Cuidados paliativos: dez equipas de apoio psicossocial e espiritual recebem um milhão de euros por ano

Com psicólogos e assistentes sociais, as primeiras dez equipas vão poder prestar apoio psicossocial e espiritual a cerca de quatro mil pessoas, estima-se.

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Rui Gaudêncio

Num país como Portugal onde, apesar dos avanços recentes, a cobertura de cuidados paliativos continua a ser muito insuficiente, a fundação bancária “la Caixa” (dona do CaixaBank e do BPI) vai financiar com cerca de um milhão de euros por ano dez equipas de "apoio psicossocial e espiritual" a pessoas com doença avançada ou em fim de vida. Os primeiros dez projectos já foram seleccionados em concurso público, arrancam este ano, e, se os resultados corresponderem às expectativas, manter-se-ão no terreno ao longo de seis anos, até 2023, explica Bárbara Gomes, consultora científica do Humaniza (Programa de Atenção Integral a Pessoas com Doenças Avançadas) desta fundação.

Com psicólogos e assistentes sociais, estas equipas assentam num modelo de intervenção inspirado numa experiência espanhola já com nove anos e vão reforçar aquelas que já existem na rede pública, tanto as que funcionam nos hospitais como as que vão a casa das pessoas (equipas domiciliárias). O objectivo é “melhorar os aspectos emocionais (ansiedade, tristeza, falta de sentido de vida)” dos doentes e seus familiares, e, além de estar prevista a integração de voluntários, também poderão incluir padres.

A ideia é reforçar a componente de apoio psicossocial e espiritual que por vezes é negligenciada em detrimento dos cuidados físicos, porque as equipas domiciliárias que existem em Portugal, além de insuficientes, têm, na maior parte dos casos, psicólogos e assistentes sociais a trabalhar a tempo reduzido, explica.

Dois dos projectos seleccionados pela fundação "la Caixa" (de que é curador Artur Santos Silva) foram apresentados por instituições do sector social – a Santa Casa da Misericórdia do Porto e o Instituto São João de Deus (Lisboa). Foram ainda escolhidos projectos da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo, do IPO de Coimbra, do Centro Hospitalar Universitário do Algarve, do Centro Hospitalar de Lisboa Norte e das unidades locais de saúde da Guarda e do Nordeste. A Madeira e os Açores têm igualmente uma equipa deste género.

Mas os planos da fundação para Portugal são bem mais abrangentes. O objectivo é ir aumentando o número de equipas deste tipo ao longo dos próximos seis anos, com uma forte monitorização da sua evolução e sempre apostando na formação dos seus profissionais, acentua Bárbara Gomes.

Em Espanha esta fundação já financia 42 equipas e apoia mais de 20 mil doentes por ano.

As dez equipas que agora arrancam em Portugal chegarão a cerca de quatro mil pessoas, estima-se, mas vão ser abertos novos concursos nos próximos anos.

Ao mesmo tempo, serão lançados concursos para apoiar associações de doentes, profissionais e voluntários e também para ajudar à multiplicação das equipas de apoio domiciliário da rede pública – que são menos de três dezenas em todo o país. 

O programa contempla ainda o apoio à qualificação profissional de médicos de cuidados paliativos (dez bolsas), a constituição de uma rede de três centros de referência nesta área e a criação de espaços “la Caixa” em ambiente hospitalar. Estes serão espaços partilhados mas onde os doentes e os seus familiares podem ter privacidade. 

Todas estas iniciativas que vão avançar de forma gradual e sustentada. Haverá também projectos experimentais de um ano mais circunscritos e dedicados a grupos vulneráveis, como pessoas com demência, com doenças neurológicas, crianças, idosos. A fundação vai também alargar os prémios la Caixa/BPI a organizações não governamentais que trabalhem nesta área.

Em Portugal, a presidente da Comissão Nacional de Cuidados Paliativos, Edna Gonçalves, já admitiu que será "quase impossível" conseguir atingir a meta delineada para este ano – ter um total de 52 equipas domiciliárias, uma por cada agrupamento de centros de saúde. Nos hospitais, a situação está a melhorar. Esta semana foi inaugurada a Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital São João, no Porto, com 12 camas para doentes mais complexos e um aumento dos profissionais dedicados ao serviço.