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Picar o Ponto: Profissões que não podem parar

O gato que nos une

Há professores que trabalham no quarto. Outros, preferem a sala. Alguns, a varanda. Poucos, o jardim. Mesmo em tempos de isolamento por causa da pandemia do novo coronavírus, há quem não consiga ficar em casa. Nos próximos dias, a crónica fotográfica Picar o Ponto apresenta sete profissões que não podem parar.

São 8h. Não há jovens em grupo. Nem há jovens solitários. Não há, ponto. Não há pais atarefados. Não há buzinas nem gritos. Insultos também. Não há o beijo de despedida. Não há o beijo de amor. Não há as passas num cigarro partilhado. Não há os gritos das brincadeiras. Não há o remate fantasia à Messi. Nem a cabra cega. Não há o nervoso miudinho antes da frequência. Não há a troca de cábulas para o teste. Só um cão vadio. Sem ninguém para lhe dar um pouco do croissant com chocolate. Nem uma festa. Nem a indiferença. Nada. Só os edifícios. O betão. O ferro. O vidro. O plástico e a resina. O mundo sonhado pelo físico norte-americano Samuel T. Cohen, pai da bomba de neutrões. A arma nuclear “mais saudável e moral jamais concebida, pois, quando a guerra termina, o mundo permanecerá intacto”. Esqueceu-se de dizer, Samuel T. Cohen, que o mundo ficaria intacto com uns milhões de seres humanos a menos.

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A bomba de neutrões já não existe. Para bem da humanidade. Mas as guerras continuam. Com outros homens e com outras armas. Com os interesses do costume. O mundo está em guerra. A Terceira Guerra Mundial, como diz a minha mãe. Tenho-a como uma mulher sábia. A luta contra um vírus, não contra nações. Ninguém sabe quantos tombarão. Muitos. Milhares ou milhões. A arma parece ser ficar em casa. Para quem tem casa. A arma parece ser lavar muitas vezes as mãos. Para quem tem água potável. A arma parece ser alimentarmo-nos bem. Para quem tem que comer. A arma parece ser a medicina. Para quem tem hospitais. A arma. As armas. Não estão ao alcance de todos. Uns são soldados de escafandro. Outros, soldados remendados. Vamos continuar a ter as ruas vazias. Por muito tempo.

Paula, professora do primeiro ciclo, já não se levanta às 7h. Já não bebe a bica antes de ouvir o toque da campainha. Diz que já sente saudades. “Sinto falta dos sorrisos dos meus alunos.” Estar em casa é um tormento. Tenta manter os hábitos normais. “Visto-me como se fosse para a escola.” O seu escritório foi transformado em sala de aula. Falta o quadro. As mesas e as cadeiras. E falta o fundamental – as crianças. Agarra-se ao computador e envia fichas aos alunos. No fim, distribui beijos. Como se estivessem em planetas distantes. “É estranho. Muito estranho.” Fátima corta cartolinas. É para “um aluno que ainda não sabe as cores”. Também sente saudades. Como a Guiomar, “que só quer é que isto acabe.”

São apartamentos. São moradias. Entro com todo o cuidado. De máscara e luvas. Não toco em nada. Presos e à espera estão agregados familiares inteiros. Agarrados às notícias. Sempre com a esperança que o pivô lhes diga que tudo isto acabou. Mas tardam as boas novas. Há professores que trabalham no quarto. Outros preferem a sala. Outros, o escritório. Alguns, a varanda. Poucos, o jardim. Trabalhar em casa para um professor “não é nada estranho": “Sempre o fizemos. São horas e horas a preparar aulas, a corrigir testes, a fazer grelhas de avaliação.” Pilar gosta de ter o computador no regaço. Trabalha no quarto. Quer ir para a escola. Mas tudo isto está a ser desafiante. Mas “muitos alunos não têm computador, impressoras ou Internet, o ensino não está a chegar a todos”.

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As escolas e as universidades continuam sem alunos. Tudo está suspenso. Elizabete procura o ar da varanda. Celeste procura a sombra da palmeira. E João dá uma aula por Skype. Uma aluna mostra o seu gato. “Nunca pensei ter um gato nas suas aulas, professor.” Riem-se. Um riso colectivo sem o eco da sala de aulas. Só falta o reencontro. E esse também chegará.