Cal Lockwood, no seu estúdio de rádio, numa fotografia retirada do seu Instagram
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Cal Lockwood, no seu estúdio de rádio, numa fotografia retirada do seu Instagram DR

Nem Nuno Markl sabe quem é o radialista no Pólo Norte que tornou viral

Rádio de jazz e blues tornou-se viral em Portugal quando Nuno Markl a mencionou num directo no Instagram de Bruno Nogueira. O radialista, um americano chamado Cal Lockwood, já aumentou a capacidade dos servidores para responder à enchente e até passa Amália. Mas pouco se sabe sobre ele.

Foi na terça-feira à noite que Nuno Markl teceu elogios à rádio Arctic Outpost na rubrica Como é que o Bicho Mexe? que Bruno Nogueira tem dinamizado em directo no Instagram. Estava o palco montado e a rádio, na Noruega, disparou em seguidores, em pleno surto do novo coronavírus. Tudo para grande surpresa do radialista americano Cal Lockwood, que alimentava discretamente o projecto pessoal – e sobre o qual pouco ou nada se sabe.

“Música incrivelmente boa”: foi com estas palavras que, no directo, Markl descreveu o alinhamento da rádio, cujo locutor só contava com três seguidores no Instagram — dois deles eram Markl e a ex-mulher Ana Galvão. Em reacção, os portugueses acorreram em peso ao perfil do radialista, proprietário de “uma grande colecção de 78s, 45s e LPs”, que neste momento já soma mais de 56 mil seguidores. “As pessoas não estão muito divertidas com o que está a acontecer [a pandemia de covid-19], mas estão muito disponíveis para ideias destas, percebi instantaneamente que a ‘coisa’ ia acontecer”, diz Markl ao P3. Em segundos, Cal ganhou oito mil seguidores: “Foi a ascensão mais rápida que eu já vi num perfil de Instagram. A partir daí foi sempre a subir.”

Markl descobriu a Arctic Outpost há mais de um ano através da aplicação Radio Garden, que permite encontrar rádios de todos os pontos do planeta. “Sou muito fã de ouvir rádios de outros países, estou sempre à procura, e fui direitinho a um sítio inóspito para perceber se estava a acontecer lá alguma coisa.” E encontrou a Arctic Outpost no Pólo Norte. Há uns dias, retomou a escuta e não resistiu “a investigar um bocado mais sobre Cal Lockwood”. Encontrar o seu Instagram, com somente dois posts, foi “uma epifania”.

Na noite do directo, entre o jazz e os bluesSinatra e Ella Fitzgerald, amontoaram-se os “discos pedidos” lusitanos. E se ainda nessa madrugada de terça-feira Cal emitiu Fuga em Fá Maiorde Mário Laginha, já na quinta-feira de manhã passou Amália Rodrigues, com Covilhã, Cidade Neve.

A enchente nos últimos três dias foi tanta que Cal deixou uma mensagem no site da rádio, acompanhada por um “olá, Portugal”, a lamentar “os problemas de conexão devido ao pico de ouvintes”. Actualmente, já conseguiu aumentar “com sucesso a capacidade do servidor”, algo que preocupa Markl, não vá o radialista estar a gastar muito dinheiro no reforço e depois tudo “esmorecer”: “Acho que temos uma responsabilidade moral, fazer com que as pessoas não se esqueçam que existe esta rádio no Pólo Norte.”

Entretanto, Markl conseguiu que Cal lhe respondesse no Instagram. Na mensagem, que o português partilhou no Instagram, o americano confessa a surpresa e agradece a atenção. O radialista diz ainda que gere uma “pequena estação de rádio em onda média” há alguns anos a partir de Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard, na Noruega. “Era mais para mim, que já ninguém ouve rádio AM”, lamenta Cal, que desafiado por um amigo começou também a transmitir pela Internet. “Não sabia que mais pessoas queriam saber destas músicas antigas.”

“Eu acho que ele está muito espantado com tudo isto”, considera Markl. “Ainda não percebi e tenho muita curiosidade”, assume. O convite, para entrar num dos directos de Bruno Nogueira, continua sem resposta. “Afinal o que é que faz um americano — nem faço ideia de que estado da América é que ele é — na Noruega, naquele sítio?”

Markl não deixa de reforçar o quanto todos procuramos “de certa maneira, nem que seja em pequenas doses, uma espécie de sentido da vida”. “As pessoas terem-se associado a isto de uma maneira tão espontânea foi uma espécie de poesia, ali meio de improviso”, diz. Algo “quase transcendente” que envolveu a união de “milhares”. Mas, por enquanto, “o tipo continua ali sozinho a fazer rádio, naquele sítio distante, uma ilha de neve”. E nem Markl conseguiu voltar a falar com Cal, nem o P3 teve resposta a um pedido de entrevista. “Tudo isto aumenta o mistério.”

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