Somos todos SNS

Vivemos num mundo de grande hipocrisia social. Não há muito tempo víamos, aqueles que hoje batem palmas ao SNS, a criticarem a greve dos enfermeiros.

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Nuno Ferreira Santos

Por todo o mundo temos assistidos a enormes ondas solidárias para com o pessoal da saúde, médicos, enfermeiros, auxiliares de acção médica e todos os que de uma maneira ou de outra tem estado na frente da batalha contra o desconhecido, o, ainda, desconhecido vírus!

É muito fácil, em momentos de enorme fragilidade social, devido ao medo provocado pelo desconhecido, entrarmos nessas ondas solidárias de preferência de telemóvel em punho para registar e posteriormente publicar nas redes sociais o quão solidários somos.

No entanto, muitas vezes a solidariedade acaba aí! Infelizmente é assim!

Quando pousamos o telemóvel, voltamos à vida real e aí mostramos, por vezes, o pior que há em nós. Corremos para as bombas de gasolina com depósitos extra, sem pensar no vizinho, conhecido, que não merece a nossa solidariedade; de seguida corremos para o supermercado onde açambarcamos tudo o que há, lutando ferozmente pelo produto que começa a escassear, seja o papel higiénico seja qualquer outro.

Não contentes, ao chegar a casa colocamos na Internet a nossa conquista e ainda anunciamos que estamos disponíveis para vender, seja máscaras, seja gel desinfectante ou mesmo papel higiénico a preços que o mercado, esse amigo dos poderosos, exige!

No final do dia, não chegando as palmas do dia anterior, vamos todos à janela bater palmas e cantar o hino, acrescentando ao nosso altruísmo também o patriotismo!

Felizmente os supermercados começaram, com bom senso, a disponibilizar horários diferenciados para os “essenciais”, aquele que se expõe, diariamente, pelos outros e que não tinham nem sequer tempo para se abastecerem!

Vivemos num mundo de grande hipocrisia social. Não há muito tempo víamos, aqueles que hoje batem palmas ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), a criticarem a greve dos enfermeiros, que reclamavam melhores condições de trabalho, seja financeiro, seja de meios, para evitar a debandada em massa, emigrando, que existe na classe.

Perceba-se que as condições dos profissionais de saúde, sejam médicos, enfermeiros ou auxiliares, são as condições do próprio SNS que está em causa. Mas na altura ninguém veio à janela aplaudir as reivindicações. Vieram, isso sim, criticar e até chamarem-lhes “assassinos” por estarem a brincar com a saúde dos portugueses.

Pode ser que esta crise provocada pelo coronavírus nos leve a todos a uma profunda reflexão sobre a sociedade global e que nos faça entender o que de facto é essencial para a nossa sobrevivência em comunidade.

Deveremos colocar no topo das prioridades nacionais, em conjunto com outras áreas, como a educação, as que mantêm a sociedade em funcionamento fazendo com que no meio de uma crise mundial possamos ter, saúde, educação e bens de primeira necessidade!

Temos de ser, hoje e sempre, todos SNS!