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Tempo para pensar o tempo

Ao pôr um travão temporário ao motor da produção e do consumo, a quarentena poderá funcionar como um momento de reconstrução da nossa relação com o tempo.

Segundo a autora australiana Judy Wajcman, os primórdios da sociedade da aceleração surgiram após a Revolução Industrial, devido a três principais factores: a institucionalização do uso do relógio, como resposta à urgência de mercantilizar o tempo; o aparecimento do telégrafo, que permitiu, pela primeira vez na História, dissociar comunicação e transporte, levando a uma alteração da percepção da relação espaço/tempo; a vida caótica na urbe moderna, onde o consumismo se tornou o principal factor de afirmação dos sujeitos que nela vivem. Esta aceleração, intensificada a partir do século XIX, tem vindo a sofrer, nas últimas décadas, um incremento vertiginoso, graças ao desenvolvimento e à massificação das tecnologias digitais.

A nossa relação com o tempo tem experimentado recentemente um abalo sem precedentes na contemporaneidade, motivado pela quarentena que impôs, em todo o mundo, a paralisação da economia e o isolamento de milhares de milhões de cidadãos. Enquanto sujeitos, temos sido mobilizados para a imobilização, que interrompe a correria dos dias “sem tempo”, o turismo frenético, o tráfego aéreo maciço, o trânsito caótico nas cidades, o consumismo desenfreado nos centros comerciais — autênticas catedrais do século XXI, abertas até ao domingo — entre tantas outras actividades representativas da azáfama dos nossos dias. 

Os efeitos ecológicos da quarentena já se fizeram notar: as recentes imagens de satélite mostram-nos uma redução drástica da poluição atmosférica em diversas latitudes, e os dados científicos disponíveis apontam para um abrandamento na delapidação dos recursos naturais. As repercussões positivas obtidas neste curto intervalo de tempo põem em evidência o impacto ambiental devastador do nosso estilo de vida, baseado no extractivismo e no produtivismo, acompanhados pela circulação constante de bens e pessoas.

É fundamental realçar que o processo de “desaceleração” pelo qual temos vindo a passar é conjuntural e não estrutural. Contudo, esta experiência tem sido de tal modo disruptiva que dificilmente a “normalidade” a que tanto ambicionamos regressar será aquela a que estávamos habituados. Arriscamos afirmar que vivemos um momento fundador, a partir do qual se poderão trilhar, essencialmente, dois caminhos. Duas palavras que têm estado na ordem do dia dão-nos, de certo modo, algumas pistas do que poderá surgir. São elas “guerra” e “solidariedade”.

Por um lado, existe o caminho inerente à retórica bélica — o vocábulo “guerra” tem sido perigosamente banalizado nas últimas semanas —, no qual imperam o controlo e o medo. Num contexto em que o contacto social se encontra restringido, o controlo que os media digitais já exerciam sobre os cidadãos assume novas proporções. O regime de teletrabalho permite um domínio mais insidioso sobre os trabalhadores, através da diluição total das fronteiras entre o tempo do lar e o tempo laboral, o espaço íntimo e o espaço profissional. A passagem de (quase) todas as áreas da vida para o âmbito digital impulsiona uma fuga do real, como tão bem sublinha o filósofo Byung-Chul Han. A situação pandémica actual veio fomentar o medo do confronto dos corpos, impossibilitando, em certa medida, o verdadeiro encontro intersubjectivo indispensável à vida humana. O pavor do Outro permite a viabilização perigosa de novos modos de domínio sobre os corpos, que, a serem adoptados, impedirão completamente a verdadeira liberdade de acção.

Por outro lado, existe o caminho da solidariedade. Mais do que nunca, torna-se evidente que o século XXI nos coloca perante problemas globais, cuja solução implica uma união comunitária sólida, que, tal como os problemas que enfrentamos, tem de ser transfronteiriça. Mais do que nunca, urge procurar o entendimento democrático, abrindo o espaço público aos múltiplos lugares de fala que o deveriam povoar. Mais do que nunca, necessitamos de uma abordagem sistémica dos problemas, permitindo alcançar soluções duradouras e não meras soluções de recurso.

O contexto actual é uma oportunidade para pensar uma outra crise, muito mais estrutural e cujas consequências são, potencialmente, bem mais devastadoras: a crise climática. Ao pôr um travão temporário ao motor da produção e do consumo, a quarentena poderá funcionar como um momento de reconstrução da nossa relação com o tempo. O controlo rigoroso da temporalidade serve a lógica do lucro, uma óptica dominadora que a si submete todos os recursos, sendo a grande responsável pela crise climática. Uma real desaceleração da sociedade, bem como uma recusa do tempo-eficiência, é crucial para a sustentabilidade das nossas vidas e do planeta. Para tal, necessitamos de ter como valor primordial a solidariedade e de nos dispormos a refundar os nossos alicerces num tempo novo.

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