Paulo Pimenta

A vida não vai nem pode voltar ao normal de um dia para o outro

Investigadores apresentam um cenário para Portugal que expõe um novo pico de novos casos quando as medidas mais rigorosas de isolamento forem levantadas.

Há muitos cenários apresentados por investigadores que querem tentar estar um passo à frente desta pandemia, antecipando a sua evolução e dinâmica. A matemática Gabriela Gomes, especialista em epidemiologia que trabalha na Escola Superior de Medicina Tropical de Liverpool, no Reino Unido, fez um exercício a pensar em Portugal, usando a Itália como comparação. O seu modelo diz-nos que se conseguirmos eliminar uma grande primeira onda de novos casos de covid-19 com as actuais medidas, teremos de nos preparar para uma nova onda de casos logo que a estratégia de isolamento seja interrompida. Por isso, avisa: “Será imprudente interrompermos o isolamento de forma abrupta.” As nossas vidas não vão (nem devem) voltar ao normal de um dia para o outro.

“Os mais optimistas defendem que, suprimida a onda inicial, a generalidade da população poderá voltar à vida normal e os danos de uma segunda vaga serão evitados por estratégias de isolamento de grupos de risco, nomeadamente pessoas com mais de 70 anos de idade”, refere Gabriela Gomes ao PÚBLICO. Parece óbvio que a investigadora não está no grupo dos optimistas quando avisa: “Os nossos modelos indicam que é altamente improvável que isto resulte. Se a supressão for bem-sucedida (o que se espera que seja no caso de Portugal), a segunda onda virá com muita força.”

No trabalho enviado ao PÚBLICO, são apresentados dois modelos, um elaborado por Gabriela Gomes que nos mostra uma previsão dos casos confirmados em Portugal e na Itália e outro elaborado por Ricardo Águas, um outro investigador português que se encontra a trabalhar na Universidade de Oxford (também no Reino Unido) que colabora com a matemática portuguesa. No primeiro modelo, as curvas mostram vários cenários para a evolução da pandemia, com a linha preta a projectar o trajecto da pandemia sem intervenção e os traços a cores a responder a dois cenários de distanciamento social. A investigadora percebeu que com medidas de distanciamento moderado de 25% “estamos simplesmente a aplanar a curva, aumentando ligeiramente a duração da epidemia sem impedir que se desenvolva imunidade de grupo”. Por outro lado, com medidas mais rigorosas que representem um distanciamento a 75%, “interrompemos efectivamente a transmissão antes que a imunidade de grupo de desenvolva, deixando a população susceptível para uma segunda onda quando a intervenção terminar”. 

PÚBLICO -
Foto
DR

Nestes gráficos, o ponto de partida fez-se com os dados divulgados esta quinta-feira e (no modelo) as medidas de distanciamento são levantadas no final de Julho. Na dura previsão até Março de 2021, há uma segunda e assustadora onda desenhada entre os meses de Setembro, Outubro e Novembro. “As medidas mais drásticas não permitem que se desenvolva imunidade de grupo, mas esse é um custo que temos de suportar porque, caso contrário, teríamos uma sobrecarga do SNS já no imediato.” A vantagem é essencialmente essa, explica. “Adiamos o problema e teremos mais tempo para procurar soluções.”

Gabriela Gomes sublinha que “a letalidade da covid-19 em pessoas saudáveis é mais baixa, mas está longe de ser nula” e que “o isolamento dos grupos de risco nunca será total”. Assim, e com a chegada de uma segunda onda epidémica, as “medidas de isolamento de idosos não serão suficientes para evitar nova sobrecarga do sistema de saúde nem a elevada fatalidade da doença”.

PÚBLICO -
Foto
A investigadora Gabriela Gomes DR

Uma app para experimentar cenários

Mas prolongar o isolamento até que surja uma vacina ou tratamento é algo não só improvável como incomportável, a todos os níveis, desde o social ao económico. “A solução estará na forma como voltamos à normalidade. Será imprudente interrompermos o isolamento de forma abrupta. Devemos ir levantando as medidas de distanciamento de forma gradual, começando pelas pessoas consideradas com menor risco de transmitir o vírus e/ou de adoecer caso sejam expostas”, propõe. A investigadora aposta ainda no papel “importantíssimo” das pessoas que recuperaram da infecção e que presumivelmente terão desenvolvido algum tipo de imunidade. “As pessoas imunes poderão circular sem restrições e gradualmente ir repondo o normal funcionamento da nossa sociedade”, defende Gabriela Gomes, que insiste: “Quando tivermos uma vacina para todos, as restrições poderão ser levantadas para todos.”

Os gráficos enviados por Ricardo Águas, investigador principal na Universidade de Oxford e especialista em modelação matemática de doenças infecciosas, apresentam outro tipo de cenários exclusivamente para Portugal. Aqui, o exercício foi sobre o número de mortes e de camas ocupadas. As linhas mostram o que aconteceria sem nenhum tipo de intervenção, com o isolamento de idosos e depois adicionando-se à protecção deste grupo de risco outras medidas de isolamento de 25% e de 75%, numa janela temporal que se estende apenas até final de Julho. Neste caso, não se tentou prever o que aconteceria se as medidas fossem interrompidas e o resultado é bem mais animador, com um registo abaixo da linha que mostra o limite da resposta de saúde pública.

PÚBLICO -
Foto
DR

Além da versão menos assustadora dos próximos meses, Ricardo Águas também tem estado a trabalhar numa ferramenta muito versátil, que pode ser útil para investigadores e decisores políticos, mas também é interessante para qualquer leigo minimamente curioso. Trata-se de uma app que permite brincar com diferentes cenários e observar o seu impacto imediato nas linhas dos gráficos. “A aplicação é uma ferramenta de divulgação científica com o intuito de clarificar o quão importante é a adopção rigorosa das medidas de controlo propostas para controlar a epidemia”, refere o investigador.

Ali encontramos cada vez mais opções de refinar a nossa pesquisa. Assim, é possível, recrutar os dados com precisão de Portugal sobre “informação demográfica, contactos, composição das casas (média de pessoas por agregado familiar), número de camas nos hospitais, entre outras variáveis. Escolher datas e outros pontos de partida. Ver as projecções em dados mais brutos ou destrinçar o impacto de uma série de intervenções (desde lavar as mãos ao fecho de escolas, passando pelo teletrabalho) pode ter nas curvas da epidemia. Para muitas pessoas, a aplicação de Ricardo Águas pode não ter qualquer utilidade, mas útil é seguramente interessante para qualquer um.

Sugerir correcção