Covid-19: Universidade de Coimbra fornece bens alimentares a 20 repúblicas

As repúblicas continuam a confeccionar diariamente as refeições, como forma de manter o convívio e a partilha durante o confinamento.

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SERGIO AZENHA (colaborador)

Os Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (SASUC) estão a fornecer bens alimentares a 20 repúblicas de estudantes cujos residentes se mantêm confinados em casa devido à pandemia da covid-19, informou nesta quinta-feira a instituição.

Nesta fase da pandemia, “as entregas estão a decorrer com normalidade” a uma média de 20 das 25 repúblicas da cidade que habitualmente já requisitavam produtos alimentares, disse uma fonte da Reitoria da Universidade, questionada pela agência Lusa.

“São realizadas entregas duas vezes por semana e os bens são entregues à porta dos destinatários”, adiantou, numa resposta escrita, a Divisão de Comunicação da mais antiga universidade portuguesa.

Os SASUC, “em regra (...), fornecem bens alimentares a 25 repúblicas de estudantes”, referiu ainda.

Esta prática remonta aos anos 80 do século XX, quando o então administrador dos Serviços Sociais, António Luzio Vaz, que foi membro da extinta República do Põe-Ta-Pau, falecido em 2011, decidiu que estas comunidades estudantis passavam a poder adquirir nos armazéns dos SASUC, a preços controlados, os produtos alimentares consumidos nas casas.

A medida visava incentivar as repúblicas a preservarem ancestrais usos e costumes comunitários e, ao mesmo tempo, compensar os “repúblicos” pelo facto de não comerem nas cantinas universitárias, onde o preço das refeições tem uma componente social suportada pelo Estado.

As repúblicas enfrentam a covid-19 como mais um teste à sua capacidade de sobrevivência, com algumas destas comunidades estudantis a cerrarem fileiras na partilha e na reinvenção em tempo de pandemia.

A Lusa ouviu representantes de três repúblicas de Coimbra - Kágados, Boa-Bay-Ela e Galifões, que confirmaram que continuam a confeccionar diariamente as refeições, como forma de manter o convívio e a partilha durante o confinamento devido à covid-19, beneficiando da entrega à porta dos bens encomendados aos SASUC. No entanto, Boa-Bay-Ela e Galifões viram-se obrigadas a dispensar as cozinheiras enquanto a pandemia não for debelada.

Já na República dos Kágados, a mais antiga da cidade, fundada em 1933, os residentes continuam a partilhar entre si as tarefas da cozinha, como já faziam há algum tempo.

Nos últimos anos, estas casas comunitárias têm reclamado o reconhecimento e protecção dos poderes públicos, face à aplicação da Lei das Rendas, que já levou ao desaparecimento de algumas.

Há mais de 30 anos, por iniciativa de Luzio Vaz e do então reitor Rui Alarcão, já falecido, o papel das repúblicas na academia passou a ser reconhecido nos Estatutos da Universidade.

Mas também a proposta de classificação do conjunto Universidade de Coimbra, Alta e Sofia como Património da Humanidade, aprovada em 2013 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), reconheceu a importância cultural, histórica e política dessas colectividades.

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