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A caminho da pandemia?

O novo coronavírus é apenas uma amostra da grande panóplia de catástrofes que estão por vir com a crise climática. A maneira como lidamos com esta poderá ditar a forma como reagiremos às próximas.

Esta é uma crise à escala global que já matou e continua a matar milhares de pessoas. As suas consequências devastadoras já deixaram milhões na pobreza, criaram crises migratórias e agravaram as desigualdades sociais. Esta é uma crise que continuará a desestabilizar a economia e que expõe com clareza as fraquezas do sistema capitalista em que vivemos. Quando se soube desta crise, a economia não parou e continuou o seu fatal business as usual: o tráfego aéreo continuou a circular; os cruzeiros continuaram a navegar; o turismo continuou explodir; o sector financeiro continuou a investir e a produção continuou a aumentar. 

Referimo-nos, obviamente, à crise climática, crise que, apesar de não abrir noticiários, continua a levar os alunos a faltar às aulas. Referirmo-nos a uma ameaça global que decerto não vai atingir o seu pico em Maio, mas que irá sim intensificar-se como uma bola de neve. Há mais de 18 mil mortes registadas por covid-19 e o mundo parou. Há, segundo a Organização Mundial de Saúde, 4,2 milhões de mortes por ano associadas à poluição pela queima de combustíveis fósseis e a corrida a estes não pára, nem tampouco são tomadas quaisquer medidas de contingência.

Assim, o novo coronavírus é apenas uma amostra da grande panóplia de catástrofes que estão por vir com o advento da crise climática. A maneira como lidamos com esta poderá ditar a forma como reagiremos às próximas. A escolha poderá mesmo ser moral e obriga-nos a repensar o caminho que queremos seguir daqui adiante: queremos investir no sector público ou continuar a ressuscitar o privado? Queremos salvar as pessoas ou as empresas que ameaçam o nosso futuro colectivo? 

Torna-se óbvio que, em tempos de crise, surgem à superfície ideias politicamente perigosas que se apoiam na precarização dos grupos mais frágeis em prol da obtenção de lucro pelas elites. São estas as ideias que levam à flexibilização dos despedimentos, ao reforço do lucro das seguradoras de saúde (como no caso dos EUA), aos despejos na habitação que deixam famílias sem hipótese de quarentena e ao resgate de bancos e empresas privadas, desestabilizadas pelo colapso da economia como a conhecemos. 

Sabemos que ambas as crises, seja a do coronavírus, seja climática, produzem e agravam desigualdades. Todo o terror geral sentido pelo vírus é também real para vários trabalhadores que, apesar disso, não têm o privilégio de poderem ficar seguros em quarentena. O mesmo se passa com as alterações climáticas: quem tem a sorte de se poder proteger contra catástrofes naturais? Quem tem a sorte de ainda não as sentir?

É, agora mais que nunca, óbvia a necessidade de uma revolução económica e social. Seja na saúde, seja no trabalho, seja no clima. Torna-se óbvia a necessidade de utilizarmos este período de reflexão para juntarmos as peças e começarmos a construir aquelas que são as ideias que queremos que se afirmem num futuro dominado pelo caos climático. Precisamos de investir mais no Serviço Nacional de Saúde. Precisamos de uma transição energética justa, criando um sector público que lidere o processo de transição energética; precisamos de gerar centenas de milhares de novos empregos para o clima em Portugal e centenas de milhões de empregos para o clima em todo o mundo, nas áreas da energia, floresta, transportes, edifícios, agricultura e educação.

As emissões têm de continuar a diminuir. Não podemos investir nem mais um cêntimo no financiamento de combustíveis fósseis. Se, de facto, a nova covid-19 provocou um decrescimento inédito nas emissões de gases com efeitos de estufa a nível global, não é menos verdade que este não pode ser o único caminho a seguir: a mitigação das alterações climáticas implica um laço forte com a justiça social, não deixando ninguém para trás. 

Assim, apelamos à união dos sectores da sociedade civil, sindicatos e organizações de cidadãos, bem como de todos os movimentos por justiça social. Torna-se imperativo que a luta ecologista se fortaleça e se descolonize, aliando-se aos movimentos indígenas, feministas, anti-racistas e anti-fascistas, transformando a sociedade para a tornar justa, ecológica e solidária. 

Vamos aprender com esta crise. Existem duas opções em cima da mesa: ou seguimos com as nossas vidas e aceitamos passivamente os cenários assustadores que se avizinham; ou desinfectamos as mãos, arregaçamos as mangas e, com o espírito e a solidariedade colectiva que vemos emergir em  tempos de crise, construímos, em conjunto, um futuro digno para todos e todas, como agora sabemos ser possível.