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Diálogo em tempo de incertezas

Neste momento de grande exigência, devemos dialogar, partilhar experiências e apoiar de forma concreta as necessidades reais desta nossa comunidade lusófona, sobretudo dos mais desfavorecidos nas suas diferentes geografias.

Estamos suspensos. De acordo com a Agência France-Press,  seis em cada dez pessoas em todo o globo estão confinadas. Privados de mobilidade, contacto, proximidade, do dia a dia que é a vida quotidiana e da qual nunca imaginaríamos ter de abdicar.

A infeção por SARS-Cov-2 levanta ainda muitas dúvidas e perguntas a especialistas ou equipas clínicas, bem como o seu resultado, a covid-19, da qual todos nós, o mundo, começa agora a perceber a sua dimensão, impacto social e económico, para além da doença em si mesma e resultados de transformação nos mais diversos sistemas de saúde.

São milhões de pessoas, empresas, projectos com incerteza no amanhã, no que aí virá e nos resultados para os quais ninguém poderá fazer previsões.

A saúde global, que agrega muitas áreas de estudo e interesse, sempre abordou cenários pandémicos, de maior ou menor mortalidade, risco, magnitude e para os diferentes impactos, teoricamente, propôs estratégias de saúde pública. Neste caso concreto, é do conhecimento geral e dos agentes de saúde que as medidas de quarentena, cordões sanitários, regras de etiqueta respiratória, o uso de máscara, distanciamento social, entre outras, são fundamentais e eficazes. Porém, por mais que possamos prever e atuar, a condição social das populações, a economia, o bem estar fisico e mental de todos os indivíduos são determinantes muitas vezes improváveis de definir.

Separados por oceanos e muitos quilómetros de distância, os nossos povos partilham, para além do património da língua comum, história, traços genéticos, bens, partilha de conhecimento em vários sectores e o contacto permanente estabelecido por ligações marítimas e áreas que fazem circular muitos milhões de divisas, mas sobretudo garantem o bem estar de muitos entre nós.

Este é o tempo em que todos os governos estão a cuidar dos seus, envidando esforços múltiplos na aquisição de material e equipamento pelo mundo, na activação de planos de contingência das suas instalações de saúde e no recrutamento extraordinário de profissionais, nunca tão valorizados como hoje.

Este é o tempo em que não devemos esquecer a partilha secular de relações, que potenciam o nosso crescimento e progresso num mundo globalizado. É obrigação dos governos não deixar nenhum dos seus para trás, mas devem estar atentos aos demais que, não sendo nacionais, o são do mundo. Neste momento de grande exigência devemos dialogar, partilhar experiências mais do que nunca e apoiar de forma concreta as necessidades reais desta nossa comunidade lusófona, sobretudo dos mais desfavorecidos nas suas diferentes geografias.

Este é o tempo em que a teia das relações externas que fomos tecendo no espaço da língua portuguesa tem que saber criar dinâmicas que contribuam para soluções diferenciadas para cada um dos nossos países e que comece desde já a preparar projetos de futuro, que tragam esperança às nossas populações e activem as recuperações sanitárias, económicas e sociais que todos aguardamos.

Autores

Francisco Pavão, Gabinete de Diplomacia da Saúde da Ordem dos Médicos
António Martins da Cruz, Embaixador e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros
Elisa Gaspar, Bastonária da Ordem dos Médicos de Angola
Milton Tatia, Presidente da Associação Médica de Moçambique
Agostinho N’Dumba, Bastonário da Ordem dos Médicos da Guiné-Bissau
Jeancarlo Cavalcante, Conselho Federal de Medicina do Brasil
Gilberto Manhiça, Bastonário da Ordem dos Médicos de Moçambique
Delfim Rodrigues, Vice Presidente da APAH e ex-diretor geral da Saúde
Eduardo Neto, Bastonário da Ordem dos Médicos de São Tomé e Príncipe
Danielson Veiga, Bastonário da Ordem dos Médicos de Cabo Verde
José M. Esteves, Presidente da Associação de Médicos de Língua Portuguesa de Macau
Miguel Guimarães, Bastonário da Ordem dos Médicos de Portugal

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

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