Orgasmo em dois minutos? Portuguesas ainda não descobriram os estimuladores de clitóris

Em Espanha são um sucesso, por cá as vendas são tímidas. A masturbação feminina mantém-se um tabu pois a relação sexual continua a ser olhada na perspectiva da satisfação masculina.

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A masturbação feminina continua a ser vista como um tabu, garantem especialistas Unsplash/ Malvestida Magazine

Estimuladores de ar para o clitóris são a nova tendência nos brinquedos sexuais, que revolucionou o mercado espanhol. Timidamente, as portuguesas também vão descobrindo este brinquedo que promete orgasmos em dois minutos. O PÚBLICO conversou com especialistas que explicam a razão deste sucesso.

O El País apelida-o de “revolucionário” e “feminista": é o Satisfyer, o brinquedo sexual mais vendido na Amazon em Espanha. Afinal o que tem de tão especial este estimulador de ar para clitóris? “Colocou o prazer feminino no mapa”, resume Elsa Viegas, fundadora da marca Bijoux Indiscrets, sediada em Barcelona. Estima-se que o clitóris tenha mais de oito mil terminações nervosas. Estes brinquedos estimulam esta parte do órgão sexual feminino através de pulsões de ar intermitentes, que se assemelham a pequenas sucções.

Há um ano e meio que Maria (nome fictício), 35 anos, não dispensa o estimulador oferecido pelo marido. “Apanhou-me de surpresa porque estava habituada a que a estimulação fosse muito mais demorada até atingir um orgasmo. Acho que, da primeira vez, talvez por ter sido surpresa, o clímax não demorou mais do que um minuto”, recorda ao PÚBLICO.

O Satisfyer e outros semelhantes como o Womanizer ou o Lelo prometem orgasmos em dois minutos graças ao seu poder de estimular não só exterior do clitóris, como também o interior. “A cabeça do clitóris tem muitas terminações nervosas, mas o seu interior tem mais. O ponto G está na parte de trás do clitóris”, explica Cláudia Sousa, responsável pela Maleta Vermelha, um projecto que organiza reuniões sobre sexualidade e venda ao domicílio. 

Ou seja, o estimulador de clitóris não quer substituir o seu parceiro sexual nem o sexo oral, focado no exterior do órgão sexual. “A maioria das pessoas não sabe a extensão do clitóris”, refere Cláudia Sousa. No ano passado, a Maleta Vermelha vendeu cerca de 30 destes brinquedos em Portugal.

As ondas que estes estimuladores produzem são capazes percorrer todo o corpo da mulher. Tanto Cláudia Sousa como Elsa Viegas aconselham a sua utilização dentro de água e garantem que é “impossível magoar”. A sucção é suave e o silicone é muito macio, garante Maria

Prazer centrado no orgasmo

Estes brinquedos sexuais garantem que o orgasmo será atingido em menos de dois minutos. Para muitas mulheres é mesmo assim, como é o caso de Maria, mas não para todas. Carmo Gê Pereira, educadora sexual, alerta para a ligação entre “eficácia, orgasmo e prazer”. “O marketing promete tanta rapidez que podemos sentir-nos frustradas”, diz.

Centrar a sexualidade na eficácia e rapidez pode ser perigoso e revela, segundo Cláudia Sousa, falta de educação sexual, “tanto em adolescentes, como em adultos”. “Este brinquedo faz atingir um orgasmo em dois minutos, só se souber o que fazer com ele”, desmistifica a fundadora da Maleta Vermelha.

Os estimuladores revelam-se mais eficazes do que a penetração no que concerne ao orgasmo. “A maioria das mulheres não atinge o orgasmo pela penetração, nem essa é a prática mais satisfatória”, explica Elsa Viegas da Bijoux Indiscrets. Não quer dizer que a penetração seja um inimigo, alerta Cláudia Sousa: “Se a mulher estiver lubrificada, a penetração dá sempre prazer.” 

O parceiro sexual não precisa ser excluído da utilização destes brinquedos. Maria usa o estimulador quer sozinha, quer com o marido. Contudo, Elsa Viegas explica que usar brinquedos sexuais em casal exige “um nível de intimidade superior”, que nem todos possuem.

O “tabu” da masturbação feminina

“Não tenho problema em dizer que me masturbo”, declara Cláudia Sousa. A especialista garante que “a masturbação é essencial para manter o bom humor, libertar o stress e tensões acumuladas”. A masturbação feminina ainda é um tabu, “não é considerada sequer”, defendem as especialistas. “A partir do momento que sabemos o que gostamos, podemos reivindicar o nosso prazer”, alega Elsa Viegas.

Em conversa com as amigas, Maria diz que é comum ouvir frases como “não preciso de me masturbar porque tenho parceiro”. “É normal as mulheres serem seres sexuais para agradar aos homens, mas se for para prazer próprio já é visto com outros olhos”, desabafa ao PÚBLICO.

A expectativa do prazer está “sempre dependente de outra pessoa, como se não houvesse solução”, lamenta Cláudia Sousa. Elsa Viegas acredita que os estimuladores de clitóris podem ser parte da solução “que vai melhorar a sexualidade” ou, pelo menos, “normalizar o sector” dos brinquedos sexuais.

Texto editado por Bárbara Wong