Estudo da Universidade do Minho

Saúde mental: “A incerteza quanto ao fim do isolamento é um claríssimo factor de risco”

Investigadores da Universidade do Minho lançam estudo para avaliar os efeitos psicológicos das medidas de isolamento social. Equipa do King’s College alerta que conhecer o fim da quarentena diminui risco.

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“No último mês, com que frequência se sentiu nervoso e em stress? E furioso por coisas que ultrapassaram o seu controlo?” — estas são algumas das centenas de perguntas a que têm de responder os participantes no inquérito da Escola de Medicina da Universidade do Minho que procura conhecer as consequências psicológicas do isolamento social imposto pela pandemia de covid-19 na saúde mental dos portugueses.

Os oito investigadores do estudo que está a ser desenvolvido no Instituto de Ciências da Vida e Saúde da Universidade do Minho, em Braga, querem igualmente saber se estas situações se aplicaram algumas vezes na semana anterior ao inquérito: “Tive dificuldades em me acalmar; sentia a minha boca seca; não consegui sentir nenhum sentimento positivo.” Ou, então, nas duas últimas semanas: “Tive dificuldade em concentrar-me nas coisas, como ao ler o jornal ou ver televisão; tive falta ou excesso de apetite; senti desânimo, desalento ou falta de esperança; tenho guardado tantas coisas que até me estorvam.”

O psiquiatra Pedro Morgado, da Universidade do Minho, explica que fenómenos como a pandemia e as medidas de isolamento social e de quarentena decretadas pelo estado de emergência, que foram agora prolongadas, “são novos e altamente complexos, pelo que perceber a forma como a sociedade e cada pessoa está a reagir é muito relevante”.

Esta equipa composta por psicólogos, psiquiatras e neurocientistas vai acompanhar as pessoas durante todo o período da pandemia, sejam semanas ou meses, explica o investigador, acrescentando que esse tempo indeterminado foi aprovado pela comissão de ética da Universidade do Minho.

Sobre os resultados de um estudo britânico que se debruça exactamente sobre a necessidade de reduzir os efeitos negativos das quarentenas, recentemente publicado na revista The Lancet, Pedro Morgado concorda que é importante as pessoas conseguirem prever quando a situação de isolamento social vai acabar: “A incerteza quanto ao fim do isolamento é um factor claríssimo de risco para a saúde mental. Uma das coisas a que recorremos para utilizarmos os recursos que as pessoas têm para lidar com a adversidade é precisamente usar a baliza temporal. O facto de a baliza ser desconhecida e incerta é um factor de risco acrescido.”

Em Portugal, as medidas do estado de emergência, iniciadas a 19 de Março e agora prolongadas, prevêem, basicamente, o dever de “recolhimento domiciliário” (isolamento social preventivo) para a população em geral e de “confinamento obrigatório” (quarentena) para doentes e pessoas infectadas pelo coronavírus, bem como para os suspeitos de contaminação. As medidas de isolamento social que se aplicam a toda a população têm inúmeras excepções, como a que permite saídas curtas para a realização de actividade física. Com uma duração prevista de mais duas semanas, apertou as regras já decretadas, principalmente em relação ao período da Páscoa.

“Os conceitos de isolamento social e de quarentena não são facilmente distinguidos [pela população]. Neste momento, encontramo-nos em isolamento social preventivo, dado que é pedido que permaneçamos em casa durante todo o tempo possível, saindo apenas para tarefas imprescindíveis (como ir ao supermercado ou farmácia ou para cuidados de saúde)”, afirma o líder da equipa, juntamente com Maria Picó Pérez. Já a quarentena, acrescenta, “é uma forma de isolamento social obrigatório em que devemos cumprir rigorosamente o isolamento e pedir ajuda a terceiros para suprir as necessidades básicas”.

Situação inédita

Pedro Morgado não conhece outra situação de isolamento social generalizado na história contemporânea de Portugal. “Daí a urgência de estes estudos serem feitos, porque estamos a viver um momento excepcional e que desejamos que seja único nas nossas vidas. A realidade em Portugal não é muito diferente do que se passa noutros sítios em termos de medidas de confinamento. A Espanha está a adoptar uma política muito semelhante, com ligeiras diferenças que não vale a pena escalpelizar.” 

Até agora, o estudo já recrutou mais de 1600 pessoas, mas vai continuar em aberto durante o período da pandemia. “Nós avaliamos sempre as pessoas semanalmente à medida que elas se juntam ao estudo. Todas as semanas há perguntas que se repetem e perguntas que são novas.”

O que varia neste estudo em que qualquer pessoa que viva em Portugal e Espanha pode participar são as “escalas” aplicadas, mantendo-se as perguntas que recolhem dados biográficos, de saúde e avaliam condições de vida — estas últimas procuram saber, por exemplo, se a nossa casa tem jardim, espaço verde exterior, varanda, terraço ou pátio. Os investigadores querem igualmente perceber se continuamos a trabalhar presencialmente, estamos em teletrabalho, recebemos aulas online ou se perdemos o emprego por causa da covid-19.

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As “escalas” são instrumentos de avaliação psicológica validados porque incluem perguntas que já foram feitas em estudos anteriores e permitem comparar resultados. Há uma escala que procura sintomas de stress, depressão e ansiedade, outra que avalia o stress percebido e ainda aquela que identifica sintomas obsessivo-compulsivos: “Nesta última, perguntamos, entre 18 questões, se a pessoa tem números mágicos, se costuma arrumar as coisas de uma determinada maneira, se fica nervosa quando não lava as mãos.”

Pedro Morgado diz que é expectável que aumentem os níveis de ansiedade e stress, bem como o risco de depressão: “Quanto aos sintomas obsessivo-compulsivos, também se espera que possa haver um aumento expressivo em algumas pessoas que já tinham alguns sintomas subclínicos e também um agravamento de algumas formas de doença obsessivo-compulsiva. É preciso olhar também com muita atenção para as dependências, nomeadamente as dependências de álcool, jogo e Internet, que terão uma maior propensão ao agravamento nesta fase de isolamento social.” Em Espanha, segundo o El País, o Governo decretou esta última semana medidas de urgência para proibir anúncios ao jogo online.

Avaliações catastróficas

Com 43% da população global aconselhada ou obrigada a ficar em casa, um dado inédito em tempos de paz, o estudo do King’s College liderado por Samantha Brooks sobre o impacto psicológico de várias quarentenas conclui que esta medida deve ser tão curta quanto possível: “Para as pessoas que já estão em quarentena, uma extensão, não importa quão pequena seja, é provável que exacerbe qualquer sentimento de frustração ou de desmoralização. Impor um cordão indefinidamente em cidades inteiras sem um limite temporal claro, como aconteceu em Wuhan (China), pode ser mais prejudicial do que aplicar procedimentos de quarentena limitados ao período de incubação.”

O artigo do The Lancet lembra que já havia antecedentes de quarentenas urbanas com alguma dimensão, como as impostas na China e no Canadá em 2003 durante a crise da SARS, também provocadas por um coronavírus, ou em aldeias inteiras em muitos países da África Ocidental durante o surto de ébola em 2014, mas nada semelhante ao que estamos a ver agora e que as medidas actuais devem ser tomadas com base em provas científicas. 

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As medidas de isolamento social que se aplicam a toda a população portuguesa têm inúmeras excepções, como a que permite saídas curtas para a realização de actividade física Nuno Ferreira Santos

Assinado por sete investigadores do Departamento de Psicologia Médica do King’s, publicado no final de Fevereiro, faz uma revisão de 3166 estudos já publicados sobre o assunto, concluindo que 24 deles tinham dados relevantes sobre o impacto psicológico da quarentena e de como reduzi-lo. Abrangem dez países e incluem pessoas com SARS, ébola, gripe A, MERS e gripe equina. Nenhum identifica um período de quarentena com uma duração superior a 21 dias: “Os benefícios potenciais de uma quarentena em massa que é imposta têm que ser pesados com cuidado perante possíveis custos psicológicos. O uso com sucesso da quarentena como uma medida de saúde pública requer que tentemos reduzir ao máximo os efeitos negativos associados”, escrevem os investigadores britânicos na The Lancet. 

A súmula dos 24 estudos sugere que o impacto psicológico de uma quarentena “é abrangente, substancial e pode ser duradouro” e a maioria dos 24 estudos analisados reportam “efeitos psicológicos negativos que incluem sintomas de stress pós-traumático, confusão e raiva”.

Os investigadores chamam a atenção para que as conclusões só poderem ser aplicadas “com cautela” a processos de confinamento mais amplos como aquele que abrange cidades inteiras. Entre os 24 estudos analisados, a maior amostra incluiu 6000 pessoas isoladas na Coreia do Sul por causa do MERS. Há apenas um estudo realizado na Europa, na Suécia, com profissionais de saúde e os seus contactos mais próximos que estiveram em África por causa do ébola, envolvendo 12 pessoas.

Ao considerar a quarentena “essencial”, as autoridades “devem garantir que esta experiência é tão tolerável quanto possível para as pessoas”, alerta estudo. Outra mensagem-chave é que a informação é essencial para que as pessoas entendam o sacrifício, devendo “os responsáveis pela saúde pública enfatizar a escolha altruísta do auto-isolamento”: “A quarentena voluntária está associada a menos stress e menos complicações a longo prazo.” Muitas das pessoas em isolamento “fazem avaliações catastróficas de quaisquer sintomas experimentados”.

Depois de terminada a quarenta, alguns participantes num estudo canadiano que envolveu 1057 pessoas em contacto potencial com o vírus da SARS continuaram a revelar nas semanas seguintes comportamentos associados ao isolamento, com 54% a evitarem pessoas com tosse, 26% a evitarem espaços fechados cheios e 21% todos os espaços públicos. Já outro estudo que envolveu 333 enfermeiras canadianas expostas ao SARS mostra que a quarentena esteve positivamente associada a não ter de ir trabalhar e a um menor contacto com doentes.

Finalmente, a revisão do King’s College nunca sugere que as medidas de quarentena não deve sejam usadas, antes pelo contrário, “porque os efeitos psicológicos de não a usar e permitir que a doença se espalhe podem ser piores”.

Uma comunicação consistente, transparente e aberta é o que aconselha Samantha Brooks, numa entrevista à revista Wired: “Um factor enorme no impacto psicológico negativo parece ser a confusão sobre o que se passa, não ter orientações claras ou receber mensagens diferentes de diversas entidades.”

Positivo, nota o psiquiatra português, é o facto de a população actualmente não se encontrar toda em quarentena obrigatória: “Estamos numa situação que, apesar de tudo, protege a saúde mental das pessoas, ao permitir que elas possam sair para deslocações indispensáveis à sua sobrevivência.” Também atenua os factores de risco termos a certeza de que esta situação há-de terminar, apesar de não sabermos quando: “É um factor que nos traz alguma esperança. Um regresso à normalidade há-de acontecer nas próximas semanas ou meses. Isto tem que ser salientado como um factor bom.”

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