa a desfiar o rol de queixas que lhe estão atravessadas na garganta: o autocarro que apanhara vinha lotado, as pessoas coladas umas às outras. “Ando assim, a arriscar-me. O sítio em que eu tenho medo é nos transportes.”

Pouco passa das 6h30 e Elsa já apanhara esse autocarro que a levou de casa, na Quinta da Lomba, para a estação fluvial do Barreiro. Dali, apanharia o barco para Lisboa e depois outro autocarro até ao Hospital Egas Moniz, onde é auxiliar no serviço de Imuno-hemoterapia.

“Apesar de trabalhar num hospital, tenho mais medo de andar nos transportes”, atira. “Acho que é o sítio em que estamos mais expostos. No hospital vamos num corredor, encolhe-se uma para aqui, outra para ali. Asseguramos o distanciamento.” No autocarro isso não acontece, diz. “Não há forma de a gente se proteger.”

Vídeo: Uma viagem pelos transportes públicos com a distância social possível

Saem do subúrbio às primeiras horas da manhã para trabalhar na capital. São empregadas de limpeza, auxiliares de hospitais, cozinheiras de escolas, cuidadoras de idosos, trabalhadores da construção civil que o PÚBLICO foi encontrando ao longo de três dias nos transportes públicos da Grande Lisboa. A pandemia veio expor e acentuar as desigualdades entre os que podem ficar em casa, em segurança, e os que precisam de continuar a enfrentar os transportes públicos com “estranhos”, igualmente obrigados a correr esse risco para garantir o seu sustento — e que, não raras vezes, têm hoje uma profissão essencial no combate à doença.

“A gente não pode parar de trabalhar, senão ninguém come”, diz Ana Santana, uma jovem de 29 anos que está sentada no barco com uma viseira que lhe cobre todo o rosto. Deram-lha no supermercado onde trabalha, na freguesia lisboeta da Ajuda. “O barco é muito fechado, mas infelizmente temos de trabalhar. A gente tem de se proteger com o que tem, manter a distância, mas estamos sujeitos a apanhar [a doença]. O que é que uma pessoa pode fazer?”

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“A gente não pode parar de trabalhar, senão ninguém come”, diz Ana Santana, uma jovem de 29 anos que está sentada no barco com uma viseira que lhe cobre todo o rosto

“A gente não pode pensar nisso, senão não vive”

Face à falta de procura, as empresas de transportes foram-se adaptando. Passaram a ter horários de tempo de férias escolares, uma vez que as escolas fecharam. Depois, horários de Verão e têm vindo a ser ajustados, também porque algumas empresas começam a estar em dificuldades financeiras.

Àquela hora da manhã, os autocarros cheios de passageiros que iam chegando à estação fluvial do Barreiro transportavam muitos do que corriam para apanhar o barco. Elsa Pessoa diz que estão a fazer horário de Agosto, o que faz com que os primeiros autocarros da manhã fiquem “lotados”, tornando impossível manter o distanciamento social recomendado pelas autoridades de Saúde. Uma das medidas excepcionais de combate ao surto de covid-19 foi, além de reforçar a limpeza e desinfecção, reduzir a lotação dos transportes a um terço da capacidade. Nos barcos, tal significa que só cerca de 250 pessoas podem passar pelos torniquetes. Atingido esse número, bloqueiam. Aos que ficam cá fora não lhes resta senão esperar pelo próximo.

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Maria da Luz Barruço olha para o relógio, na expectativa de ainda poder entrar. Espera por uma colega para apanharem o barco até à outra margem, onde, por estes dias, têm uma importante missão: assegurar refeições para alunos carenciados, para pessoas em situação de sem-abrigo e outras instituições que deixaram de conseguir dar uma resposta alimentar.

Maria da Luz costuma gerir a cozinha da Escola de S. José, onde serve diariamente 200 refeições. Agora, numa escola maior, serve 1300. Faz este percurso “há muitos anos”, anda com receio, protegida por uma máscara, mas o trabalho precisa de ser feito.

Etelvina Almeida, 52 anos, também não pode parar. Faz limpezas no Palácio da Justiça há cinco anos. Como trabalha em part-time, apenas cinco horas, tem necessidade de ter outro emprego. Fora de pandemias, apanha o barco das 5h20 da manhã para ir limpar um ginásio, antes de seguir para o tribunal. Agora acorda mais tarde, mas às 7h da manhã já está na estação para evitar confusões.

“As pessoas continuam é com a mesma mania de se aglomerarem assim que o barco atraca, como faziam antigamente. Essa parte não mudou”, repara. Receio? “Toda a gente tem receio, mas a gente não pode viver a pensar nisso, senão a gente não vive.”

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O receio, esse, não chega a Jorge Manaça. “De manhã venho sempre a pé. No barco vou sentado no meu lugarzinho sozinho. Deixo a malta sair do barco e espero pelo metro seguinte”, diz este montador de condutas de ar condicionado que está a trabalhar numa obra junto ao Hotel Ritz. “Eu de casa até ao trabalho não toco em nada sem ser meu. Lavo as mãos com mais regularidade.”

A pandemia obrigou a contornar o risco e a planear melhor os trajectos. Da sua casa na Baixa da Banheira, Vítor Nobre costumava apanhar o comboio para a estação fluvial do Barreiro. Agora, pega no carro. “Não acho que o comboio tenha muita segurança. Eles reduziram os transportes e encheram os transportes. Não mantiveram os horários que é o grande mal”, observa este militar da GNR de 46 anos. “Há muita proximidade. Saio do barco e vou a pé, antes ia de metro. Opto por ir a pé.”

“Não beijo os meus filhos há mais de um mês”

Lisboa era, na segunda-feira, o concelho do país com mais casos de infecção pelo vírus SARS-CoV-2 — 1413. As ruas da capital continuam quase desertas, as lojas fechadas, um ou outro café aberto. Mas, segundo relatam os passageiros, há já mais pessoas nos transportes, antecipando o regresso à “normalidade possível”.

Ao mesmo tempo que o país se fechou em casa, as escolas e os estabelecimentos encerraram, nas paragens dos transportes públicos nos subúrbios a vida prossegue com aparente normalidade.

A estação de comboio de Agualva-Cacém, na Linha de Sintra, ao longo da qual vivem milhares de pessoas em torres de betão, começa a ganhar vida por volta das 6h30. Os comboios vão aparecendo à hora marcada nos painéis, mas nem sempre é assim. Os passageiros desta linha são dos que mais se têm queixado da sobrelotação às horas de ponta. “Às vezes suprimem dois ou três e juntam-se mais pessoas”, esclarece Washington Belo.

Este homem de 47 anos trabalha no Curry Cabral, um dos hospitais de referência no combate à pandemia, no serviço de esterilização. Está todos os dias frente a frente com o vírus e, por isso, em casa, as rotinas também se alteraram à custa de algum sacrifício. “Não beijo os meus filhos há mais de um mês.”

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Agora, trocam-se olhares desconfiados, examinam-se assentos e pessoas como se se procurassem sinais deste inimigo invisível. “Eu tenho a máscara, mas a máscara não me protege, protege as outras pessoas. Dentro do hospital tenho mais segurança do que nos transportes”, sentencia Washington.

Geraldo Júnior também pertence ao grupo dos que não puderam parar. “Não parei, até porque eu sou imigrante. Se eu parar, levo bronca.” O homem de 41 anos é pedreiro e está agora numa obra junto ao Rossio. O plano é apanhar o comboio das 7h08, no Cacém, em direcção a Campolide. Antes, tinha apanhado outro autocarro, cujas carreiras ele diz terem diminuído “bastante”. “No começo eu tinha receio, mas agora não. Ando sempre com álcool na bolsa e assim que desço de transporte passo nas mãos”, conta.

Maria Fernanda Silva, de 63 anos, vê-se aflita com a máscara que lhe embacia os óculos. Por isso, dispensa-a nos transportes, mas no trabalho não. É empregada de limpeza numa empresa numa das torres das Amoreiras. Praticamente vazia, agora as casas de banho, os corrimões e os elevadores ocupam-lhe as horas. Não tem grande receio, porque reconhece que as pessoas têm interiorizado as recomendações. “As pessoas têm a diligência de fazer distanciamento social. Nesse sentido, somos civilizados.”. 

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“Até o gato tem de limpar as patas”

Desde que foi introduzido o Navegante Metropolitano, que por 40 euros permite circular livremente pelos 18 municípios da área metropolitana, o número de passageiros crescia. No início do mês, o Governo adiantou que, de Abril a Dezembro de 2019, foram transportados na Grande Lisboa cerca de 477 milhões de passageiros, dos quais mais de 398 milhões utilizaram o passe — um aumento de 18%, relativamente ao período homólogo.

A pandemia acabou por embater nesta estratégia. A Área Metropolitana de Lisboa não sabe quantos passageiros perdeu desde a declaração do estado de emergência. É, aliás, um valor difícil de calcular, uma vez que as validações dos passes foram dispensadas para reduzir contactos.

As quebras serão na ordem dos 80% e algumas empresas estão já em dificuldades. A Rodoviária de Lisboa, que opera nos concelhos de Lisboa, Loures, Odivelas e Vila Franca de Xira, avançou para o regime de layoff parcial para “assegurar a manutenção dos postos de trabalho de todos os colaboradores”. Como consequência, houve uma redução no número de carreiras, com uma oferta “ajustada à procura que existe actualmente”. Foram disponibilizados autocarros maiores, com o intuito de garantir o distanciamento. Mas os passageiros habituais queixam-se.

Lucília Santos aguarda sentada — e irritada — na Gare do Oriente pelo autocarro que a levará de volta a casa na Bobadela. Com a máscara florida posta, protesta. “Estou a queixar-me, porque quero ir para casa e não há meio. Fui fazer compras e vim para aqui às 13h55 e não passou nenhum... e já são quase cinco horas.”

Esta empregada de limpeza de 53 anos tinha acabado o serviço nas casas da capital que costuma limpar. Com a pandemia, o trabalho deixou de ser diário, mas os patrões têm-lhe pago, diz.

Não se tem cruzado com muita gente nos autocarros, mas também só entra neles quando vê que há pouca gente. “Mesmo que a gente se afaste, é chato. Eu também não me encosto a nada nem ponho a mão em lado nenhum. Conforme me sento, fico quieta.” Lucília insiste para que as pessoas usem máscara. Todos os cuidados são poucos. “Até o gato vai à rua e tenho de lhe limpar as patas.”

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Vão entrando para os autocarros homens com calças manchadas de tinta, mulheres com malas e lancheiras ao ombro. Filomena Pereira também espera, aborrecida. Sai de casa, em São João da Talha, antes das cinco da manhã para estar às 6h na porta do Centro de Saúde do Prior Velho. À tarde, tem outro turno, das 18h à 21h. Com a pandemia, sai um pouco mais cedo, mas já são mais de 12 horas fora de casa e quer regressar o mais depressa possível.

“O autocarro vai cheio de pessoas, não tem aquele espaço que pedem para dar. É um em cima do outro”, nota. Para ela, que tem “graves problemas de saúde”, o receio é maior. “Tenho lúpus, tenho diabetes, sou hipertensa. Agora com essa pandemia, é ter o máximo de cuidado.”

Com o fim do estado de emergência e o regresso à normalidade possível, como se vai recuperar a confiança nos transportes públicos e assegurar que são um sítio seguro? O primeiro-ministro, António Costa, já assumiu que a “maior dificuldade logística” a que terá de dar resposta será a higienização mais frequente. O Governo quer ainda encontrar formas de ter “horários desencontrados”, que não crie “horas de ponta muito fortes”, e aumentar a oferta” para haver capacidade para que “todos possam voltar a circular em segurança nos transportes públicos”.

Filomena não se ilude. Apesar da máscara e das luvas, sabe que não pode controlar nada num autocarro lotado. “No autocarro ninguém sabe quem é quem, o autocarro vem cheio, não sei se eu estou infectada, não sei se não estou a andar com pessoas infectadas. É triste isso.”