Coronavírus: cada país conta os mortos à sua maneira e o retrato real da pandemia ainda vai demorar

Alguns países testam mais e têm uma aproximação melhor ao que será o quadro real. Critérios de teste diferentes dão também taxas de letalidade diferentes, como é o caso de Itália e Alemanha. Ainda vai demorar até haver um melhor retrato da pandemia

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A Alemanha tem centros de testes "drive-through" a funcionar desde o início do mês RALPH ORLOWSKI/Reuters

Uma coisa é certa: os casos confirmados de infecções por coronavírus são apenas uma fracção dos casos reais, seja na Alemanha ou Itália ou Portugal. Outra coisa é também certa: é demasiado cedo para se ter uma ideia da letalidade da doença causada pelo vírus, ou seja, o número de mortes em relação ao número de infectados. E mesmo as comparações entre países sofrem de vários problemas, incluindo a quantidade de testes feitos e a quem.

Um dos casos em que foi muito mencionada a taxa de letalidade que parecia ser especialmente baixa foi a Alemanha. Para além de uma série de outros factores, os números espelharam de algum modo a política de testes, muito mais alargados na Alemanha, e quem foi testado: na Alemanha, só 18% dos infectados tinham mais de 60 anos e a idade dos casos positivos era em média 45 anos (em Itália era 63).

Outro detalhe: a Alemanha não realiza testes post-mortem, ou seja, se alguém foi testado antes de ser internado e morrer, entra na estatística, se morreu antes de ser testado, não - o que deixa algum espaço aberto para escaparem óbitos de pessoas com outros problemas de saúde, que são um grupo em especial risco para a covid-19. Em Itália e Portugal, pelo contrário, têm-se feito testes post-mortem.

Lothar Wieler, presidente do Instituto Robert Koch, que tem sido a autoridade de saúde responsável por seguir a pandemia na Alemanha, argumenta que não faz sentido testar após a morte quando se fazem tantos testes em fases anteriores. 

Mas os próprios peritos alemães vinham a alertar para o facto de estarem um passo atrás de países como Itália e Espanha na progressão da pandemia e avisado que a taxa de letalidade ia parecer cada vez maior por um efeito estatístico: com o aumento de casos, os testes iriam ser dirigidos cada vez mais para os doentes e não iriam apanhar tanto os infectados assintomáticos. Com o aumento de infecções iria também aumentar o número de mortos. Estes dois factores deverão fazer com que a relação doentes/mortos se aproxime cada vez mais dos outros países.

Peritos de saúde pública desvalorizam, no entanto, estas diferenças entre o modo de os países testarem e contabilizarem infecções e mortes. Lauren Gardner, a professora de engenharia de sistemas e especialista em epidemiologia que criou a página da Universidade Johns Hopkins que mostra os dados da pandemia por país em todo o mundo, diz que estas variações “não têm, em geral, impacto nas políticas” que cada país segue, disse à revista Fortune. O mesmo artigo citava ainda uma porta-voz do Centro Europeu para Prevenção e Controlo de Doenças que desvalorizava também as variações tanto a nível nacional como a nível regional: “A vigilância detalhada é um desafio em situações epidémicas de desenvolvimento rápido”, disse.

As autoridades de Saúde francesas anunciaram entretanto que se preparam para um novo modelo de estimar a dimensão da pandemia. A ideia, explicou esta sexta-feira o responsável pela organização de saúde que monitoriza o novo coronavírus, Jerôme Salomon, é não contar apenas com os resultados de testes para ter um quadro do que se passa no país, mas sim incluir também em estimativas baseadas nas comunicações semanais de uma rede de profissionais de saúde pelo território.

Vários países têm sublinhado a necessidade de ter mais informação, sobretudo para decidir as medidas a tomar após a descida do pico das novas infecções. Alemanha e Reino Unido têm vindo a público com planos: a Alemanha com um estudo alargado centrado em testes de anticorpos envolvendo cem mil pessoas, e o Reino Unido com a ideia de fazer testes de anticorpos em grande escala, tendo anunciado a encomenda de 3,5 milhões destes testes.

Os testes de anticorpos, esperam os investigadores, dariam uma melhor ideia da dimensão da pandemia do que os usados para determinar se a pessoa está infectada no momento em que faz o teste, e poderiam permitir ver que pessoas são resistentes ao novo coronavírus e estas poderiam deixar de ter de cumprir isolamento social.

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