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Apoio paliativo covid-19: prevenir, curar e também cuidar

Ao objetivo fundamental de limitar a expansão da doença e aumentar a probabilidade de recuperação, temos de acrescentar o de paliar o enorme impacto causado por esta pandemia nas pessoas infetadas,, nas suas famílias e nos profissionais.

Estamos a atravessar uma pandemia que se propaga de forma exponencial, causando uma enorme morbilidade e elevada mortalidade, bem como um grande impacto social e no sistema público de saúde.

Há características específicas da situação das pessoas afetadas. Os sintomas mais frequentes são tosse, febre, cansaço, expectoração e falta de ar. Estes podem evoluir para problemas respiratórios mais graves, com maior dificuldade em respirar, deterioração do estado geral e, nalguns casos, complicações sistémicas como insuficiência renal ou falência multiorgânica, que podem causar a morte em horas ou dias. Os grupos de maior risco são as pessoas com patologias crónicas prévias, especialmente complexas ou avançadas, mais frequentes em pessoas de idade, mas não só.

Além da sintomatologia, temos de ter em consideração que, como em todas as situações de risco vital grave, surgem problemas relacionados com o impacto emocional e a perceção de ameaça, acentuados pela incerteza (o facto de se tratar de uma doença ainda pouco conhecida, o risco incerto, a ausência de tratamento específico e a alta mortalidade nalguns grupos).

A todo este conjunto de respostas emocionais a uma situação de perigo e incerteza, é necessário acrescentar um fator muito relevante, que é o isolamento da família e do círculo social (cuja proximidade oferece um apoio essencial em situações críticas), juntamente com a perceção de risco para todo o núcleo familiar devido à transmissão, com a incerteza acrescentada sobre a sua afetação e, nalguns casos, a culpa de ter sido um possível transmissor.

Outro aspeto importante pouco descrito refere-se ao reduzido contacto dos doentes com os profissionais de saúde, sabendo-se que a proximidade e o contacto físico são comportamentos terapêuticos. A presença de máscaras, luvas e outro material de proteção, e o distanciamento físico são barreiras à comunicação e ao apoio emocional, que se torna ainda mais necessário na ausência física da família.

A esta complexa situação individual de experiência de ameaça intensa temos de acrescentar o contexto em que se encontram os profissionais da saúde e os cuidadores, que não só enfrentam uma enorme pressão assistencial, mas também uma previsível dificuldade em prestar um apoio individualizado. Como gerir com os mesmos recursos um serviço de urgências em que uma percentagem elevada de doentes tem de ser isolada, com medidas estritas? Como atender necessidades num centro residencial para pessoas idosas em que quase todas têm um risco elevado?

Toda esta pressão também afeta os profissionais e muitos deles sentem-se ultrapassados pelas circunstâncias, alguns afetados diretamente e outros com alta necessidade de apoio para enfrentar situações de tamanha complexidade.

Perante esta excecional conjuntura, é evidente que um dos objetivos fundamentais consiste em limitar a expansão da doença e reduzir a mortalidade, aplicando todas as medidas possíveis, como o confinamento e o apoio intensivo orientado para obter a máxima percentagem de recuperações.

Mas, além disso, e por todos os motivos citados anteriormente, também é crucial abordar o apoio paliativo prestado aos doentes e às suas famílias, e o apoio aos profissionais que os atendem. Portugal dispõe de um sistema de cuidados paliativos que, apesar de uma implantação variável, oferece equipas multidisciplinares específicas com enorme competência e compromisso, em hospitais e domicílios, complementadas em regiões-chave que incluem a Madeira e os Açores pelas Equipas de Apoio Psicossocial (EAPS) do Programa Humaniza – Apoio Integral a Pessoas com Doenças Avançadas da Fundação “La Caixa”, com efetividade demonstrada na abordagem das necessidades psicossociais e espirituais dos doentes em situações de alto impacto. As associações de profissionais e organizações de voluntariado estão também a fazer um grande esforço de adaptação, encontrando-se disponíveis em muitos territórios e apresentando experiência na gestão do apoio a diversos tipos de necessidades.

Ao objetivo fundamental de limitar a expansão da doença e aumentar a probabilidade de recuperação, temos de acrescentar o de paliar o enorme impacto causado por esta pandemia nas pessoas infetadas, sobretudo nas que estão em estado mais crítico e isoladas, nas suas famílias e nos profissionais, para proporcionar qualidade, conforto, dignidade e compaixão ao enorme esforço que toda a sociedade realiza nestes difíceis momentos.

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

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