Não basta ter “covidários”. É preciso vacinar crianças e continuar a tratar os outros doentes

Médicos dizem que é necessário manter capacidade dos hospitais para responder a outras patologias. Presidente da associação de admnistradores hospitalares nota que, mesmo em alturas de crise, a resposta não pode ser desgarrada.

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Joana Goncalves

O que é que está a acontecer aos “doentes não covid”, como já são conhecidos os pacientes que sofrem de outras patologias, agora relegadas para segundo plano devido à pandemia que está assustar o mundo? E o que está a acontecer com todas as outras tarefas de prevenção que não podem ser adiadas? É preciso continuar a vacinar as crianças e a acompanhar as grávidas e isto não se pode fazer pelo telefone nem por Skype.

Numa altura em que todos os holofotes estão focados na pandemia provocada pelo novo coronavírus e muitas consultas e cirurgias não urgentes estão a ser adiadas, há quem lembre que as outras doenças não desapareceram. “Temos que manter a capacidade dos hospitais para responder às outras patologias. Há menos acidentes de viação, mas continua a haver enfartes, AVC [acidentes vasculares cerebrais] e hemorragias”, observa Nídia Zózimo, médica veterana que lidera uma equipa de urgência no hospital de Santa Maria (Lisboa) e que agora está transitoriamente afastada deste serviço devido à idade (tem 65 anos). 

Há outro fenómeno que está a intrigar a médica, o dos doentes que deixaram de aparecer nas urgências, serviços cuja procura diminuiu substancialmente nas últimas semanas. “Tenho-me questionado: para onde foram?”. Desde o início desta “crise” que a médica tem defendido que os hospitais deveriam ter criado áreas dedicadas, circuitos completamente separados apenas para os “doentes covid”. Quando possível, os “covidários”, como lhes chama, no caso dos doentes que não precisam de ventilação, deviam estar mesmo fora dos hospitais centrais.

Há muito tempo que propusemos que houvesse hospitais dedicados apenas para estes doentes”, lembra o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, aludindo à carta enviada para o Ministério da Saúde a 2 de Março, ainda antes de ser anunciado o internamento dos dois primeiros infectados pelo novo coronavírus. Este domingo, a ministra da Saúde anunciou que os doentes com covid-19 vão passar a estar sempre que possível separados dos outros pacientes e que não só os hospitais, mas também os centros de saúde, terão que criar áreas dedicadas até à próxima quinta-feira.

Quanto às outras patologias, Miguel Guimarães concorda que é necessário continuar a pensar em todos os doentes, nomeadamente nos oncológicos e nos pacientes em estado grave. Mas há patologias benignas que podem aguardar, frisa. Quem define quem pode ou não esperar? São os médicos, responde. “Se os doentes muito prioritários devem ter resposta no máximo numa semana, os não prioritários podem aguardar três ou quatro meses. O que é mais ou menos urgente está definido em termos científicos e esse é um trabalho que os médicos terão que ir decidindo dia-a-dia”, acrescenta.

Urgências com menos procura

“O sistema de saúde não vai ficar igual depois disto”, acredita o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Alexandre Lourenço. As consultas por telefone, face to face, via Skype, a utilização dos e-mails, enfim, todo o tipo de modelos que já hoje são usados, passarão a ser muito mais comuns, antecipa. Dá o exemplo do que já é feito actualmente através de aplicações, como o controlo de sintomas na doença pulmonar obstrutiva crónica e na insuficiência cardíaca, o que tem contribuído para reduzir as idas à urgência. “Há muitas oportunidades que podem resultar desta crise”, prevê o administrador hospitalar.

Quanto à procura dos serviços de urgência, observa igualmente que têm menos procura, porque as pessoas estão “com receio de ir aos hospitais”. E, obviamente, as listas de espera para cirurgias e consultas vão-se agravar no futuro, reconhece. Agora, têm que ser encontradas soluções para manter o acesso dos outros pacientes, afirma Alexandre Lourenço, reiterando há aqui uma oportunidade para “reestruturar e repensar a organização dos hospitais”. Quanto à questão das áreas dedicadas, observa que, pelo menos nos grandes centros urbanos, será possível ter hospitais apenas para os casos mais graves de doentes com covid-19, enquanto, em simultâneo, podem ser organizadas unidades de internamento para pacientes de baixa complexidade. 

Para que tudo isto seja operacionalizado, o Ministério da Saúde tem que pensar e planear “dois tipos de resposta, duas linhas paralelas”. “Tem que estar preocupado com todo o sistema de saúde. Mesmo em alturas de crise, não podemos ter uma resposta desgarrada”, sintetiza. É preciso não esquecer também que é necessário ter profissionais para assegurar as outras tarefas. Por enquanto, porém, apenas estão previstas a contratações para reforçar a resposta aos infectados pelo novo coronavírus. “Esta crise pode prolongar-se por mais dois, três ou quatro meses e, entretanto, não podemos ficar paralisados”, enfatiza, ao mesmo tempo que lamenta a falta de equipamentos de protecção individual e de material para fazer testes laboratoriais em número suficiente para responder ao surto de covid-19 em Portugal.