A “camioneta do dinheiro” chega vazia ao Minho

Viver com pouco dinheiro não é uma novidade para o Instituto de Ciências da Vida e da Saúde, da Universidade do Minho, um dos quatro laboratórios visitados pelo PÚBLICO no âmbito deste dossier dedicado à ciência. Mas as restrições impostas pela crise vão ter repercussões no médio prazo.

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Nuno Sousa e Jorge Pedrosa, do Instituto de Ciências da Vida e da Saúde, da Universidade do Minho Bárbara Raquel Moreira

Saltam à vista as bandeiras do Líbano, Israel e Irão. Estão bem próximas. Noutro contexto, podia ser uma vizinhança tensa, mas esta é a entrada do Instituto de Ciências da Vida e da Saúde (ICVS), em Braga. Aqui o combate é o do conhecimento. Os símbolos de mais de 15 países anunciam as nacionalidades dos investigadores que ali trabalham.

Do Irão, por exemplo, chegou há dois anos uma aluna de doutoramento que “já fala português perfeito”, conta, sorridente, Nuno Sousa. “Gosta tanto disto que já trouxe os dois irmãos para estudar no país”, acrescenta o director da licenciatura de Medicina da Universidade do Minho (UM) e um dos principais cientistas daquele laboratório.

Naquele edifício trabalham 70 investigadores doutorados, quase 100 estudantes de doutoramento e 30 estudantes de mestrado. Contabilizando o pessoal técnico e os bolseiros de investigação, o universo ascende a quase 250 pessoas. Sendo um laboratório jovem, criado em 2003, o ICVS estava habituado a viver tempos de crescimento constante. Mas os últimos anos foram de travagem a fundo. Não nos resultados, mas na capacidade de investimento.

O orçamento da instituição diminuiu, sobretudo por via da redução da dotação da universidade e do menor investimento público. “Hoje estamos a fazer uma gestão de manutenção”, diz Nuno Sousa. Sem possibilidade de investir em grandes equipamentos, tenta-se, pelo menos, “não diminuir o número de pessoas, a quantidade de dinheiro colocada em reagentes e as idas a congresso internacionais”, acrescenta Jorge Pedrosa, director do ICVS.

No instituto estão em execução neste momento projectos cujo orçamento ascende a 10 milhões de euros, nos três domínios de investigação privilegiados pelo centro de investigação: microbiologia e infecções, ciências cirúrgicas e neurociências. Foi dali que saiu, por exemplo, o dispositivo – em processo de patenteação internacionalmente – que vai permitir medir indicadores de saúde em tempo real.

O horizonte é brilhante, mas a realidade mais imediata é escura. A quebra do ciclo de crescimento “terá consequências a médio prazo”, estima Jorge Pedrosa. A ciência é uma “corrida de fundo” e se, no último ano, os investigadores do ICVS foram capazes de produzir 138 artigos (com um índice de impacto médio de 5,1), é porque muitos deles puderam começar as respectivas experiências de laboratório quatro ou cinco anos antes, defende. O corte feito nos últimos anos começará a ter consequências dentro de dois ou três.

Todavia, viver com pouco dinheiro público não é uma realidade nova para o ICVS. Desde 2011 que o instituto fez um consórcio com o 3B’s, outra unidade de investigação da UM, com sede em Guimarães, que estuda biomateriais, materiais biodegradáveis e biomiméticos. Entre os 26 laboratórios associados a nível nacional, o ICVS-3B’s é aquele que consegue alcançar uma maior percentagem de investimento externo face ao investimento da FCT. Quase 90% do dinheiro vem de outras fontes, sobretudo projectos internacionais.

“A camioneta do dinheiro é carregada em Lisboa em direcção ao norte. Esquecem-se de carregar 75% logo à partida, depois deitam fora uns sacos em Coimbra e param no Porto. O país acabou ali. E o dinheiro já quase não chega ao Minho”, ilustra Nuno Sousa. Mesmo assim, por cada euro dos 450 mil investidos pela FCT, o laboratório ICVS-3B’s consegue ir buscar fora mais seis – ou seja, capta 2,7 milhões de euros por ano. “Só isso nos tem permitido resistir.”
 
 
 
 
 
 
 

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