Economistas propõem análise de dados e cooperação para evitar “estrangulamentos” de bens

Evitar o colapso económico e conter a pandemia são “objectivos conflituantes”. Grupo de 27 economistas defende que cada país da UE deve criar, de forma cooperante, um gabinete para monitorizar o funcionamento dos serviços estratégicos e o fornecimento de bens.

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A possibilidade de haver disrupções na distribuição "é real”, advertem os economistas Rui Gaudêncio

Um grupo de 27 economistas preparou uma reflexão com uma proposta destinada a garantir que as cadeias de produção conseguem estar em pleno funcionamento e que os cidadãos continuam a ter acesso aos bens essenciais durante o isolamento de contenção do novo coronavírus.

Para monitorizar a crise de forma a “manter a economia a funcionar” e evitar disrupções na cadeia, propõem a criação de um gabinete composto por quadros das empresas, analistas de dados, representantes do Governo português, da protecção civil, dos municípios e outros especialistas.

Objectivo do gabinete de monitorização, indica o documento de oito páginas assinado pelos economistas, “é o de recolher e usar dados (big data) em tempo real para prever e, idealmente, evitar cortes no fornecimento de bens essenciais”. Assim que se “preveja uma ruptura na oferta, o governo pode emitir um comunicado avisando a população de quando estará o produto disponível novamente. Nestas situações, as empresas privadas deverão cooperar para, em conjunto com os governos, garantir a fluidez do fornecimento de bens essenciais quer dentro quer através das fronteiras europeias”.

O gabinete, defendem, deve incluir especialistas em logística, investigação operacional, engenharia, big data/data science e análise input-output, tanto do sector público como do privado, de universidades, das forças armadas e de segurança, de empresas grossistas, retalhistas e transporte, das empresas que produzem bens e serviços identificados como essenciais (ou essenciais para a produção de produtos e serviços essenciais), de instituições financeiras, de empresas de consultoria de gestão, além de funcionários públicos e municipais, entidades de protecção civil e juristas”.

Se cada país da União Europeia montar o seu gabinete, seria possível “trabalhar em estreita cooperação entre si, em rede, para garantir que os fluxos de comércio internacional não serão interrompidos” no mercado único. “Se isto não for feito rapidamente, não só a UE corre riscos a médio prazo, mas também, a curto prazo, todos perderão”, advertem, no documento a que chamaram “A crise do covid-19 exige a monitorização preventiva das cadeias de produção e distribuição”, proposta que tem, entre os 27 signatários, Susana Peralta (da Nova SBE), Joana Pais (ISEG), Luís Aguiar-Conraria (da Universidade do Minho), Emma Szhao (do Banco de Portugal), João Cerejeira (da Universidade do Minho), Tiago Sequeira (da Universidade de Coimbra), João Correia da Silva (da Universidade do Porto), Pedro Pita Barros (da Nova SBE) ou Sandra Maximiniano (do ISEG).

Seguir o fluxo de trabalhadores

“Um impacto imediato do surto viral é alguns trabalhadores faltarem por estarem de baixa. O efeito na força de trabalho é ampliado por causa da quarentena que geralmente é imposta aos colegas de trabalho. Adicionalmente, uma das reacções mais comuns ao surto tem sido a exigência de que as pessoas fiquem em casa. Tudo isto impõe uma separação entre trabalhadores; entre capital e trabalho; e também entre fornecedores e clientes, sejam eles de bens intermédios ou finais”, refere o documento dos 27, explicando que a implicação dessa alteração é uma quebra dos fluxos que “ligam as empresas (nacionais ou estrangeiras) entre si e com as famílias”.

As informações dos Serviço Nacional de Saúde (SNS), da Segurança Social e do Instituto de Emprego, sublinham, “serão essenciais para avaliar a disponibilidade da força de trabalho” e, por isso, seria importante recolher em tempo real a informação “sobre o emprego e absentismo e os seus motivos”, logo que “alguém seja declarado inapto para trabalhar, seja devido a hospitalização ou a quarentena”.

“Infelizmente, evitar o colapso económico e conter a pandemia são objectivos conflituantes”, reflectem, explicando as consequências mútuas entre a estratégia de fechamento que se considera necessária para evitar a propagação e a abertura das economias tal como a conhecemos na era da “globalização das actividades produtivas”. Porquê? “Com uma fracção significativa de trabalhadores doentes ou de quarentena, as políticas de fique-em-casa e de fecho das fronteiras, a possibilidade de haver disrupções das cadeias de produção e distribuição é real. Com rupturas na oferta e possíveis picos de procura devido a pânicos, preços flexíveis deixam de exercer a sua função de coordenação da actividade produtiva, dado que as empresas poderão não conseguir responder às variações de preços, por exemplo, por falta de bens intermédios ou de força de trabalho”.

“O fecho, por motivos sanitários, das fronteiras dentro da UE dificulta a circulação de bens e, portanto, a fluidez das cadeias de produção na Europa. Por isso, garantir fronteiras abertas à circulação de bens é fundamental. O fecho das fronteiras nacionais e a mudança da produção de bens e serviços para empresas nacionais irá resultar em mais perdas e desigualdades na Europa, especialmente nos pequenos países (que são mais dependentes de outras economias)”.

Para os economistas, “seja devido à diminuição da procura, à falta de trabalhadores, ou, simplesmente, devido à enorme incerteza que enfrentam, muitas empresas podem parar a produção ou até mesmo fechar”; e “quando isso acontece, os seus fornecedores verão a procura pelos seus produtos a cair e também poderão parar, dando origem a um círculo vicioso”, ficando os clientes sem fornecedores e sob o risco de encerramento, arriscando-se as famílias a ficar sem o acesso aos bens essenciais.

Priorizar bens e serviços

Apesar de já haver notícia de empresas portuguesas que, volvida uma semana da intensificação da crise, já tinham convertido “as suas fábricas à produção de produtos com procura elevada” (como a produção de máscaras e de álcool), os economistas alertam para um risco, o de “os mecanismos de mercado” ou “os ‘sentimentos morais’ dos empreendedores” serem insuficientes “por si só” para acorrer às necessidades gerais. É aí que entra a necessidade de “monitorização e coordenação central seja feita por um gabinete de coordenação”.

“Primeiro, corremos o risco de não nos podermos dar ao luxo de esperar que o mercado ajuste a oferta de bens às necessidades críticas da sociedade. Segundo, o livre funcionamento do mercado pode obrigar a desobedecer às instruções de recolhimento em casa, contribuindo para a disseminação do vírus. Terceiro, dada a excepcionalidade das actuais circunstâncias, os preços podem ser um mecanismo de coordenação ineficaz.”

A função do tal gabinete de monitorização seria o de “detectar problemas (como estrangulamentos ou níveis de produção insuficientes) nas cadeias de produção e distribuição de bens essenciais em tempo real”. Deveria ser encarado, dizem, como um “catalisador de iniciativas do sector privado, com e sem fins lucrativos, que assegurem a sustentabilidade das cadeias de produção e distribuição e dos fluxos de comércio internacional necessárias à disponibilização de bens essenciais”. “Quando se detectam problemas de produção e distribuição, a informação deve passar para entidades como agências públicas (por exemplo, centros de emprego regionais), municípios, associações empresariais, sindicatos e bancos para que os obstáculos à produção sejam removidos de forma coordenada. Se o gabinete de monitorização conseguir identificar os problemas nas cadeias de produção e distribuição, poderá informar a população da disponibilidade de bens de forma credível e tranquilizadora.”

É preciso, em primeiro lugar, “identificar os bens e serviços que devem ser priorizados na actual crise”, em segundo, “determinar as cadeias de produção e distribuição que produzem os bens e serviços desejados” e, como terceiro passo, “identificar os recursos que podem ser afectados às indústrias situadas nas cadeias de produção e distribuição de bens essenciais, sejam recursos desempregados ou recursos afectados a actividades não essenciais.”

Assinam este documento os economistas: Ana Paula Faria (Universidade do Minho); Anabela Carneiro (Universidade do Porto); Aurora Teixeira (Universidade do Porto); Cátia Batista (Nova SBE); Carla Sá (Universidade do Minho); Emma Szhao (Banco de Portugal); Fernando Alexandre (Universidade do Minho); Fernando Anjos (Nova SBE);Francisco Veiga (Universidade do Minho); Joana Pais (ISEG, Universidade de Lisboa); João Cerejeira (Universidade do Minho); João Correia da Silva (Universidade do Porto); José Tavares (Nova SBE); Luís Aguiar-Conraria (Universidade do Minho); Miguel Faria-e-Castro (Reserva Federal do Banco de St. Louis, Estados Unidos); Miguel Portela (Universidade do Minho); Odd Straume (Universidade do Minho); Óscar Afonso (Universidade do Porto); Pedro Bação (Universidade de Coimbra); Pedro Brinca (Nova SBE); Pedro Pita Barros (Nova SBE); Rita Sousa (Universidade do Minho); Rosa Branca Esteves (Universidade do Minho); Sandra Maximiniano (ISEG, Universidade de Lisboa); Sara Cruz (Universidade do Minho); Susana Peralta (Nova SBE); e Tiago Sequeira (Universidade de Coimbra).