Mais de 200 empresas de têxtil disponíveis para produzir máscaras em Portugal

Centro Tecnológico das Indústrias do Têxtil e do Vestuário (Citeve) desafiou as empresas do sector a produzirem equipamentos de protecção individual para dar resposta à escassez perante a pandemia de covid-19.

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O Citeve desenvolveu manuais técnicos para a produção de equipamentos de acordo com as normas de segurança,O Citeve desenvolveu manuais técnicos para a produção de equipamentos de acordo com as normas de segurança paulo pimenta,paulo pimenta

Mais de 200 empresas do sector têxtil e do vestuário em Portugal mostraram-se já disponíveis para ajudar na produção de máscaras e equipamentos de protecção individual (EPI), depois de o Centro Tecnológico das Indústrias do Têxtil e do Vestuário (Citeve) ter lançado o desafio e disponibilizado apoio para que a indústria possa reorientar as suas linhas de produção de forma a dar resposta à escassez destes equipamentos essenciais no combate ao novo coronavírus.

Nas últimas décadas, assistiu-se a uma “deslocalização maciça” da produção de bens de baixo valor (como máscaras) para a Ásia, mas a pandemia de covid-19 exige agora uma mudança de paradigma, começa por dizer ao PÚBLICO António Braz Costa, director-geral do Citeve

Apesar de existir já alguma produção de máscaras em Portugal, esta era “completamente insuficiente para as necessidades” actuais, nota o director-geral do Citeve, salientando que, antes do início desta crise, as máscaras custavam cerca de três cêntimos e que os preços actualmente estão muito inflacionados.

Foi então que a escassez e a dependência de países como a China levou o Citeve a investigar que materiais produzidos em Portugal poderiam ser utilizados e a desafiar as empresas de confecção. Mais de 200 empresas mostraram-se já “dispostas a alterar as suas linhas de produção para produzir estes equipamentos”, diz António Braz Costa, o que levou o centro tecnológico a desenvolver manuais técnicos para que os equipamentos sejam produzidos de acordo com as normas e regulamentação em vigor. O Citeve reorientou ainda os seus laboratórios e criou uma equipa específica dedicada às “soluções covid-19”.

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Centro Tecnológico das Indústrias do Têxtil e do Vestuário (Citeve), em Vila Nova de Famalicão Pedro Granadeiro

Esta organização privada sem fins lucrativos, com sede em Vila Nova de Famalicão, dispõe de “um laboratório acreditado” que testa os materiais e a capacidade de protecção dos equipamentos e é reconhecida pelo Infarmed como uma “entidade que faz a avaliação e certificação dos produtos antes de serem colocados no mercado”.

Requisitos de uma máscara de protecção

Além de máscaras cirúrgicas descartáveis (que já estão a ser produzidas por, pelo menos, “três ou quatro empresas” em Portugal), o objectivo passou por procurar soluções que permitam aos cidadãos utilizar máscaras no contexto da sua vida particular ou profissional. “Cremos que a solução ideal será uma máscara de múltiplas utilizações”, explica António Braz Costa.

A “grande preocupação” do Citeve prende-se com o nível de protecção e segurança e com as características funcionais das máscaras. “Têm de proteger quem as utiliza e as pessoas que estão à volta”, nota Braz Costa. “Já fomos confrontados com situações de utilização de materiais completamente inadequados”, diz, dando o exemplo de “pessoas que fizeram máscaras com material impermeável”. “O material impermeável não é permeável ao ar e, portanto, não tem o efeito de filtração. Só tem o efeito de deflexão do ar, que em vez de ser inspirado através da máscara é inspirado pelos lados da máscara e, portanto, é como se a máscara lá não estivesse.”

Mas, afinal, quais os requisitos que a máscara deve ter? “Tem de ter capacidade de retenção de partículas. Os vírus são umas coisinhas muito pequeninas, muito mais pequenos do que as bactérias, e a capacidade de filtração não pode ser descurada. A outra característica fundamental é a respirabilidade. Uma máscara para funcionar tem de se deixar atravessar pelo ar e deve permitir conforto respiratório”, nota o director-geral do Citeve.

Quanto aos materiais, “não podem obviamente apresentar toxicidade”, sendo os mais adequados para a produção destas máscaras, segundo Braz Costa, os chamados tecidos não tecidos (TNT) — têxtil produzido a partir de polipropileno sem a necessidade de fazer tecelagem —, tendo em atenção a sua tipologia e adaptabilidade.

Ainda assim, o Citeve procurou alternativas, nomeadamente para as máscaras não descartáveis, “com estruturas têxteis um pouco mais resistentes”, sendo que, nas últimas duas semanas, avaliou cerca de 200 materiais diferentes. “Fomos à procura das malhas e dos tecidos que oferecessem o grau de protecção necessário”, afirma o director-geral, que garante terem sido encontradas “soluções com a função de protecção que se pretende, mas feitas com materiais que podem ir à máquina de lavar, a 60 ou 90 graus, e ter uma vida útil de várias lavagens”.

Antecipar a capacidade de produção

Embora destaque que as indicações das autoridades de saúde não apontam, até ao momento, para um uso generalizado das máscaras, António Braz Costa sublinha que é necessário “trabalhar em antecipação, de forma profiláctica,” para que a indústria esteja preparada para produzir máscaras em grandes quantidades.

“Vamos imaginar que 25% das pessoas neste país têm obrigatoriamente de ir à rua todos os dias e têm de utilizar máscara. Isto significa que tínhamos que ter uma capacidade de produção em Portugal de, no mínimo, 2,5 milhões de máscaras por dia e esse é um número que é muito difícil de atingir”, explica Braz Costa, dizendo que a esses números que se somam às necessidades dos profissionais de saúde.

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Centro Tecnológico das Indústrias do Têxtil e do Vestuário (Citeve), em Vila Nova de Famalicão Pedro granadeiro

“Sendo possível, o mais prudente é encontrar materiais reutilizáveis que possam ser utilizados num contexto de protecção adicional, sem pôr de parte o distanciamento social”, conclui.

Caberá agora às empresas definir o preço das máscaras, dependendo “da negociação que fizerem com o Ministério da Saúde e com os seus clientes”. Quanto à sua distribuição, o director-geral do Citeve nota que “a venda nos supermercados e nas farmácias é algo que pode acontecer, assim como a distribuição aos cidadãos a partir de entidades públicas como câmaras municipais”, mas que não cabe ao centro tecnológico decidir.

António Braz Costa salienta que todas empresas que “tiverem os meios necessários e acesso a matéria-prima” poderão produzir estas máscaras, mas lembra que é também necessário produzir outros equipamentos como batas cirúrgicas, cobre-botas, cógulas, manguitos e perneiras. “Esta é simultaneamente uma forma de resolver o problema das necessidades do SNS e dos cidadãos dentro de portas, mas também uma oportunidade para as empresas”, diz, sublinhando a possibilidade de eventualmente se exportarem estes produtos.

“Inúmeras” entidades contactaram o centro tecnológico no sentido de produzir estes equipamentos para oferecer, mas o director-geral do Citeve defende que “quando se trata de muitos milhões de peças, este é um serviço que deve ser adquirido às empresas”.

O Citeve aguarda ainda informação sobre a capacidade produtiva das empresas. Porém, Braz Costa não tem dúvidas: “Em caso de necessidade, não haverá grande dificuldade em recrutar mais empresas para produzir em grandes quantidades” em Portugal.

Voluntarismo e oportunidade de negócio

O director-geral do Citeve destaca o voluntarismo das empresas “de se transformarem para poderem acudir”, mas nota que, após o fecho das lojas de roupa, esta é uma oportunidade de negócio para a indústria nacional.

A conclusão é uma: A Europa vai perceber que a noção de reserva estratégica nacional ou europeia não se deve confinar a um conjunto de produtos ou serviços, como tem acontecido tradicionalmente. E Portugal tem tudo para se posicionar nesse contexto e garantir negócio para as nossas empresas. Há aqui oportunidades que devemos aproveitar, até porque Portugal ainda não perdeu a tradição industrial, ao contrário dos países do Centro da Europa”, destaca, em linha com as declarações do primeiro-ministro durante uma visita recente às instalações do Citeve.

Mas não só. Para Braz Costa, “no futuro, Portugal pode ser um actor importante dentro do contexto da moda de protecção individual”. Até porque a própria moda vai mudar: “Porventura vamos utilizar mais antibacterianos ou antivíricos no vestuário” e as colecções de moda poderão vir a incluir máscaras, tal como incluem sapatos.”