O tempo do notário

Esta é tericeira conversa da nossa segunda memória, dedicada à polarização.

Vamos falar hoje de uma pessoa nascida em 1220, o que quer dizer há exactamente oitocentos anos de nós. O seu nome era Brunetto Latini, era florentino, era do partido guelfo, e era notário — um dos notários mais interessantes e importantes da história, embora isso não seja à partida motivo para que ele seja muito famoso, até porque as pessoas não são em geral muito fascinadas por notários. Mas fazem mal: o facto de os notários existirem e de poderem assumir os papéis que Brunetto Latini desempenhou durante a sua vida é em si mesmo indicativo dessa revolução perdida — ou dessa revolução não bem chegada a nascer — de que andamos à procura nesta nossa memória.

Os notários são necessários para registar todo o tipo de transacções e actos patrimoniais e legais — e por isso têm de saber ler e escrever. Que eles comecem a emergir e ganhar importância nesta época comprova que estamos perante sociedades crescentemente complexas e que não se podem basear só na palavra dada, e perante transacções mais sofisticadas e de longo prazo que precisam de ficar registadas no papel — ou melhor, no pergaminho.

Entre as operações registadas tem especial importância a contracção de dívidas, e particularmente a contracção de dívidas em nome da comunidade política, da república, da cidade-estado, do município ou da comuna. Sem esse tipo de crédito os estados modernos não teriam nascido. A Florença de Brunetto Latini está numa pré-história dessa história, e a sua figura de notário-político-orador público e diplomata representa mais do que um papel crucial nesses processos.

Esta é a terceira conversa da nossa segunda memória, dedicada à polarização. O seu título é “O tempo do notário”.

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